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As Crônicas do Rugido
#1
Para ser sincero, eu ainda não tenho um nome para esta estória. A intitulei de As crônicas do Rugido por enquanto, por que me pareceu apropriado. Pretendo fazer disso uma estória longa, já tenho em minha cabeça todo um mundo formado, com uma riqueza de locais, pessoas e cenas. Pretendo seguir em frente, com ou sem aprovação... Mesmo assim, apreciaria imensamente se lessem, e dessem um parecer sincero e construtivo.

Essa obra não tem qualquer fim lucrativo, ou vínculo real com qualquer história já feita. Trata-se de uma fã-fic, criada por um fã da temática furry. Apenas voltada para entretenimento gratuito daqueles que porventura venham a lê-la. 
Escrito e idealizado por SadLion. 
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Capítulo 1

“Dia 5 – Lua Cheia do Período da Colheita – Ano 455. Almaleão jaz em cinzas atrás de mim. O grupo que vai conosco é maior do que eu imaginava enquanto meus conselheiros e o restante de um contingente de guerreiros tentam organizá-los. Todos têm muito medo, muito receio do que pode vir a seguir... Mas seguiremos as determinações de meu marido; se Almaleão caísse, atravessaríamos as montanhas de cristal em direção ao desconhecido. “ 

“ Dia 4 – Meia Lua do Período da Fartura – Ano 455 – O trajeto foi difícil. Muitos pereceram na travessia, os mais fracos ficaram para trás, mas ainda sobramos muitos de nós. O terreno é acidentado e extremamente difícil de se ter acesso, foi custoso chegarmos até aqui. Mas as terras não parecem tão ruins quantos julgamos, parece que haverá espaço para todos. Eles não nos seguirão além das montanhas, e aqui ficaremos e reconstruiremos nosso mundo. ” 

“ Dia 2 – Lua minguante do Período dos Ventos Gelados – Ano 456 – Como eu queria que meu marido estivesse aqui... As diversas casas brigam entre si pelo poder e pelo trono, e parecem pouco dispostas a ceder. Os juramentos feitos, os laços criados, as obrigações e toda a harmonia parecem ter tombado junto de meu marido. Sempre achei que estivéssemos unidos pelo amor, seria tudo ilusão? Será que sempre foi o medo que promoveu nossa harmonia? ”
 

- Você deveria parar de ler isso por um instante. – Disse aquela voz calma e apaziguadora, que esticou seus dedos velhos e escuros para fechar o livro. – Isso só vai fazer crescer seu medo no momento.

- Eu não sei como seria diferente.
 
Lance engoliu em seco enquanto levantou seu olhar pelo ambiente mais uma vez. As paredes frias, construídas cuidadosamente com grandes blocos de pedra polida não davam para aquele lugar nenhum tipo de tom amigável. Estavam em um gigantesco corredor, adornado com tapetes, enfeites e pequenas bandeirolas que predominavam as cores brancas e vermelhas. Candelabros e grandes velas já queimavam pelo local, pois a noite se aproximava muito lentamente. Á frente havia uma enorme porta de um ferro pesado e rústico, que parecia enormemente pesada e imponente, com sua superfície polida. 

- Você... Realmente tem certeza que essa é a melhor idéia?

- Se é uma boa idéia, eu não sei dizê-lo, Mestre Lance. – Disse mais uma vez a gigantesca tartaruga, que esboçava um sorriso tranqüilo para o leão. – Mesmo assim, é a melhor que temos.

Lance mais uma vez olhou para seu amigo e tutor. Uma enorme tartaruga bípede, em seus dois pés e com longos braços enrugados que se movimentavam com uma lentidão e firmeza equivalentes quando agiam. Tinha um enorme casco que juntamente com sua pele enrugada, tinha uma cor verde-musgo apagada. Seu pescoço era longo, e seus olhos negros calmíssimos enquanto ajeitava com lentidão o grande pedaço de pano dourado que tinha atravessado em seu peito, fixado por um nó em suas costas. 

- Enquanto esperamos a resposta, deixe-me contar uma história que talvez lhe apazigúe e que não esta em seu livro, mestre Lance. – A tartaruga respirou profundamente, e com sua lentidão habitual foi contando. – Quando seus antepassados vieram para as Terras Novas fugindo da guerra com os humanos, pelas Montanhas de Cristal, as diversas casas brigaram pelo poder. Antes jurado ao Rei do Antigo Império, com o Império reduzido a cinzas, juramentos nada mais representavam e logo os remanescentes da raça dos leões começaram a ser caçados e mortos.

- Uma dessas casas eram os Presas de Prata, os lobos. A casa deles se destacava dos demais lobos de sua raça, pois nascem com presas de prata: mais letais e mais resistentes, o que sempre lhes rendeu a liderança da raça. Logo, eles se voltaram contra os leões, quebrando seu antigo juramento.

- Era... Era... – Gaguejou Lance, aumentando sua voz. – Era assim que queria me apaziguar?

- Alguns se mantinham leais, muito leais. Um deles negou a própria casa, arrancou suas presas de prata em sinal de vergonha e após juntar aqueles que o apoiavam, partiu e fundou esta cidade: Wolfric. Esses não mais se chamavam Presas de Prata, agora eram a casa Presas Brancas. E é aqui que estamos Mestre Lance. Dentro deste salão existe a última da casa Presa Branca... Valira Presa Branca, regente de Wolfric. Tenho esperanças que ela certamente nos ajude.
 
As palavras da tartaruga cessaram no exato momento em que a enorme porta de metal rangeu e se abriu. De lá saiam dois enormes lobos de pelugem acinzentada, usando pesadas armaduras que apenas deixavam suas patas traseiras livres para sua mobilidade. Eles eram realmente enormes, tendo quase dois metros de altura, e vinham em quatro patas. 

- Lady Valira concorda em recebê-los.

A tartaruga sorriu para Lance, que estava com roupas que lhe cobriam todo o corpo: Desde sua grande juba dourada até suas pernas, com um enorme vestido e uma grande touca de cores marrons. Logo os dois entravam no enorme salão circular que lhes era apresentado. O salão era enorme, em formato circular. Vasto, porém vazio, à exceção dos candelabros diversos que o iluminavam, das duas enormes estátuas de aço com o formato de lobos que se encontravam nas extremidades e do trono, o grande trono de madeira que tinha em seu centro, apenas antecedido por uma breve escada, pois o centro da sala convergia para o alto, deixando o trono alguns palmos elevado acima do chão. Sentada no trono estava à coisa mais intrigante daquele salão: Era uma loba enorme, que tinha seus dois metros e meio de altura. Sua pelugem era prateada enquanto brilhava de forma pálida com a luz que emanava das velas, seu focinho não era tão longo quanto dos outros lobos e tinha uma expressão bela e fria em seu rosto. Não usava vestido algum: Suas vestes eram um peitoral feito de ouro e grandes joelheiras igualmente douradas. Em suas enormes garras havia um grande cálice dourado, adornado com pedras preciosas brilhantes. 

- Eu ouvi a coisa mais absurda! – Disse ela, sua voz era límpida e terrível. – Ouvi que uma tartaruga de nome Longage veio se apresentar até mim. Eu já ouvi esse nome uma vez, nas antigas histórias... O último dos nossos reis tinha uma tartaruga com este nome como conselheira.

- E esta sou eu. – Disse Longage enquanto se aproximava mais alguns passos do trono, apoiado em seu velho cajado de madeira. – Mas não entendo por que isso é um absurdo.

- Por que os nossos não tem um rei há 500 anos. – Disse ela de forma rude, bebendo um grande gole do cálice de ouro. – Desde a guerra com os humanos... E ninguém vive tanto...

- Eu sei disso, pois eu estava lá. – Longage interrompeu Valira, que fez uma cara irritada com isso. – E nós tartarugas vivemos tanto. 

Um silêncio cortante se fez na sala enquanto Valira e Longage pareciam lutar com olhares: Ela tentava decifrar a mente dele sem sucesso algum. A batalha acabou quando ele sorriu. 

- E eu estava lá quando seu antepassado arrancou suas presas de prata em vergonha ao próprio clã. E é por isso que estou aqui. Mas não sei por que nos questiona tanto. Estamos sozinhos no salão, não teme inimigos ou uma emboscada?  

Valira riu, uma risada cristalina e debochada que ecoava pelo enorme salão de pedra. Lance quase deu um pulo para trás, aterrorizado pela loba. 

- Eu duvido que conseguissem sair deste salão vivos se tentassem. A não ser que tivessem alguns milhares de soldados muito bem armados. Mesmo assim, não me derrotariam em batalha. Nunca achei um guerreiro melhor do que eu. E caso um dia ache, não me importaria de morrer para suas mãos.

- O tipo de pensamento que Gaedon teria.  

- Aqui é a casa dos Presas Brancas, dos melhores e mais honrados guerreiros lobos que existem a oeste das Montanhas de Cristal. E até além delas! – Disse ela de forma orgulhosa, com uma nova golada de vinho, deixando que parte caísse por seu queixo, molhando seus pêlos do rosto. – Aqui treinamos corações antes dos músculos.  

- Então devo considerar que você ainda cumpre o juramento dos seus para com o rei?

- Não há rei para cumprir. Mas eu sei do que fala, e sim; se ele existisse... Eu cumpriria o juramento de meus antepassados, diferente dos pérfidos Presas de Prata.  

Ela por fim abriu sua boca: Em sua enorme arcada dentária faltavam as presas, estavam arrancadas e no lugar havia um grande vazio. Aparentemente ela arrancara, cumprindo o juramento de seu ancestral Gaedon Presa Branca, e negando aos Presas de Prata que sujaram a honra do clã. Longage sorriu de forma satisfeita: Aquela era a prova que ele desejava. 
Lentamente ele se aproximou de Lance; que tinha sido um mero expectador até aquele momento. E retirou seu capuz marrom. A enorme juba dourada do leão saltou para fora, bem como era possível ver seu rosto peludo e seus olhos arroxeados. Os olhos de Valira se esbugalharam, enquanto ela deixava lentamente sua taça dourada cair no chão e sujá-lo com vinho. Ela fez iminência de falar algo, mas engoliu em seco, totalmente incrédula. 

- Este é Lance Leão da Tempestade: o último descendente da casa Leão da Tempestade e seu rei. E ele vem para cobrar o juramento de lealdade dos lobos.

Capítulo 2 - As chamas na cidade da Lua Prateada.

“...Sua juba era ouro, seus dentes marfim...
 ...A balada do leão começa assim...
 ...Poderoso e altivo, seu rugido era o trovão...
 ...Bondoso e sábio, não lutava em vão...

“...Protegia a todos, seu sorriso brilhava...
 ...Acalentava os mais fracos, escuridão não durava...
 ...Até nos momentos de maior escuridão...
 ...O valente leão protegia a nação.”
 

Longage interrompia Lance na última estrofe: A tartaruga entoava o canto em sua voz calma e lenta, mas perfeitamente harmoniosa. A tartaruga abria um sorriso alvo para Lance, antes de lançar um olhar pela janela do quarto em que ambos estavam. Seus olhos negros fitavam uma pequena criança-loba que andava ao lado da mãe nas ruas pedregosas de Wolfric, próximo ao palácio. A noite já havia caído, e uma lua brilhante e prateada lançava raios generosos sobre a cidade-estado de Wolfric, enquanto aqui ou ali, nas grandes construções de pedra polida da cidade algumas luzes se acendiam, saiam alguns feixes de fumaças de algumas casas com suas chaminés e a agitação normal dos mercados cessava: A cidade parecia cair num sono profundo.

- Lady Valira concordou em nos ajudar, Mestre Lance. – Disse Longage, que estava sentado em uma poltrona vermelha a beira da janela, que era aberta para fora. Seus dedos iam até uma bacia, pegando um damasco e o comendo lentamente. – Esta noite dormiremos em paz.

- Eu nunca vi uma cidade tão grande, Longage.

- E existem algumas maiores do que esta. – A tartaruga sorriu. – Os nossos fizeram coisas maravilhosas. Você deveria ter visto Almaleão antes da queda do Império. Não a chamavam de “Cidade Dourada” a toa.

- Almaleão era uma das maravilhas do mundo oriental; do outro lado das Montanhas de Cristal. Era um lugar enorme, com ruas belíssimas, jardins maravilhosos e fontes termais que passavam por todo o lugar. Ninguém adoecia, e o único choro que você ouvia vinha de bebês recém-nascidos, que não demoravam muito a sorrir.

- E mesmo quando viemos fugindo da guerra, para o Ocidente do mundo. Fizemos grandes coisas. Mesmo assim, a vida é muito difícil aqui para o nosso povo. A maioria de nós vive sobre a tutela dos senhores das Cidade-Estado, alguns são tirânicos. Outros, como Valira, são valorosos e leais.

- E para os que não vivem dentro das Cidade-Estado, a vida é bem difícil. Muitos do nosso povo se debandaram durante a crise do reino e viraram mercenários e ladrões, vivendo por ai a pilhar. Sem a autoridade do rei, nem o domínio de todas as terras... Tudo o que resta ao povo é esperar por dias melhores e orar aos Deuses que sua fazenda não seja atacada, nem pilhada.

Lance olhava pela janela. Olhava para as estrelas e se encolhia na poltrona que estava sentado enquanto seus olhos roxos brilhavam. Uma brisa fresca entrou pela janela e banhou sua juba, fazendo seus pelos se agitarem. Era muito bom sentir um vento em sua juba, já que passava a maior parte do tempo com toucas e gigantescos véus, tentando desesperadamente esconder sua identidade leonina do mundo.
A pesada porta de madeira do quarto se abria rapidamente. Valira entrava apressada, trajava as mesmas roupas que usava quando os três se encontraram mais cedo. Na realidade, estava idêntica: Seus pelos apenas estavam um pouco mais desgrenhados. Ela cruzava seus braços enquanto seus olhos frios brilhavam como duas estrelas distante do outro lado do cômodo, sondando Lance com uma profundidade assustadora.

- Então a nossa anfitriã veio nos fazer companhia. – Disse Longage, comendo outro damasco enquanto dava um sorriso animado. – Achei que tinha nos esquecido.

- Nem se eu quisesse, tartaruga. – Ela disse atônita, exteriorizando finalmente sua agitação. – Mas como isso pode ser verdade? Os leões estavam mortos!

- Não todos. – Essa era a vez do tímido Lance falar, afundando na poltrona com temor pela loba. – Meus pais... e avós viveram durante anos em um lugar afastado.

- Por que nunca vieram para cá? Por que nunca pediram a ajuda de ninguém? – Ela questionava, parecia se sentir traída deste fato se fazer oculto. – Meu antepassado arrancou as presas em lealdade ao rei! Não merecia saber disso? Saber da existência da última linhagem real?

- Você provavelmente deve entender o por quê disso. – Disse Longage, agora de uma forma mais fria. – Quando viemos para as Terras Novas, muitos dos que considerávamos amigos voltaram-se contra nós pelo trono. Não sabíamos quem considerar amigo, ou inimigo. As casas reais tramavam pelas nossas costas assassinatos, execuções, estratagemas...

- O clã Presa de Prata encomendou o assassinato da Rainha. Os Raposas de Fogo se voltaram abertamente contra nós. Os hoje Rjars do deserto promoviam estratagemas para sujar a imagem da família real. Fugimos, apenas com aqueles mais próximos, a quem poderíamos confiar. Durante anos eles viveram nas encostas das Montanhas do Vento, escondidos de tudo e todos.

- Até que...? – Perguntou Lady Valira, levantando uma sombrancelha.

- Até que fomos achados.

Lance engoliu em seco enquanto seus olhos arroxeados ficaram mais brilhantes pois se enchiam lentamente de água.Ele tentou conter as lágrimas, que mesmo assim, insistentes, rolaram por sua juba. Longage olhava de forma preocupada para ele, esboçando uma face triste. Valira abriu a boca para falar algo, algo consolador. Mas Longage levantou a mão, fazendo um sinal negativo e ela se conteve.

- Agora que sabem da nossa existência... – Disse Longage, explicando. – Não é seguro lá fora.

- Vocês podem ficar em Wolfric o tempo que precisarem, ocultos.

- É muita bondade da sua parte, Lady Valira. – Disse Longage, de forma agradecida, fez uma breve reverência com a cabeça. – Mas agora acho que Mestre Lance deveria dormir, o dia foi exaustivo e ele finalmente poderá ter uma noite de sono realmente reparadora.

Levantou-se calmamente, deu alguns passos para frente e beijou o topo da cabeça de Lance. Mastigando um último damasco, ele segurou em uma longa vela e sorriu no meio da escuridão, se retirando prontamente juntamente com Valira. Lance conseguiu ouvir a voz dos dois conversando no corredor,até que desapareceram.
Lance perguntaria mais uma ou duas coisas, não fosse o estado de cansaço que seu corpo se encontrava. Não via uma cama macia fazia muito tempo, e quando ele se atirou na grande cama do quarto, ela lhe pareceu uma nuvem de tão macia. O jovem príncipe apagou em poucos instantes, e naquela noite não sonhou.

A noite terminou para ele mais rápido do que poderia pensar, ou a paz. Acordara pouco antes do sol raiar, despertado por gritos longínquos de desespero e um barulho incomum para as noites de Wolfric. Se debruçou no parapeito da janela e teve uma visão que lhe fez esfregar os olhos mais de uma vez: Wolfric em chamas. Casas, prédios, templos e o que mais se poderia imaginar brilhando em um vermelho escarlate e crepitante. Não toda a cidade, mas um pedaço mais ao leste brilhava em chamas e desespero. Da janela em que estava, em uma das torres mais altas do castelo de Wolfric podia-se ver toda a cidade: Antes bela e fria, agora brilhava em chamas por algumas ruas e ruelas. 

Vultos se movimentavam sem cessar, de lá para cá em meio a crescente fumaça que tomava conta da cidade pedregosa.
De longe ele conseguiu ver as ruas sendo tomadas. Grandes hienas com espadas curvadas tomavam as ruas, açoitando e assassinando qualquer transeunte que pudessem achar. Rinocerontes em duas patas, gigantes e agressivos, passavam por cima de tudo que se pudesse ver a frente com gigantescos machados que decepavam a cabeça dos cidadãos com maestria. Lobos, lobos e mais lobos de pele escura e olhos vermelhos, presas de fora pela qual pingava saliva e sangue avançavam pelas ruas espalhando terror e arrombado a porta de casas.

A cidade estava um verdadeiro caos enquanto tropas avançavam violentamente pelas ruas e avenidas, colocando abaixo qualquer um que lhe transpusessem o caminho e sujando as grandes vielas de pedra, majestosamente esculpida, do sangue vermelho da gente de Wolfric.
Lance se segurou para não cair em desespero e começar a chorar, petrificado enquanto observava a cena da cidade queimar. Seu coração quase saltou pela boca quando a porta atrás de si foi arrombada, mas se tranquilizou quando Longage entrou.

- Precisamos ir, Mestre Lance! – Disse ele, atônito. – Precisamos ir, mestre Lance! Eles nos acharam! Eles nos acharam!

Antes que Lance pudesse dizer qualquer coisa, Longage o segurou pelo braço e o puxou para fora do quarto. Logo eles estavam descendo em disparada o enorme hall de escadarias de pedra. A descida foi difícil, pois apenas uma vela iluminava o caminho que descia em uma grande escadaria espiral, até os halls inferiores do castelo.

- Por onde nós vamos sair?

- Eu ainda não sei, Mestre Lance. – Disse Longage, alarmado. – Sairemos pelas portas dos fundos, por onde entra  a comida dos servos do castelo. Coloque sua touca.

Ele ordenava calmamente. Enquanto corria, Lance colocou sua grande touca marrom que escondia perfeitamente sua juba. Logo eles atravessaram o salão principal do castelo, um grande salão de pedra aberto com diversas portas. Lance teve apenas uma visão rápida do que acontecia ali: Diversos guardas lobos, com pelo prateado se organizavam, utilizando pesadas armaduras enquanto corriam em disparada pelo grande portão de ferro do castelo, para a cidade. Provavelmente a guarda da cidade de Wolfric.
A corrida deles durou mais alguns minutos, e logos eles atravessaram a cozinha do castelo, saindo por uma pequena portinha de madeira que dava para uma rua escura, fria e úmida, com um forte fedor.

- Estamos fora. Mas para onde agora?

- Eu ainda não sei, Mestre Lance. – Disse Longage, começando a andar apressadamente. Mesmo velha, a tartaruga tinha uma vitalidade incrível. – Por aqui!

Logo eles estavam correndo pelas grandes ruas de pedra da cidade, pela qual gritos de horror se espalhavam largamente. Três ruas depois deram de encontro com uma grande armada de lobos negros, enormes e cruéis que logo após os verem vieram correndo em disparada na direção dos mesmos.
Ambos começaram a correr na direção contrária, sendo perseguidos por duas dezenas de pares de patas negras. Aquilo parecia inútil: Os enormes lobos se colocavam em quatro patas e corriam no mínimo, o dobro do que ambos poderiam correr.
O mais rápido dos lobos, esboçando um sorriso cruel em seus grandes dentes se aproximou de Lance, abrindo sua boca até que quase conseguiu o alcançar... Lance fechou os olhos, certo de que seu destino seria morrer.
Seu corpo tremia, com um medo excepcional, petrificado pelo medo, amedrontado demais para reagir a aquela criatura feroz que em poucos segundos acabaria com sua vida. Abriu os olhos, estava vivo! Estava vivo, e a cabeça do enorme lobo decepada jazia no chão ao lado de seu corpo inerte, que ainda se contorcia. Foi ai que ele percebeu um grande vulto em sua frente: Era Valira, senhora de Wolfric que com um golpe certeiro de sua enorme espada havia arrancado fora a cabeça do perseguidor, e agora estava banhada em sangue.
A donzela lupina soltou um uivo... Um uivo tão poderoso e ameaçador que fez com que os corações de seus adversários tremessem, e por um momento os lobos negros a encararam com seus olhos vermelhos, agora não tão ameaçadores, tomados de medo e dúvida. Mesmo assim ela continuou: E logo lá estava ela, avançando impiedosamente contra seus adversários, sem medo dos números, brilhando graciosa e mortal a luz da lua de prata.

Dois vieram para cima dela, e não demoraram a jazer inertes no chão. Um deles ela cravou a espada no peito, perfurando-lhe o coração. O outro ela simplesmente deu um salto em suas quatro patas, avançando e cravando suas garras em seu rosto, e estraçalhando a face do animal que não demorou a cair, morto e frio. E mesmo assim, Valira continuava, com um fogo de batalha em seus olhos que não seria apagado tão facilmente.
Tão tenebrosa e mortal era a senhora de Wolfric que Lance apenas foi desperto quando Longage lhe puxou pela mão e eles voltaram a correr. O corpo de Lance doía de medo, e mesmo naquele momento extremo, Longage mantinha uma expressão calma em sua face enrugada, como se pensasse calmamente nas possibilidades de fuga. Enquanto corriam por uma grande avenida que pegava fogo nas casas do lado direito, foram surpreendidos por uma hiena que saltava de cima de uma das casas, gritando em uma voz irritante, que cortava os ouvidos.
Ela aplicava um golpe certeiro de seu machado, de cima para baixo, que era bloqueado pelo cajado de Longage, que habilidosamente o girava nos dedos para apara-lo e jogar a hiena para a frente.

- A TARTARUGA! A TARTARUGA! – Bradava a hiena em uma voz risonha e irritante. – EU ACHEI A TARTARUGA!

E logo a hiena voltou a avançar na direção de Longage, que mais uma vez, em movimentos calmos aparava seu ataque e logo deu um golpe certeiro de seu cajado no meio do pescoço da hiena, que caiu para trás, com falta de ar. Para a infelicidade deles, muitas outras hienas saiam das construções que antes estavam sendo saqueadas, e avançavam na direção de Longage.

- FUJA!

Bradou a tartaruga, enquanto girava o cajado em seus dedos, e com apenas um golpe, segurava dois machados de hiena que vinham voando pelos ares, arremessadas e cravavam na madeira firme de seu cajado rústico. Então Lance virou de costas e correu, amedrontado demais para continuar ali, sem conseguir ver pelo menos uma dúzia de hienas armadas avançando para cima de seu mentor.
Correu durante alguns minutos, com a visão embaçada devido as lágrimas que escorriam. A cidade estava ardente: Por onde corresse, gritos de desespero, corpos inertes, ruas ensanguentadas e casas pegando fogo. Em meio a correria, entrou em uma estreita viela, uma pequena rua sem saída e lá se escondeu. Abaixando-se no chão e chorando.

- Veja só o que eu achei! Um bebê chorando!

Ele ouviu uma voz fria, levantou seus olhos: Era um soldado lobo, vestido com uma armadura de ferro e com uma grande lança em mãos. Sua língua vermelha como o sangue pendia de forma cruel para fora da boca. Lance olhou para ele... Mais uma vez, amedrontado demais para reagir de qualquer forma. O lobo levantou sua lança na iminência de golpear Lance, seu metal brilhava pálido.
O lobo cambaleou e caiu para a frente, e de lá nunca mais levantou. Lance analisou seu corpo: Um virote de ferro havia perfurado sua nuca e o matado instantaneamente. Após constatar que alguém tinha atirado nele, Lance deu um pulo para trás e se encolheu em meio a latas de lixo, tentando se esconder.
Não demorou para que alguém viesse. Um vulto alto e esbelto, com um corpo esguio  se projetava em cima do corpo do lobo morto, pisando sobre ele. Sua cabeça balançava para lá e para cá, como se procurasse algo. Seus olhos, vermelhos como o sangue se fixaram em Lance, que estava abaixado na perfeita escuridão no meio de latas de lixo.

- Você é Lance Leão da Tempestade? – Perguntou o vulto em uma voz suave. – O garoto leão? Não adianta se esconder! Eu estou te vendo! Então é melhor você se identificar!

- Eu... – Sussurrou Lance, ainda incerto. – Eu sou Lance, o leão!

- Então que bom que eu te achei! – Disse aquela criatura, anônima devido a escuridão que se fazia no beco. – Eu sou um amigo. Bem... Pelo menos eu posso garantir estar do seu lado enquanto me pagarem bem por isso. Mas eu tenho uma ética de negócios: Prometo que se alguém quiser pagar mais para eu te matar, te dou uma chance de dar uma oferta maior.

O vulto deu uma risada enquanto se aproximava lentamente. Lance após limpar as lágrimas, se levantou, respirou fundo e juntando o pouco de coragem que tinha resolveu também se aproximar.

- Prazer. Eu sou Lance Leão da Tempestade.

Capítulo 3 

- Lady Valira, trazemos notícias.

O enorme lobo cinzento se colocou em duas patas, tinha uma voz mansa e abaixava a cabeça em profundo sinal de respeito. Valira estava em cima de seu enorme trono feito de madeira: seu braço em uma tipoia, seu corpo coberto por bandagens. Mesmo assim, seus olhos eram vividos como de um animal selvagem.

- E então?

- Sobre os invasores, todos eles foram mortos. – Continuou o lobo cinzento, levantando seus olhos límpidos e igualmente acinzentados – Foi confirmado a presença de mercenários oriundos do Norte, da grande barreira das Terras Selvagens. Sobre o garoto Leão da Tempestade... Nada foi encontrado. Desconfiamos que ele tenha fugido de outra forma que não por terra, a Patrulha Prateada confirma que todos os inimigos foram derrotados, e ninguém poderia tê-lo levado.

Os olhos de Valira faiscaram em fogo, e qualquer um próximo acharia que ela estava prestes a jogar sua fúria para cima do guarda, que tremeu. Ela apenas fez um gesto calmo com a mão e ele se retirou, deixando Longage e Valira sozinhos na grande sala do trono.

- Isso me preocupa, Lady Valira. – Disse Longage, abaixando a cabeça pensativo. Estava sentado em uma cadeira de madeira, a poucos degraus abaixo de Valira. – Aonde estará Lance? Quem o levou?

- Essas são perguntas que eu, nem ninguém nesta cidade sabe responder, Mestre Tartaruga. – Disse ela se levantando, mesmo com a dor dos ferimentos espalhados pelo seu corpo, ela levantava sem esboçar reação. – Mesmo assim, já se fazem quatro dias, e onde quer que o garoto-leão esteja, esta longe demais para o alcançarmos.

- Então minha missão aqui acabou. – Disse a tartaruga se levantando com serenidade. – Devo partir imediatamente.

- Para onde ir? – Insistiu Valira, andando na direção dele enquanto o olhava de cima. – Para o Sul, para as terras selvagens? Para A cidade Púrpura ao Norte? Ou tentará a sorte ao Oeste, nos caminhos da areia? Quem saberá onde ele esta? Fique aqui comigo, em Wolfric, ele voltará assim que puder.

- Não é isso que me preocupa, minha Lady. – Disse Longage, polidamente. Andou lentamente até o parapeito de uma das janelas de pedra, olhando para o céu azul coberto de nuvens. Por um momento Valira o observou, e ele parecia ver muito além do que seus olhos de tartaruga permitiam transparecer. – Onde você esta, Lance?

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- Quem lhe pagou para me resgatar? – Perguntou Lance, fitando os olhos em K. – E você não se chama K... Ninguém poderia ter um nome assim.

- Não me pagaram para te resgatar. Me pagaram para trazê-lo a presença do meu contratante. – Disse o/a gato/a, enquanto lentamente entregava um grande pedaço de pão sovado para Lance. – E não me chamo K. É meu nome de trabalho. O nome que minha mãe me deu, que os deuses gatos a tenham, era muito idiota para esse ofício.

- Qual ofício?

- Eu caço recompensas! – Disse K, de modo orgulhoso enquanto sua cauda marrom-claro balançava no ar. – Caço todo o tipo de recompensa. Desde dentes de ouro de mercadores corruptos até pequenos furtos à senhoras que deixam suas tortas esfriando no parapeito de suas janelas.

- Então você é um assassino, e um ladrão?

- HEY! – K girou habilidosamente sua adaga nos dedos, a mesma que usava para cortar pão e apontou para Lance. – Eu cortaria sua língua por isso se não tivessem me pago tanto!

Lance não sabia do por que K tinha ficado ofendido/a: Se por ele ter usado as palavras no masculino ou por ter chamado o trabalho dele(ou dela) de nomes pejorativos. A verdade é que era impossível olhar para K e saber de qual sexo era, se era macho ou se era fêmea.
Era uma criatura de olhos vermelhos e anatomia felina. Tinha um corpo esguio, que parecia elástico a considerar pela destreza de seus movimentos. Seus olhos eram de um vermelho apagado e extremamente profundo, penetrantes olhos felinos cortados. De sua boca saiam dois dentes protuberantes, mais longos e afiados que os outros, como duas grandes presas, embora não parecessem ameaçadores. Usava roupas largas e estranhas. Um grande casacão de linho branco, com um colete marrom por cima. Uma calça azul folgada, com uma brilhante fivela dourada as prendendo enquanto em seus pés haviam elegantes sapatos fechados de cor verde, e na cabeça um chapelão alto que parecia uma cartola que se arredondava no topo.
K era um espírito livre, falava muito mas dizia pouco; e durante o tempo que ambos tinham ficado juntos, Lance considerava sua companhia boa. Constantemente fazia brincadeiras, parecia paciente e tinha bom humor (mesmo que com uma dose de loucura).
Os olhos de Lance apenas olhavam para a frente, enquanto ele suspirava daquela altitude assustadora. Já estava a quatro dias naquela situação e ainda não tinha se acostumado totalmente, embora o enjoo que aquela altura descomunal lhe provocava tivesse passado.

- É estranho, não é? – Perguntou K com uma pequena risada, passando a língua vermelha em suas presas. – É estranho estar tão alto do chão.

De fato era. Eles estavam a uma altitude tão superior ao solo, que as florestas pareciam apenas pequenos nuances de cor lá embaixo. Estavam dentro de um enorme cesto de vime, sustentado por firmes cordas que se prendiam a um enorme pano resistente desenhado em formato oval, que era enchido com ar quente por uma estranha bugiganga que produzia fogo.

- As pessoas que inventaram chamam isso de “Balão”. – Continuou K, enquanto olhava para frente, parecia que seus olhos haviam captado algo. – Um presentinho do meu contratante. Eu juro para você que se não tivéssemos isso, até eu ia ter problemas para sair de Wolfric com tantos inimigos.

Wolfric, pensou Lance, a imagem da cidade em chamas não lhe saia da cabeça, mesmo que já tivesse se passado quatro dias; e nesses quatro dias, ele apenas voava naquele estranho dispositivo com seu “salvador/salvadora”.

- Suas perguntas estão muito perto de serem respondidas, garoto. – Disse K, com uma risada, enquanto segurava sua enorme besta com uma das mãos, a jogando no ombro. – Ali esta o nosso destino: Meggera!

Lance forçou os olhos por um breve instante. De fato, mas a frente, havia alguma coisa. E a medida que se aproximavam, aquela coisa tomava forma. Ele logo via grandes extensões de fazenda, além das fazendas, um enorme rio que corria veloz até onde os olhos conseguiam alcançar. O rio deveria ter mais de duzentos metros de margem a margem, o que fazia com que diversas embarcações, belas e brilhantes a luz do sol, navegassem nele e no pequeno porto.
Na outra margem do rio havia uma grande cidade. Suas ruas eram largas e feitas de pedras que brilhavam a luz do sol. Havia diversas praças com belas estátuas de mármore e casas de madeira com tetos de feno muito bem trabalhado, por toda a cidade haviam árvores e pequenos jardins, bem como estandartes e adereços que brilhavam em um púrpura brilhante, de modo que o ar parecia limpo e a cidade parecia alegre. A cidade se abria como uma enorme planície: As construções não eram altas, de modo que de onde Lance estava, conseguia ver toda a extensão da cidade, que se estendia por quilômetros e quilômetros.
A enorme planície acabava em uma grande montanha. Uma enorme montanha que se estendia como um cone para o céu, escura e solitária no meio das enormes planícies verdes que se estendiam em seu entorno. E Lance não estava só com K no céu: Diversos outros balões planavam no céu da cidade, pelo menos mais uma dúzia deles. Todos muito ovais, mais com cores e símbolos diferentes. Amarelos, azuis, marrons e laranjas! Um espetáculo no céu.
Lance olhou aquilo maravilhado, enquanto K ria como se se divertisse da situação. Por um momento até pensou que aquela desconfortável viagem de balão havia valido a pena. Uma construção se destacava na paisagem, e fora construída ao pé da grande montanha: Um enorme castelo feito de pedra e metal, pintado de púrpura e dourado, cores que brilhavam majestosamente a luz calorosa da manhã. Com enormes e numerosas torres que se estendiam para o céu, um enorme castelo de grande altitude.
Logo K manobrou o balão, de modo que eles foram lentamente descendo até um grande jardim que havia na frente do castelo. Logo o balão pousou, e Lance saltou para fora da cesta de vime, de modo que seus olhos se abriam para um enorme e agradável jardim. Dentro dele haviam pequenos caminhos de mármore para se seguir, embora ele fosse totalmente tomado por plantas, flores e árvores que tornavam o lugar agradabilíssimo. Pássaros cantavam e o lugar tinha um ar que fazia bem aos pulmões do cansado Lance. 
K saltou para fora do balão, de forma extremamente habilidosa e caiu graciosamente em cima da estrada de mármore.

- Então vamos seguindo? – Perguntou K, começando a andar sem nem ao menos olhar para Lance. – Acho que não vai querer ficar parado aqui.


Logo eles estavam andando. K estava tão apressado/a que Lance mal conseguia alcança-lo, e achava uma pena não parar para ver uma paisagem tão bonita, com uma variedade tão imensamente grandiosa de flores e árvores que faziam uma calorosa dança quando o vento batia. Alguns minutos de caminhada lhes fez chegar a um arco feito de mármore, embaixo do arco, duas figuras lhes esperavam.
Uma era um enorme homem-coruja. Tinha um peito protuberante, olhos atentos e inquietos de um amarelo gema brilhante. Suas penas tinham uma cor azulada e apagada, e seu rosto era pouquíssimo amigável. Ela ajeitou os diminutos óculos circulares que possuía, e olhou com seu de bico aberto para Lance. A outra era um enorme homem-veado, mais alto que a coruja e com um olhar mais bondoso. Seu pelo parecia macio e era de um marrom extremamente claro, que quase chegava a ser bege, tinha uma enorme galhada. Galhos fortes e firmes, que quase se estendiam um metro acima da cabeça daquela criatura, e em sua galhada, diversos sinos amarrados. Ele começou a andar, e os sinos de seus galhos faziam barulho: Um barulho agradável, como que anunciando a chegada de uma coisa boa. A coruja se apressou atrás dele. Ambos usavam longos robes que lhe eram tão grandes que arrastavam enquanto andavam, neles predominava a cor púrpura e dourada, muito bem tecidos e talhados.

- Seja bem vindo a Illanis Meggera, leão. – Disse o veado fazendo uma grande reverência. – É um prazer enorme conhece-lo, e um acalanto para meu coração.

- Ele parece legítimo! Legítimo! – Disse a coruja se apressando, levantando sua asa e balançando a juba de Lance. – Autêntica juba de leão!

- Quem são vocês? – Lance parecia assustado com tudo aquilo, dando um passo para trás, olhando para a coruja. – E que lugar é esse?

- Onde estão nossos modos, mestre Lucafont? – Disse o veado, com um sorriso. – Eu sou Raelor, mestre de Meggera. E este é meu conselheiro, mestre Lucafont. Essa é Illanis Meggera, que quer dizer “A grande biblioteca” na língua dos antigos. Mas todos só a chamam de Meggera. Você já pode ter ouvido falar dela como “A Cidade Púrpura”.

- Não.  – Disse Lance, retribuindo o sorriso. – Eu nem sabia que existia um lugar assim no mundo. Esse lugar não parece uma biblioteca.

- E não é! É, mas não é! – Disse Raelor, com uma risadinha, que fez os sinos de sua cabeça soltarem um som límpido e gostoso de se ouvir. – Mas vamos lá para dentro! Responderemos todas as perguntas que tiver.

Todos os quatro entraram para o grande castelo, atravessando um enorme portão de metal. No portão de metal, cravado em letras douradas estava a seguinte frase: “ A honra acima da mente, o coração acima da honra “. Lance achou um ditado engraçado e riu.
O interior do castelo realmente parecia uma enorme biblioteca, e também parecia um enorme labirinto. O lugar era praticamente todo entapetado (com um tapete vermelho) como uma biblioteca. Mesmo assim, era gigante: Haviam centenas de salas, milhares de corredores e milhões de estantes de livros. O lugar era tão enorme que Lance se perdia com o olhar. Por vezes algumas pessoas passavam por eles, também trajando robes longos e púrpuras, embora no dos outros faltasse o dourado.

- Meggera originalmente era uma enorme biblioteca. Quando houve a queda do antigo império, sábios se uniram para guardar a sabedoria de nossos antepassados, e fundaram esse local. – Disse Raelor calmamente, enquanto eles subiam um enorme lance de escadas. Haviam tantos livros jogados por toda a escada, que Lance tinha que tomar cuidado para não pisar em nenhum. – É claro, com a travessia das montanhas de cristal, muitos livros se perderam. Mesmo assim, a biblioteca cresceu. Cresceu tanto que atualmente chama a atenção de todos do Mundo Ocidental!

- Mas e quanto a aquela cidade?

- Com o tempo muitos fazendeiros se instalaram em volta de Meggera. E isso cresceu, dando origem a cidade como ela é hoje. Os habitantes e os estudiosos tem um excelente convívio, de modo que sempre os ajudamos, e eles sempre nos ajudam.

Subiram mais um longo lance de escadas, passaram por um corredor que mais parecia uma estante mal arrumada de livros e logo entravam em uma pequena sala. Esta sala tinha pequenas poltronas confortáveis, de modo que Lance se jogou em uma delas sem pestanejar. Raelor se sentou atrás de uma grande escrivaninha, K se sentou ao lado de Lance e Lucafont se sentou do outro lado da sala: Não tirava seus olhos de Lance, o analisando cirurgicamente.

- Você deve estar confuso. Eu entendo. E peço desculpas por ter lhe feito viajar tanto... – Disse Raelor, suspirando enquanto unia suas mãos e olhava para Lance. – Mas não poderia deixar de encontra-lo. É um verdadeiro achado! Um leão! Vivo! Entre nós!

Raelor abriu um sorriso acolhedor. Lucafont consentiu com a cabeça e K soltou um suspiro entediado.

- É realmente impressionante. Tanto politicamente, quanto historicamente. – Prosseguiu Lucafont. – Embora eu possa assegurar que nossas intenções são as melhores.

A conversa continuou. Eles perguntaram sobre o passado, sobre o presente e sobre quais seriam os planos futuros. Lucafont bombardeava Lance com perguntas, as vezes se exaltando demais e se focando principalmente em suas pretensões futuras. Raelor era mais calmo, fazendo perguntas mais comedidas. Durante horas, Lance lhe contava de sua fuga, de Longage e dos eventos em Wolfric, bem como de seus sentimentos e de sua insegurança.

- Entendo. Entendo. – Disse Raelor balançando a cabeça. – Fico feliz que Longage esteja bem. Ele é um grande sábio entre nós, e suas visitas são sempre agradáveis quando resolve vir a Meggera. Eu mandarei um aviso imediatamente para Wolfric.

Lance sorriu. Quando Raelor fez a iminência de pegar uma grande pena para começar a escrever, ouviu-se um estrondo. Um estrondo que parecia uma grande explosão, todos se entreolharam assustados e foram correndo para fora da sala, procurando de onde ele vinha. Ali no mesmo corredor, de uma das portas de madeira, saia uma enorme cortina de fumaça enquanto uma figura caminhava para fora da mesma.

- Maldito seja! Maldito seja! – Bradava Lucafont, ameaçadoramente. – Este maldito garoto! Veja Mestre Raelor, veja como esse inútil já explodiu outro laboratório!

Da cortina de fumaça saiu uma criatura. Era magra e escura, tinha pelos negros por todo seu corpo, e grandes asas sem pena, apenas uma cartilagem negra. Sua face era peluda e seu focinho lembrava o de um porco. Seus pelos escuros pareciam mais escuros ainda devido a fumaça de modo que a criatura parecia um enorme tufo de carvão. Era um homem-morcego, que saia apressado em suas patas de dentro daquele cômodo queimado. Também trajava vestes com detalhes púrpuras, como todos os estudiosos. Mesmo assim, seus olhos eram de um verde profundo e inocente, como o olhar de uma criança. Neste momento, lacrimejava como se estivesse prestes a chorar. Raelor se aproximou, enquanto uma multidão de outros estudiosos se aproximava do local.

- Você esta bem, Bludermaus?

- Estou, mestre Raelor. – Respondeu o morcego, assustado e choroso, enquanto a enorme coruja lhe lançava olhares ferozes. – Eu estava apenas fazendo um experi...

- Um experimento! Um experimento! É esse disparate de sempre! Que você sempre diz! – Bradou Lucafont, tão nervoso que o pequeno morcego se encolheu junto a uma estante de livros. – Eu deveria expulsá-lo! Expulsá-lo da academia de estudiosos de Meggera! Antes que você faça o teto cair sobre nossas cabeças com seus experimentos!

Lucafont avançava feroz na direção de Bludermaus. Mais alguns gritos, mais fumaça, Bludermaus começou a chorar... Raelor balançava a cabeça e Lance se encolhia em um canto qualquer. Por um momento, o olhar dos dois se encontrou, e o morcego assustado com a presença de Lance, parou de chorar.

- Um... – Disse baixinho para si mesmo. – Um leão?

A partir dai, Lance teve uma das melhores semanas que teve em toda sua vida até então. Ele dormia em uma cama confortável, no alto de uma das torres do castelo de Meggera. Curioso, as noites Bludermaus voava para o parapeito de sua janela e eles passavam a noite toda conversando, até que o sol quase raiasse, e ambos iam para suas camas, fingir que estavam dormindo. Lance falava sobre seu antepassados e sobre sua vida até então, Bludermaus contava sua história: Era um morcego sem casa, e sem família, que tinha sido adotado por mestre Raelor e vivia como estudante e pesquisador em Meggera, embora fosse o mais mal sucedido de toda a academia. Mesmo assim, mestre Raelor era seu mentor e muito gentil para com ele.
Raelor e Lucafont passavam bastante tempo com Lance. Por vezes os três iam para a cidade de Meggera e caminhavam pelos mercados e pelas ruas. Os cidadãos se espantavam com Lance, e sempre que possível, lhe davam agrados. Uma mocinha de uma barraca lhe deu uma pilha de maçãs de graça, enquanto na taverna que foi uma vez, não precisou pagar sua bebida. Lucafont e sua aprendiz Lucca (uma raposa de pelugem laranja, que era tão astuta e tinha cara de tão poucos amigos quanto o mestre) enchiam Lance de perguntas e tomavam notas de absolutamente tudo que ele falava, logo depois se juntavam e conversavam em voz baixa, como que discutindo os resultados de uma pesquisa.
Raelor era o mais tranquilo de todos. Andava com Lance calmamente, não lhe perguntava mais que o necessário e era uma companhia agradável e calma. K por vezes aparecia, passava uma parte do dia com eles e sumia misteriosamente. Quando perguntavam por onde havia andado, falava que “Tinha negócios para resolver em Meggera”.

Durante uma caminhada pelos jardins, um dia, Lance achou um pequeno ovo de pardal no chão. Ele subiu na árvore e o devolveu ao ninho, mas foi imediatamente atacado pela mãe do pardal, que o perseguiu furiosamente. Todos riram enquanto ele fugia. Lucafont e Lucca balançavam a cabeça em reprovação.
Lance passou dias felizes lá. As vezes conversava com um sapo velho que todos chamavam de “Bibliotecário”. A verdade é que o lugar tinha tantos livros, e o tal bibliotecário estava tão velho, surdo e cego que não exercia muito bem sua função de organizar a biblioteca.

- Em Meggera é assim. – Disse uma vez Bludermaus. – Se você quer ler um livro, pode passar décadas procurando.

- Sim. – Disse Raelor com um sorriso, balançando a cabeça. – Faz 60 anos que eu procuro um título muito interessante chamado: As florestas de Granjardim. Me lembro que perdi esse livro quando eu era um aprendiz, e nunca mais o encontrei.

E lá dentro Lance viu coisas maravilhosas. Viu como os balões eram criados, como os estudiosos de Meggera conseguiam fazer complexas máquinas a vapor que conseguiam fazer um moinho girar, viu como eles conseguiam decifrar línguas antigas e ouviu muito sobre a história de seu povo, antes de virem para a parte Ocidental do mundo. 
E viu muito mais: Viu o enorme instituto de botânica que nada mais era que um jardim repleto de variedade, e conheceu uma velha senhora que conseguia citar o nome de mais de 3.000 variedades de plantas. Conheceu também a guarda da cidade de Meggera, grandes e altivos guerreiros que tinham engraçados capacetes.

- Aqui nós os chamamos de cabeças de papel. – Disse Bludermaus, se referindo ao formato do capacete da guarda da cidade: Os capacetes eram forjados de modo que seu topo parecesse um livro aberto. – Eles não são muito espertos. Mas são úteis para manter encrenqueiros longe.

- Meggera é realmente um lugar maravilhoso. – Disse Lance rindo, enquanto se encostava no parapeito da janela, olhando a lua. – E qual sua área de atuação, Bludermaus?

- A minha? – Bludermaus corou imediatamente. – Eu faço diversos trabalhos, em diversos laboratórios! Não gosto de me limitar!

- Sei. – Disse Lance sem muita confiança nas palavras de seu amigo morcego. – Sabe... Eu fico me perguntando por que Raelor me acolheu aqui.

- Ora! Não é óbvio? – Disse Bludermaus atônito, pulando para dentro do quarto de Lance. – É claro que ele te quer aqui! Você é o leão! O leão da promessa!

- Leão da promessa? – Disse Lance com uma risada, havia achado o nome engraçado.

- Sim! Durante anos, ouvimos histórias sobre como os leões reinavam acima da tirania e da maldade! – Disse Bludermaus – E todos achavam que os leões estavam mortos, e que isso não passava de um conto para crianças dormirem. Mas você esta aqui agora! E acho que isso aquece o coração das pessoas.

- Mas eu sou um leão. – Disse Lance, sem segurança. – Eu não sou O leão das histórias.

- Sim. Isso é bem verdade. – Concordou Bludermaus. – Mas você tem que entender que você trás esse tipo de sentimento. Parece que as pessoas olham para você e se lembram de tempos mais felizes. Eu fico me perguntando, se Raelor não tivesse me acolhido. Uma criança sem lar? Eu poderia estar sendo vendido como escravo agora em algum lugar nas Terras Selvagens. Pelo que eu leio, no Grande Reinado dos Leões, a escravidão não existia!

- Sim. – Disse Lance se sentando. – Dizem que as histórias daquele tempo eram realmente muito boas. Que todos eram felizes.

- É o que dizem os livros. – Consentiu Bludermaus. – Dizem que antes da guerra com os humanos, tudo era melhor. Agora vivemos tempos difíceis: Ou você tem sorte, ou tem azar. Ou vira escravo, ou vira comida. Só de pensar...

Bludermaus não continuou. Aquilo parecia realmente lhe dar arrepios, ele olhou pela janela: A lua estava alta demais.

- Eu tenho que ir! – Disse ele, meio alarmado. – Amanhã tenho que acordar cedo para fazer um experimento no laboratório de geologia!

- Eu entendo. Se tiver tempo livre a tarde, podemos ir falar com o bibliotecário!

- Seria muito bom. – Disse Bludermaus rindo enquanto se dirigia para a janela, se sentando na mesma. – Boa noite, Lance.

- Você vem amanhã?

- É claro que eu venho!

O morcego negro saltou da janela, abriu as asas e planou, sumindo na escuridão da noite.
Responder
#2
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Capítulo 4

A lua estava alta e mesmo com toda aquela chuva fina, que vinha acompanhada de trovões sonoros, a noite estava calma. Ou ao menos parecia: Aquela cena jamais sairia da cabeça de Bludermaus, para o resto de seus dias, enquanto vivesse. Ele adentrara o quarto de Raelor no meio da noite, em busca do veado dos sininhos sonoros, e tudo o que via era um corpo estirado no chão, pintado de vermelho.

Ele havia entrado no quarto para lhe entregar um curioso exemplar de: As florestas de Granjardim, que tinha achado em um corredor isolado.

Um relâmpago iluminava a sala: Raelor estava jogado no chão, com o rosto contra o piso, os sinos de sua galhada dependurados e fazendo um barulho triste enquanto balançavam. Um vulto débil e cruel estava sobre ele. Seus enormes olhos amarelos de ave olhavam para Bludermaus de forma ameaçadora, com um sorriso sadicamente zombeteiro. A enorme coruja se levantou, em uma de suas mãos havia uma adaga de prata, muito bem talhada e sua lâmina feita no formato de uma longa pena de ave.

O coração do morcego começou a bater mais forte, enquanto Lucafont assomava como uma enorme sombra de medo. Bludermaus virou as costas e saiu em disparada para a porta. A um grande aceno da enorme asa de Lucafont, a porta se fechava com uma rajada de vento, poderosa e sútil ao mesmo tempo, por mágica.

- Seu mestre esta morto, Bludermaus. O garoto leão também esta morto.

As palavras dele saiam com extrema frieza, indiferença e um resquício de dó. Mesmo assim, ele continuava avançando na direção na direção de Bludermaus, lentamente, com a adaga balançando em sua mão, brilhando com a lua fria.

Bludermaus tateou rapidamente a porta de madeira, até alcançar a maçaneta. E quando a alcançou, girou desesperadamente aquela maçaneta fria de latão. A porta não abria. Nada da porta abrir... Um feitiço de Lucafoont? Ele continuava girando desesperadamente a maçaneta nos dedos.

A coruja soltou um enorme guincho enquanto avançou em grande velocidade na direção de Bludermaus, bradando sua adaga enquanto ele se encolhia contra a porta de madeira, se perdendo em meio a escuridão da sala.

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Eles entravam no mais absoluto silêncio. Suas armaduras eram feitas com a mais fina metalurgia de Meggera: Flexíveis, leves e resistentes. Isso fazia com que o mais leve prestidigitador pudesse utiliza-la, e mesmo assim continuar sendo um gatuno de primeira. Carregavam em seus braços aquelas longas lanças de metal enquanto se aproximava da cama, na qual dormia, desavisadamente, Lance.

Eles se entreolharam, balançaram a cabeça positivamente e após engolirem em seco estocaram em Lance com suas grandes lanças de metal, pelo menos uma dúzia de vezes por todo o corpo de Lance.

Nesse exato momento eles constataram que Lance, embaixo dos cobertores, não sangrava nem gritava de dor. Após retirar rapidamente o pesado cobertor feito de peles, eles viram que nada mais havia embaixo do que diversos travesseiros, muito bem distribuídos para simular um corpo.

Os guardas se entreolharam, assustados e correram corredor afora.

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- Por que você esta me ajudando?

- Raelor era um tolo! Tinha uma visão muito idealista do mundo! Mas... – Ela falava bem baixinho, enquanto ofegava, conduzindo seu longo corpo esguio pelo corredor. – Mas... mata-lo é demais. Lucafont passou dos limites. Ele enlouqueceu!

A raposa alaranjada andava rapidamente pelos corredores, em passos tão graciosos e leves que nem ao menos fazia barulho, a exceção de seu vestido vermelho que produzia um leve farfalhar. Antes de cruzarem ou entrarem em outro corredor, ela inspecionava com seus olhos âmbar na escuridão dos corredores de Meggera.
Lance a seguia rapidamente, olhando o chão, com medo de esbarrar ou escorregar em algum livro qualquer que estivesse jogado no chão (o que não era incomum). Logo eles chegaram a um longo corredor enfeitado com diversos quadros, que virava em outro longo corredor. Antes deles prosseguirem a viagem, Lucca se voltou para ele rispidamente.

- Já chega disso! Você deve sair daqui imediatamente! – Ela disse o fitando de forma decidida. Mesmo assim, o medo também resplandecia em seus olhos. – Subindo mais três andares você encontrará o setor de Meterologia e Fenômenos da Dirigibilidade! Lá você encontrará alguns balões, e esta é a sua melhor aposta para fugir daqui.

- Eu não posso ir embora sem Raelor e Bludermaus! – Retrucou Lance, falando em voz alta, mas logo se contendo. – Eles são meus amigos!

- Tem noção da tolice que esta dizendo? – Ela quase gritou essa última sentença, mas logo se recompôs, mesmo assim, furiosa. – Eles já devem estar mortos a essa altura! Pegue suas coisas e fuja!

- Não! – Disse ele, com os olhos quase marejando devido a possibilidade de seus dois amigos estarem mortos. – Não vou sem eles.

Lucca o encarou ferozmente, furiosa até o último fio de sua pelugem alaranjada. O encarou com um olhar ameaçador, mesmo assim, Lance a encarou, sem medo da decisão que tomaria naquele momento. Ela desviou o olhar, a vontade dele havia ganhado e ela sabia que naquele momento não havia tempo a perder.

- Que assim seja. – Ela balançou a cabeça positivamente, mordendo o lábio de nervosismo. – Vamos!

Neste exato momento pode-se ouvir a conversa de dois guardas que se aproximavam. Eles vinham provocando barulho por um outro corredor, e dentro de poucos instantes estariam ali com eles. Lance e Lucca se entreolhavam assustados. 

- Tome isto! E isto! – Ela tirava de seu grande vestido uma pequena adaga de aço resplandecente, bem encaixada em uma pequena bainha feita de um couro avermelhado e entregava a Lance. Juntamente entrega-lhe um pequeno frasco circular, tão pequeno que caberia na palma da mão dele sem problemas, com um líquido de um dourado fosco. – Você precisa de uma arma! E use esta poção com sabedoria, você tem apenas uma dose! Fui eu mesma que fiz! Ela vai fazer com que os pelos da sua juba e do seu rabo caiam, assim como mudar parcialmente sua expressão facial, isso vai fazer você poder ser confundido com um felino qualquer! Agora vá!

Lance segurou os objetos, um em cada mão. Tinha uma expressão triste no rosto enquanto Lucca o observava, igualmente triste. Eles se olharam por um breve instante, parecendo receosos por se separarem, e mandarem um ao outro para um caminho incerto. Lucca o empurrou para trás com tanta força que ele quase caiu.

- VÁ!

Ela virou de costas, dobrou no corredor e com um sorriso dissimulado, puxou assunto com os guardas, os fazendo parar. Lance ainda ficou parado por alguns breves instantes, virou de costas e correu rapidamente em direção a sala de Raelor.

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Ele tinha conseguido fugir. Ser negro como a noite tinha suas vantagens, e nem mesmo Lucafoont foi capaz de o achar quando ele pulou pela janela e planou graciosa e desesperadamente para fora dos muros de Meggera. Lucafoont deu um grito de ódio e se voltou para dentro do castelo, correndo apressado pelos corredores. De forma alguma considerava Bludermaus um problema: Desde que o garoto leão estivesse morto...

O fato é que não estava. Lance corria na escuridão fria e abarrotada de livros dos corredores de Meggera enquanto tentava se esconder de qualquer criatura que por ele passasse.

Se esquivar de guardas e estudantes já tinha lhe rendido alguns momentos embaixo de uma mesa, uma pequena temporada dentro de um armário de vassouras e alguns minutos em um espaço apertado entre estantes.

- Com licença! Segure isso! Obrigado!

As palavras vieram de trás de Lance, e quando ele girou nos calcanhares para ver quem falava  (com o coração batendo a mil) viu que não era ninguém além do antigo bibliotecário. O sapo estava curvado pois carregava uma pilha de livros, na qual tinha dificuldade em equilibrar e iam tão alto que passavam do topo de sua cabeça. Pegou um dos livros e entregou para Lance. 

O envelhecido sapo nada mais fez além de continuar seu caminho, ignorando Lance e continuando sua caminhada até o fim do corredor escuro. Lance ficou um tempo sem entender aquela atitude, mas de fato, era normal. O velho bibliotecário estava tão velho e tão senil que nada que viesse dele surpreenderia.

Enquanto tanto o morcego quanto o leão corriam por diversos corredores tateando no escuro e procurando desesperadamente um ao outro, a coruja recebia dos guardas uma notícia nada agradável. Lance estava vivo e Lucafoont sabia, e agora ele praticamente galopava os corredores com uma fúria extrema, guinchando e praguejando contra tudo e todos.
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Eles se trombaram. Praticamente se bateram no escuro tamanho era seu desespero. Mas Lance logo constatou com extrema felicidade que encontrara Bludermaus, e os enormes olhos verdes do morcego brilharam em uma felicidade incontida. Ele olhou para uma plaqueta em cima de uma porta próxima, e podiam constatar que estavam exatamente na frente do setor de Meterologia e Fenômenos da Dirigibilidade.

- Você esta vivo, Lance! – Disse ele estendendo seus dedos magricelas e tateando a juba macia de seu amigo. – Eu mal consigo acreditar!

- E você esta vivo, Blud! – Disse Lance com um sorriso tão branco que brilhava na escuridão daquele corredor. – Você esta vivo! Vamos! Nós temos que ir atrás de Raelor.

- Raelor... – Se conteve por um instante. Engoliu em seco, e ali mesmo no escuro, recomeçou a chorar. – Esta morto, Lance. Morto.

Naquele momento, um enorme relâmpago rompeu os céus de modo que logo depois veio um estrondo que pareceu fazer as paredes de pedra de Meggera tremerem. A luz iluminou o corredor, vinda das grandes janelas envidraçadas do lugar, e os dois puderam claramente ver o rosto um do outro, que compartilhava uma expressão de dor.

Lance não teve tempo de começar a chorar nem abraçar seu amigo, como pretendia. Dos dois lados do corredor, cercando-os, vinham diversos guardas, que começavam a gritar, bradando o mais alto que conseguia que tinham achado aos dois fugitivos. Bludermaus guinchou de medo, porém Lance manteve a calma, o puxando com rapidez pela grande porta de metal que dava para dentro do setor.

Eles entraram e Lance bateu a porta com um estrondo, tendo a ajuda de Bludermaus para empurra-la. Giraram uma grande chave de metal na fechadura, e a porta foi trancada no exato momento que os guardas a alcançavam, começando a empurra-la e bater-se contra ela. Porém ela era enorme e muito pesada, e parecia inútil tentar.

- Mas que sorte! Que sorte nós demos! – Disse Bludermaus com um enorme suspiro de alívio. – Os laboratórios nunca ficam abertos dessa forma a noite! Alguém se descuidou muito.

- Ou não. – Respondeu Lance enquanto se voltava para o laboratório. – Lucca pode ter deixado ele aberto de propósito. Para nossa fuga.

- Lucca? Você esta falando sério? – Disse Bludermaus fazenda uma careta de forma cética, enquanto os guardas continuavam a empurrar e bater-se contra a porta. – É mais fácil ela tentar nos entregar para o bico de Lucafoont! Ela é tão ruim quanto ele!

Lance abriu a boca para falar algo, mas optou por ficar em silêncio. Pode agora dar uma olhada no interior do laboratório: Era enormemente espaçoso, havia pelo menos uns cinco balões espalhados pelo lugar, vazios, sendo apenas grandes tecidos no chão, além de diversas engrenagens, ferramentas, bugigangas. Havia em um canto uma enorme máquina não acabada de metal que parecia um enorme pássaro, diversos planadores mal acabados que pareciam grandes asa-deltas. 
Haviam janelas enormes nos quatro cantos da sala, de modo que uma brisa forte e fria passava sempre por ali, batendo nos diversos cata-ventos multicoloridos espalhados pela sala, que eram tão numerosos e barulhentos que faziam uma bonita algazarra. 

- Vamos fugir com esses balões. – Disse Bludermaus, estalando os dedos enquanto se aproximava de um deles, apalpando o tecido de um deles. – Todos vazios. Vamos enchê-los, eu vou os colocar para funcionar. Devemos ter tempo antes que eles entrem.

Lance balançou a cabeça e ficou olhando nervosamente para a porta. A algazarra dos soldados subitamente parava, mas ele não pressentia algo bom. Bludermaus escolheu o menor dos balões, que era tão pequeno que caberia muito mal os dois, e era feito de uma cesta de palha muito bem trançada e um tecido bem azul e resistente. 
Se abaixou e acendeu, com o auxílio de um fósforo, aquela pequena geringonça de metal (que mais parecia uma fornalha com uma saída de metal) que começou a jogar ar quente para dentro do balão, o fazendo encher lentamente. Lance continuava olhando nervosamente para a porta, ouvindo passos se aproximando.

- Lance! – Gritou Bludermaus, o acordando daquele transe. – Venha me ajudar! Vamos abrir esse teto!

Em um primeiro momento Lance quase riu daquela afirmação. Mas se deu conta do que se tratava: No canto da sala, havia uma grande alavanca que Bludermaus tentava puxar. Ele olhou para o teto e viu que ele não era feito de pedra, na realidade, era uma enorme escotilha feita de metal, que quando os dois puxaram a alavanca, começou a se mover fazendo enormes estalos enquanto abria bem lentamente, se retraindo.

- Não achou que o balão atravessasse...

Bludermaus não completou. Do outro lado da porta veio um guincho completamente tomado de ódio enquanto alguém xingava aos guardas. Lucafoont se aproximava, e logo ele ficou tão perto da porta que eles conseguiam ouvir perfeitamente a voz da coruja. 

- Saiam da frente, seus inuteis! – Guinchava ele, frustrado. – Saiam da frente, seus idiotas! Eu vou abrir essa porta! Eu tenho as chaves!

O barulho de alguém tentando encaixar uma chave na fechadura de metal fez o coração dos dois gelarem. Eles olharam para o balão, que não estava nem meio cheio naquele instante e se entreolharam, desesperados.

- Não é essa. – Disse Lucafoont frustrado, enquanto guinchava mais uma vez. – Se afastem, inúteis! Eu vou pegar esses vermes!

Mais uma nova tentativa, e mais uma frustração para Lucafoont que dava um grito de ódio enquanto golpeava a porta. Meggera tinha tantas e tantas portas, que até mesmo alguém que vivesse lá por anos, poderia levar algum tempo para encontrar a chave certa da porta certa.

A dupla de amigos não fazia ideia do que fazer naquele momento... O coração deles batia acelerado, e parecia que iria sair pela boca a qualquer momento enquanto eles se olhavam abismados demais para fazer o que quer que fosse.
Na terceira tentativa, a chave girou e a fechadura se abriu com um estalo. A porta rangeu e se abriu com um estrondo enquanto, vitorioso, a coruja avançava com seus olhos brilhando na penumbra daquele laboratório, enquanto vinha seguido por pelo menos meia dúzia de guardas. Os dois deram um passo para trás, olhando para os olhos vis e amarelos de Lucafoont.

- Desistam. – Disse Lucafoont com uma risada vitoriosa. – Não há mais para onde fugir.

Era verdade. O balão ainda estava se enchendo lentamente, embora apresentasse grande volume. Mesmo assim, não apto para tomar os céus. Lucafoont se aproximava deles, e apenas seus passos se ouviam na sala silenciosa, até os cata-ventos tinham parado. Bludermaus deu um passo para trás, segurando Lance pelo braço e rapidamente o puxou para uma das janelas. Lucafoont guinchou em uma língua estranha, que ecoou de forma irritante por todo o salão, e com um aceno de sua grande asa todas as janelas se fecharam com um estrondo.

Bludermaus tentou abri-las desesperadamente com seus dedos trêmulos, mas era inútil. Ela nem dava sinal de que iria abrir. 

- É inútil, Bludermaus. – Disse Lucafoont com uma risada. – Esta selada por magia. E só eu posso decidir abri-la. Para vocês, é o fim da linha, meus ratinhos.

Lance avançou na direção de Lucafoont. Bludermaus tentou segura-lo, abafando um grito de horror e confusão na garganta. Lance avançou rapidamente em grandes passos na direção de Lucafoont, seus olhos roxos brilharam por um momento enquanto ele puxava a adaga que recebera de Lucca de sua bainha e seu metal pálido resplandecia a pouca luz da lua que entrava pelo teto aberto. 

Lucafoont avançava em sua direção, com um sorriso, enquanto sacava o punhal de suas vestes douradas, aceitando o desafio que o leão lhe propunha. Eles ficaram bem próximos um do outro, Lance se precipitou para a frente enquanto Lucafoont levantava sua asa, levantando o punhal perverso para golpeá-lo por cima.

Lance não acertou Lucafoont. Lance nem ao menos tentou acertar Lucafoont. O que ele rasgou foi muito mais efetivo. Ele cortou um pedaço do balão que estava se enchendo, que a aquela altura, estava bem abaixo de Lucafoont. Cortou um grande pedaço, de modo que o ar extremamente quente saia rapidamente para cima, e se espalhava pelo corpo da coruja.

Ele deu um grito de dor. Deu um passo para trás. Seus olhos se tornaram vermelhos enquanto aquela massa de ar quente lhe cegava e lhe queimava a pele e penas, ela se chacoalhou desesperadamente, como se estivesse pegando fogo, gritando uma verdadeira orquestra de dor que fez até mesmo os guardas ficarem horrorizados.

Quando Lucafoont finalmente conseguiu se recompor, e constatar que todo seu corpo estava coberto de feias queimaduras, tomado por uma ardência feroz, que mal conseguia fazê-lo parar de guinchar, ele constatou algo que o fez ficar mais furioso ainda.
Ele, por um momento de dor, se desconcentrara de seu feitiço. E neste momento, Bludermaus abriu a janela, e juntamente com Lance, que se apoiava nele, voou, planando para fora na noite escura.

Capítulo 5

- Por que ele não me deixa ir com ele?

- Seu pai vai para um profundo momento de meditação com as forças do deserto e com os deuses. – Disse Jubileu com uma voz calma, enquanto areia soprava pelas vestes leves de ambos. – Precisa ir de forma solitária.

O príncipe não respondeu. Demorou muito a desviar o olhar do semblante de seu pai, que se tornava lentamente um ponto no horizonte abrasador daquela imensidão arenosa. O vento soprava forte, fazendo grãos de areia rodopiarem por todo o cenário, e lentamente seu pai foi desaparecendo.

- Vamos aguardar. – Disse o jovem príncipe, com um longo suspiro. – Vamos levantar acampamento.

Disse isso com um olhar duro, se voltando para as poucas centenas de guerreiros que estavam atrás de si. Todos responderam com um grito de ordem. Mochilas foram descarregadas, as montarias (enormes lagartos que possuíam cores que passavam de um laranja apagado para um verde arenoso, possuidores de enormes olhos vítreos, musculatura forte, que tinham o corpo baixo, com a barriga quase encostando a areia do deserto) tiveram suas selas descarregadas. Uma propensão enorme de estacas, cordas, grandes tecidos esbranquiçados com bordas douradas, grandes caldeirões, sacos de carvão cinza e apagado, grandes cantis de água feitos de couro de animal, pedaços de carne bem seca e salgada, taças de vinho, estandartes com o símbolo de um tigre de bengala, com seus dentes ameaçadores para fora e pintado em uma cor laranja... Uma propensão tão enorme de itens eram retirados, ajeitados, montados, cozinhados, tantos que qualquer pessoa perderia o olhar.

Mas não Shakk, nem Jubileu, de costas para o acampamento que se montava. Eles continuaram olhando fixamente para onde Sharjame havia ido, a pé e sem armas, e no horizonte, apenas uma enorme profusão de areia, como um enorme furacão arenoso que se formava a distância e não deixava o olhar alcançar além.

- Ele ficará bem. – Disse Shakk receoso, embora não estivesse tão certo disso. – Ele passará por essa tempestade de areia.

- Não seria a primeira, jovem príncipe. – Disse Jubileu. – Não será a última. Me alegro dele estar dentro dessa tempestade. Os Deuses de Areia não abençoam aos fracos. Não abençoam quem teme a fome, a sede ou a solidão. Eles mandam essa tempestade para nos provar, para provar Sharjame. Mas ele chegará lá.

- Eu queria que ele ao menos tivesse levado um punhal escondido. – Vociferou ele. – Os sábios não descobririam.

- Eles são cegos, fracos e mortos de sede. – Disse Jubileu em um tom sombrio. – Mas eles descobririam. Não se pode pisar no solo sagrado com uma arma. Bala’ak amaldiçoa a qualquer um que o faça.

Shakk levou a mão a parte inferior do pescoço, apertando entre seus dedos o amuleto feito de bronze que possuía. Era a cabeça de um ser retorcido, com dois grandes olhos bizarros e uma enorme boca aberta. O símbolo de Bala’ak.

Jubileu se retirou em seu grande lagarto, deixando Shakk sozinho a ainda olhar para o horizonte enquanto a noite caia, e o deserto lentamente assumia tons alaranjados que logo se tornariam um azul escuro profundo. A noite caia, o tigre de bengala de pelo tom de areia desceu de seu lagarto e se embrenhou em sua cabana; que já havia sido montada, e possuia o orgulhoso estandarte laranja do tigre de bengala.

- A tempestade esta vindo.


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Eles atravessaram o mais rapidamente que puderam as ruas de Meggera. Por sorte, ela não era o tipo de cidade que ficava muito movimentada durante a calada da noite. Havia apenas algum guarda aqui ou acolá, algum grupo bêbado voltando para casa da taverna ou alguma figura suspeita que os dava pouca atenção. Eles atravessavam uma grande praça espaçosa, se escondendo atrás de um chafariz completamente feito de uma pedra branca, na qual havia a enorme figura de uma coruja, que soltava água pela boca. Aguardavam pacientemente os guardas passarem.

- Eles parecem muito calmos. – Disse Bludermaus abaixado, com o rosto vermelho, ansioso – Provavelmente a noticia da nossa fuga ainda não chegou na cidade.

- Por onde vamos fugir? Será que devemos arriscar pegar um navio no porto?

- Não! – Disse Bludermaus, se contendo para falar baixo. – Aposto que em um piscar de olhos as unidades responsáveis pela guarda da cidade serão avisadas, e dificilmente algum barco vai deixar aquele porto!

Eles olhavam de forma cautelosa, vendo que os guardas haviam entrado em uma ruela qualquer e continuavam sua fuga, em passos rápidos tomando as ruas de Meggera.

- O que acha que devemos fazer então? – Perguntou Lance enquanto via que eles se aproximavam do enorme rio que separava a cidade de Meggera da infinidade de fazendas e plantações que havia do outro lado. – Devemos fugir para a área rural?

- Sim. É nossa melhor aposta. – Disse Bludermaus enquanto seguia a avenida que eles estavam.

Eles logo estavam atravessando um dos numerosos jardins de Meggera, que naquela altura, estava extremamente silencioso e completamente vazio. Eles passavam pelas pequenas ruelas de pedra enquanto eram cobertos pelas árvores e pelos canteiros de flor, que eram bonitas rosas brancas, que espalhavam um aroma que por um momento, apaziguou Lance. Já estivera naquele jardim certa vez, passeando com Raelor, e isso apenas fez seu coração apertar mais naquele momento.
Não ficou apaziguado por muito tempo. Bludermaus soltou um grito de dor e caiu para frente. Lance se assustou e se abaixou em sua direção. O rosto do morcego se deformava com tamanha dor que sentia. Havia um virote prateado cravado em seu ombro esquerdo, que fazia com que seu sangue escorresse lentamente, sujando todo seu braço.

- Blud!

Lance gritou preocupado, mas não tardou a levantar o olhar. Uma sombra escura vinha na direção deles. Disforme devido a escuridão, vinha de baixo de uma árvore qualquer, porém Lance a reconheceu. O semblante alto e magricelo rapidamente se tornou mais claro, com seus olhos vermelhos como o sangue brilhando fortemente naquele momento. Carregava em seus dedos uma grande besta de madeira, enquanto ajeitava habilidosamente o próximo virote.

- K! – Disse Lance, que estava a alguns metros dele/a – O que você esta fazendo?

- Eu te avisei, leão. – K ajeitava o virote na besta e apontava a mesma na direção dele, puxou o gatilho e cravou seu próximo tiro bem no braço de Lance, um pouco acima de seu pulso. Ele sentiu uma enorme dor, e quase caiu para trás, sentindo o sangue quente começar a escorrer. – Eu trabalho para quem dá a maior oferta. E nesse momento, essa pessoa é Lucafoont.

- Eu achei que fossemos amigos, K! – Disse Lance, frustrado, seus olhos ameaçando um choro. – Não pode... nos trair por dinheiro...

- Não somos amigos. – Disse friamente enquanto pegava em seu cinto de couro um outro virote, abaixando o olhar para a besta. – Eu não tenho amigos.

- Nós podemos... – Disse Bludermaus entre gemidos, se colocando de pé, com a mão direita apoiando seu ombro esquerdo, tentando sem sucesso impedir o sangue. – Nós podemos dar uma oferta maior que Lucafoont!

- Não me façam rir. – K ajeitou o virote habilidosamente, levantando a besta para o alto. Tinha em sua face uma seriedade extrema. – Vocês são dois fodidos. Vocês não tem nem onde cair mortos. Mas fiquem tranquilos, tentarei dar alguma dignidade a seus corpos. Menos você, Lance, Lucafoont quer a sua cabeça.

Lance estava perplexo, com o olhar arregalado e não conseguiu reagir, nem mesmo quando K apontou sua besta diretamente para a cabeça dele. A traição era o pior sentimento que ele tinha experimentado até então, e tinha um gosto tão amargo na boca, que ele mal conseguia reagir. K puxou o gatilho e um virote veio diretamente na cabeça dele. Bludermaus o empurrou e ambos caíram no chão, se livrando do virote por poucos milímetros. Ele logo se levantava, segurando Lance pelo braço.

- Vamos, Lance! – Gritou Bludermaus, como se tentasse acorda-lo de um sono profundo. – Vamos! Nós temos que fugir!

Os dois começaram a correr pelo jardim, seguindo o pequeno caminho de pedra. Bludermaus puxava Lance pelo braço com extrema agitação, ainda gemendo de dor pelo seu ombro machucado. Lance o seguia logo atrás, segurando seu braço ferido, com o virote cravado nele, tão profundamente que quase atravessara seu braço.
K vinha logo atrás. Tinha muita habilidade com a besta, e era um lutador experiente. Isso fazia com que se movesse mais rápido e bem mais silenciosamente que os dois, e ainda conseguisse recarregar sua besta em movimento, sem nenhuma dificuldade. 
Apenas Bludermaus olhava as vezes por cima do ombro para constatar com desespero que K os estava alcançando. K mais uma vez mirou sua besta na cabeça de Lance, e disparou. Muito dificilmente ele errava seu alvo, pois tinha tanta habilidade com aquela arma de longo alcance quanto se é possível ter. Mas ele errou esse tiro.
Errou pois alguma coisa o fez errar. Alguma coisa lhe deu uma bicada dolorosa no olho, no exato momento em que ele disparou, e ele perdeu o ângulo, fazendo o virote passar raspando, por cima da cabeça de Lance. K permaneceu em silêncio, e mais uma vez ali, parado(a) na escuridão, no meio do jardim, atirou novamente. E errou novamente.
Dessa vez gritou de frustração. Lance olhou por cima do ombro e viu qual era o problema: Um pardal, um grande pardal marrom que tinha leves nuances de cor em caramelo, estava voando bem em cima da cabeça de K, e o infernizando, o cobrindo de bicadas e passando voando entre seus braços apenas para incomoda-lo. 
Apertou os olhos na escuridão, e pode constatar, maravilhado, que já conhecia aquela ave. Tinha sido bicado por ela, quando devolvera um ovo para seu ninho. Ele deu um grande sorriso e continuou correndo com Bludermaus.
O terceiro tiro errado de K foi o suficiente para sua fúria despertar, ele(a) sacar uma grande faca serrada de dentro de suas vestes, e com um movimento rápido e preciso, assassinar a pequena ave com um corte bem em sua cabeça. Os dois amigos fugitivos já tinham tomado uma grande distância de K, e olharam aquela cena, horrorizados, com suas bocas abertas enquanto pararam, tamanha estupefação.
Lance dessa vez se recompôs mais rápido que Bludermaus. Porém saiu da trilha, e com toda força que conseguiu reunir, com apenas um braço, subiu em uma das árvores. Ele também já conhecia aquela árvore, porém, desceu dela rapidamente com algo em mãos, e logo os dois voltaram a correr.

- Aonde você foi? – Perguntou Bludermaus ofegante, enquanto eles saiam do jardim, tomando uma das ruas da cidade. – Eu achei que ia subir naquela árvore e tentar se esconder de K ali! Mas ele (ou ela) é um gato! Subiria muito facilmente!

- Não subi para isso. – Disse ele, e mostrava a Bludermaus o que havia subido para pegar. Tinha em uma de suas mãos um ninho de pássaro feito de remendos, pedaços de folha e palha, e dentro do ninho, haviam duas pequenas aves sem penas, peladas e com uma pele bem clarinha e levemente rosada. – Eu subi para isso! São os filhotes daquele pardal!

Bludermaus sorriu quando viu os filhotes, sentindo um certo orgulho de seu amigo. Eles olharam para trás e viram que K agora saia do jardim.

- Por aqui! – Disse Bludermaus o puxando para um pequeno beco. – Vamos por ali!

Eles cruzaram mais umas três ruas rapidamente. Lance desconfiou que não era o caminho mais curto para o destino deles, porém acreditou que Bludermaus estivesse tentando despistar seu perseguidor. Cruzaram mais uma pequena ruela, e seguiram em frente. Lance já conseguia ver, que a rua acabava no grande rio que cortava Meggera e que tinha visto de cima do balão, que era cortado por uma rua transversal que ficava paralela ao rio.

Chegaram até a margem do rio, que era separada por uma grande cerca de madeira. Haviam pontes construídas em diversos pontos do rio, algumas pequenas e outras maiores, algumas serviam para o trânsito de pessoas e eram pequenas, outras serviam para o trânsito de mercadorias, e eram as maiores, que dava para atravessar três carruagens grandes, lado a lado , ao mesmo tempo. Curiosamente, as pontes eram bem altas, construídas como enormes plataformas, de modo que era possível que os grandes navios passassem por baixo delas sem problema algum. 

Bludermaus apontou para uma ponte que estava bem próxima, e era bem pequena, e eles logo estavam correndo na direção dela. A atravessaram rapidamente, e logo estavam do outro lado, de frente para uma enorme infinidade de fazendas, pomares e plantações em um terreno plano, juntamente com casas e grandes celeiros.

Atravessaram bem a tempo, pois quando os dois avançaram alguns poucos metros do outro lado do grande rio, tiveram que se esconder atrás do primeiro arbusto de alecrim que viram, pois um sino estridente tocou na cidade. E depois outro. E depois outro. E começou a se criar uma enorme agitação na cidade. Luzes se acendiam, pessoas começavam a acordar enquanto aquelas badaladas infernais não permitiam que houvesse ninguém adormecido em Meggera.

- Ele... realmente quer nos pegar... – Murmurou Bludermaus, bem baixinho. – Vai colocar a cidade toda em nossos calcanhares se for necessário.

- Por isso temos que sair daqui, o mais rápido possível. – disse Lance enquanto vinha puxando Bludermaus, mais alguns poucos minutos de caminhadas e eles pulavam a cerca de uma pequena propriedade, se embrenhando entre uma plantação de trigo. – Nós podemos usar as plantações como proteção até os limites de Meggera. Quanto tempo demoramos para chegar a Wolfric?

- Wolfric? – Perguntou Bludermaus. – Acho que algo em torno de duas semanas de caminhada.

Eles atravessaram aquela plantação, saltaram novamente mais uma cerca e entraram em outra propriedade. Fizeram isso tantas vezes, em tamanho silêncio, e correndo tanto no meio da noite escura que em determinado momento Lance cambaleou para a frente e quase caiu. Eles se esconderam atrás de um celeiro velho de madeira, e Lance caiu no chão.

- Eu não consigo. – Disse Lance, com uma cara de dor, e lágrimas nos olhos. – Meu braço esta doendo demais. Meu corpo dói. Não quero dar mais um passo.

Bludermaus abriu a boca para falar algo, mas ele mesmo não queria dar mais um passo a frente. Seu ombro doía como nunca sentira dor, seu coração estava pesado pela morte de seu amado mestre e ele também estava cansado de correr. Também não queria dar mais um passo. Mas ele deu e sumiu no meio da escuridão.
Lance ficou piscando os olhos, sem entender para onde ele teria ido e incapaz de acreditar que ele o teria traído e o deixado para morrer, como K. Mas o morcego voltou alguns minutos depois, carregando algumas frutas e um pequeno caixote de madeira, o qual colocou na frente de Lance e começou a retirar de dentro diversas ataduras, algodão e uma espécie de alicate para retirar o virote.

- Eu achei que você tivesse fugido. – Perguntou Lance. – Onde arranjou isso?

- E para onde eu fugiria? – E deu uma risadinha. – Eu pulei dentro de uma casa e roubei isso. Eu conheço o urso daquela fazenda, o senhor Gongo; ele é um urso de sono muito pesado. Se um dia eu voltar aqui, eu vou pedir desculpas para ele pessoalmente.
Engoliu em seco. Aquele roubo simplesmente fazia seu coração ficar mais pesado, ainda mais que teve que passar do lado do senhor Gongo, que dormia um sono extremamente pesado, roncando como só um urso conseguia fazê-lo. Mesmo assim, aquilo os faria continuar.
Retirou com muito cuidado o virote do braço de Lance, que teve que se conter muito para não dar mais um grito. O virote saiu completamente ensanguentado, e ele cuidou do ferimento, pressionando para que não saísse mais sangue, passando um pouco de uma essência de cheiro reconfortante no ferimento e logo depois passando a pesada atadura, selando aquele ferimento. Essa operação durou algum tempo, pois Bludermaus teve que segurar o ferimento durante um bom tempo.

- Acho que isso vai melhorar alguma coisa. – Disse Bludermaus, se sentando, enquanto dava uma mordida em uma maçã verde. – Vamos. Sua vez.

Lance repetiu o processo em Bludermaus, enquanto esse comia algumas das frutas, para tentar se desfocar da dor. Não funcionou, mas logo os dois já estavam com ataduras e alimentados; e aquele bálsamo aromático que eles usavam parecia aliviar a dor lentamente.

- Perdemos muito tempo aqui. – Suspirou Bludermaus. – Vamos.

Eles passaram por diversas plantações e pequenas fazendas. Passaram por uma plantação de tomates que parecia interminável. Passaram no meio de gigantescas macieiras que pareciam ter tantas maçãs que seria impossível de colher todas. Passaram por uma recém feita plantação de feijões, que se alternava com bonitos rabanetes que já estavam prontos para a colheita. Entravam por dentro de um celeiro escuro e bem cuidado, com montes de palha e caixotes de diversos legumes simplesmente para cortar caminho, enquanto Bludermaus pegava um alho-poró de um caixote aberto, e ia o mastigando enquanto corriam.

As fazendas e pomares pareciam intermináveis. Eles puderam ver ao longe que um vulto escuro saia de uma das casas, com um grande chapéu e uma enxada nas mãos, e desviaram dele, se escondendo atrás de uma árvore e correndo para o outro lado.

- Os fazendeiros aqui acordam bem cedinho. – Disse Bludermaus puxando Lance. – Na quarta hora do dia já tem alguns de pé. Mas não precisa se preocupar... Já estamos perto.

E nesse momento, eles chegaram. Lance abriu os olhos e olhou a paisagem, meio confuso. Dali para frente, não havia mais nenhuma fazenda. Eles estavam no limiar da última das fazendas, e a partir dali, tudo o que se poderia ver era uma planície verde e achatada, com uma grama bem curta que balançava levemente com a brisa da noite. Não havia nenhuma árvore a partir dali, nem nenhuma rocha, nem absolutamente nada. Era uma enorme paisagem planificada que se estendia até onde os olhos conseguiam ver.
A única coisa diferente era uma grande estrada feita de terra batida, que cortava as fazendas. Ela ia do coração da cidade de Meggera do outro lado do rio, se estendendo pelo meio das fazendas e de suas imediações, indo até onde os olhos poderiam alcançar.

- Para onde essa estrada leva?

- Basterlinha. – Disse Bludermaus, olhando tão desoladamente para a paisagem quanto Lance. – Não é uma cidade muito grande, e ainda faz parte dos domínios de Meggera; mesmo assim, vai ser melhor do que ficar aqui.

Lance balançou a cabeça concordando, juntando o ninho de passarinho juntamente a seu corpo aonde as duas pequenas avezinhas ainda repousavam.

- Temos que ir rápido. Devemos tomar o máximo de distância possível. –Continuou Bludermaus, dando o primeiro passo em direção a enorme planície. – Eles conseguem nos ver de bem longe nessa paisagem plana. Por isso devemos estar o mais longe que conseguirmos.

- E melhor não tomarmos a estrada. – Disse Lance enquanto começava a caminhar do lado dele. – Vamos seguir paralelo a ela. Bem de longe. Acho que assim não tem como não chegarmos em Basterlinha.

- Sim.

Bludermaus concordou com a cabeça e parou por um instante. Os dois amigos se entreolharam. Estavam cansados, feridos, imensamente tristes e mais miseráveis do que jamais haviam estado na vida. Por um momento, os dois pensaram em desatar a chorar por seus amigos perdidos, por sua fuga quase mal sucedida, pela mamãe pardal morta e por estarem irremediavelmente solitários no mundo. Era uma sensação péssima, como algo que não desce a garganta por mais que eles tentassem, como um gosto amargo que não sairia jamais de suas bocas, como um ferimento que não fecharia com bálsamo algum.

Mas eles não choraram. Substituiram o seu choro por um suspiro conjunto, longo e triste. E após pegarem um na mão do outro, e a apertarem com tanta força que chegava a quase doer, eles seguiram apressadamente pela planície triste e vazia crendo que Raelor e Longage estariam os esperando no final da estrada.
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#3
Garret tencionou lentamente a corda do arco. A flecha de madeira muito bem encaixada, e a puxou. O grande arbusto de alecrim que tinha a sua frente e lhe escondia confundia imensamente o seu faro, mas seus olhos treinados de caçador podiam ver perfeitamente através das poucas aberturas que o arbusto possuía: Havia um grande javali a alguns poucos metros, marrom e gordo. 

O caçador sorriu... Apontou perfeitamente a mira. Seria um tiro rápido na garganta. Ele prendeu a respiração e atirou.

- Aaaaah! – Um grito feminino veio de suas costas, a plenos pulmões. – Garret! Socorro!

Com um salto o javali desapareceu correndo entre as espaçadas árvores do bosque. Garret errava a flechada e ela acertava em cheio um grande tronco de árvore caído. Girou nos calcanhares. Sua irmã vinha correndo, balançando os braços histericamente enquanto um grande enxame de abelhas vermelhas vinha em seu encalço, provocando um zumbido ameaçador.

- Garret! Socorro!

- Lunara! – Gritou ele, olhando nervoso para aquilo. – O que você esta fazendo?


- Desculpe... – Disse a menor, chiando um pouco. - ...irmão.

- Você não deveria mexer com as abelhas vermelhas, Lunara. – Disse ele de forma carinhosa, porém reprobatória, enquanto amarrava os longos cabelos dela, os prendendo com uma fita azul. – Você não sabe quanto a picada delas dói?

Lunara fez um grande bico, tomada por uma manha infantil. O braço de Garret ardia fortemente, tomado por diversas picadas avermelhadas e inchadas, espalhadas por todo ele. Ele não se importava. 

- Eu só queria levar um pouco de mel para a mãe.

Neste momento algo se moveu em um arbusto. Um enorme cervídeo amarronzado pulou na frente deles. Seus olhos animais os fitaram por um instante. Estava em suas quatro patas, tinha um grosso tronco e longas pernas finas e uma enorme galhada amarronzada, com tantas ramificações que Lunara nem conseguiu contar. Não tinha a forma humanoide dos dois: era um simples animal. Olhou eles por um instante, e desapareceu em rápidos saltos pelo bosque.

- Por que eles são assim, Garry? – Perguntou ela docemente, enquanto abaixava o olhar para seus dedos, suas unhas, seu rosto equino humanizado, suas orelhas animais, porém diferentes das dos cavalos animais. – Por que eles não são como nós? Não falam, não pensam, não constroem coisas? Eles são tão diferentes de nós, e ao mesmo tempo tão parecidos.

- Nós somos assim. E eles são assim. – Disse Garret. – Os deuses assim escolheram. É por isso que nos chamam, e nós assim nos chamamos, de “híbridos”. Pois há um pouco deles dentro de nós.

- E há um pouco de nós dentro deles?

Garret não disse nada. Seus braços fortes eram habilidosos para o arco e para a espada, mas não para amarrar fitas no cabelo de Lunara. Ele olhou para sua irmã. Tinha altura o suficiente para mal alcançar seu umbigo, possuía uma pelugem curta e amarronzada, brilhante a luz calma do sol. Tinha olhos verdes como o dele, focinho mais protuberante para frente, curvado, como de uma égua. Ela tinha braços longos e traços finos, e era magricela. Ela se levantou, com seu cabelo loiro preso.

- Vamos, Garry.

Ela pegou na mão dele e eles começaram a andar. Garret era alto e forte, alcançando quase seus dois metros de altura. Era forte, porém não exageradamente, tendo semblante esbelto. Tinha o rosto mais feroz que o dela: Seu rosto era puxado para a frente, assumindo leves feições equinas. Assim como sua irmã, tinha cascos ao invés de dedos de pés, e braços longos e dedos grossos. Uma pelugem amarronzada, mais intensa que a dela, e menos brilhante, cobrindo-lhe todo o corpo. Tinha olhos verdes e límpidos, e o cabelo escuro, igualmente longo como de sua irmã.

- Eu adoro esses bosques, Garry. – Disse Lunara com sua voz macia. – E gosto mais por eles terem o seu nome.

- Eles não tem meu nome, Lunara. – Respondeu ele. – Eles tem o nome de um dos nossos antepassados. E eu tenho o mesmo nome que ele. Por isso que sou Garret III.

- É a mesma coisa.

Mais uma vez caminharam em silêncio. Lunara não era a única que adorava aqueles bosques: Garret também. Eles tinham árvores altas e espaçadas, antigas, com troncos vivos, marrons ou verdes, coberto por pequenas plantas e musgo muito protuberante. Também haviam arbustos fartos. Arbustos de alecrim, arbustos com diversas flores salpicadas por seu verde, arbustos com pequenas frutinhas vermelhas, roxas e verdes; que iam de um doce profundo até uma acidez que deixava a língua adormecida.

As árvores eram espaçadas de modo que raios de luz atingissem todo o grande bosque. Haviam pequenos esquilos, grandes javalis, veados majestosos, pequenos ratinhos alaranjados, uma profusão tão viva e encantadora de vida que era praticamente impossível passear pelos Bosques de Garret sem prender a atenção a alguma coisa que fosse bela e vívida, de uma forma simples.

Ele respirou profundamente o ar benfazejo e sua irmã o acompanhou. Alguns minutos de caminhada e já estavam na orla do bosque, olhando para a grande planície verde viva que se estendia diante de seus olhos. Os Bosques Garret ficavam em um planalto, e o resto do caminho seria descendo em direção a planície. Por sorte, a descida não era de forma alguma íngreme. 

Os cascos deles pisavam na grama macia, que parecia se abrir para eles enquanto caminhavam e davam risadas sonoras um para o outro. Foi ai que Garret parou, e seu semblante fechou.

- Corra para Gastamel, Lunara.

- Por que?

- Lunara, não discuta comigo. – Disse de forma séria, enquanto dava mais alguns passos para a frente. – Volte para Gastamel.

Ela virou as costas imediatamente e passou a andar na direção contrária a dele, em longos passos. Gastamel não ficava muito longe dali: ela conhecia o caminho como a palma de sua mão, mas antes de dar mais um passo, olhou por cima do ombro.

Garret se afastava em direção a uma grande comitiva de lobos escuros, que embora estivessem longes, eram tão ameaçadores quanto possível. Tinham a pelugem escura como a noite e usavam grandes armaduras feitas de metal negro que eram compostas por peitorais de aço, joelheiras e grandes ombreiras. Carregavam uma grande bandeira vermelha e negra, com a figura de uma grande mandíbula de lobo aberta com chamas escarlates ao fundo, em uma haste de metal escuro.

Totalizavam uma dezena enquanto corriam rapidamente, levantando poeira na pequena estradinha que cortava a paisagem. Garret foi na direção deles calmamente e se pôs na frente dos mesmos. Eles pararam e se colocaram em duas patas, se aproximando deles. 

- Garry... – Disse solitariamente a jovem híbrida equina, que apressou o passo. – Mãe!

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- A Capital demanda mais comida.

Disse de forma soturna aquele enorme lobo negro, prostrado em suas duas patas. Ele era diferente dos demais: Seus olhos escuros pareciam mais altivos, possuía um grande capacete dourado que se projetava para frente de seu focinho, deixando apenas suas narinas escuras visíveis. Como era o costume dos guerreiros da Capital, carregava em sua cintura, presos ao seu pelo por pequenas cordas nojentas que mais pareciam sujeira, pedaços de partes estragadas do corpo de seus adversários mortos, pedaços das narinas, polegares e até mesmo orelhas, sem contar um pequeno coração que de tão antigo já estava acinzentado; o que lhe dava um aroma pútrido e nojento. Carregava aquilo como um troféu.

- Espero que você entenda que isso vai contra o acordado. – Disse a mulher-equina que estava atrás da enorme mesa de madeira, olhando com seus olhos azuis revoltos para ele. – Isso será honeroso demais para as Terras dos Bosques. Gastamel, Valmaril e todos nas Terras dos Bosques de Garret não conseguirão...

- A Capital demanda mais comida.

Ele repetiu mais uma vez, cortando a fala da outra. Dessa vez, rosnou como um animal selvagem pronto a atacar. Garret, sentado do outro lado da sala, ficou atônito. Seus dedos tatearam nervosamente o cabo de sua espada embainhada enquanto o lobo projetava seus olhos ameaçadores sobre sua mãe.

- Me deem tempo para pensar.

Disse ela de forma fria, o fitando com um olhar imperioso. Ele virou de costas, e em passos pesados saiu pela grande porta de madeira. 

- Você tem até a lua cheia para pensar. – Respondeu ele, cuspindo no chão. – Até a lua cheia.

Ilyara fechou os olhos e abaixou a cabeça. Seu rosto já estava levemente enrugado devido a sua idade, mesmo assim, ela era bonita como uma dama madura. Levou os cotovelos a mesa e uniu as mãos, levando-as a testa enquanto pensava em silêncio. Sua crina de um loiro apagado lhe caiu a face enquanto suas narinas se contraiam. Ela era muito parecida com o filho em feições: Seu rosto fino era tão curvado em seu leve formato equino quanto o dele.

- O que faremos, mãe?

Ela se levantou enquanto se dirigia para a pequena varanda de seu escritório. O dia estava belo o suficiente para ela se curvar sobre a mureta de madeira de sua grande varanda e levar seus olhos azuis pela cidade. Gastamel era uma cidade pequena, infinitamente bela dentro de sua simplicidade. Suas casas eram feitas de tábuas de madeira e pintadas com um bonito verniz que lhes dava um tom rústico e brilhante. Ela abaixou os olhos para a rua: Nenhum dos cidadãos nunca tiveram o trabalho de fazer-lhe de terra batida, deixavam que a grama da planície crescesse onde quer que não fosse o interior de uma casa, e por isso Gastamel tinha grandes caminhos verdes como ruas, espalhados por todo o local. 

Ela sorriu para um casal de veados que passava, que retribuiu o sorriso e a saudaram. Ao fundo dessa grande paisagem, elevadas em um planalto, um enorme bosque de um verde escuro que perdia o olhar de qualquer um que olhasse.

- Eu não sei. – Disse ela com voz triste. Garret estava em um dos cantos da varanda, olhando para o chão. – Essa terra de bosques e planícies é tão abençoada, meu filho. Mas a Capital demanda mais e mais tributos.

- Eu não sei por que devemos pagar-lhe tanto.

- Você sabe por que devemos pagar-lhe tanto. – Disse ela lhe lançando um olhar penoso. – Todos nós sabemos por que. Não se deve acordar o lobo quando se esta tão perto de sua toca. As mandíbulas da Capital são grandes e alcançam longe.

- Eu os odeio, mãe. – Disse ele, levantando um olhar raivoso para ela. – Eu os odeio a todos. A cada um desses lobos negros. A cada vez que invadem nossos pomares, a cada vez que matam um dos nossos habitantes, a cada vez que lenham algum de nossos bosques e deixam apenas um rastro negro e sujo. Eu os odeio cada vez mais. E eu nunca vou perdoa-los.

- Eu também os odeio. – Ela disse enquanto se aproximava dele, levou-lhe as mãos ao rosto e levantou a face. Ela era quase tão alta quanto ele, e ela chorava, com seus olhos azuis brilhantes como joias. – Eu os odeio toda noite. Quando eu me lembro que seu pai não esta mais deitado do meu lado.

As lágrimas rolaram do rosto dela enquanto ela beijava docemente o focinho de Garret. Deu um passo para trás e entrou para o escritório, sumindo. 

- E vou odiá-los um pouco mais hoje. – Disse lá de dentro, sua voz tomada de tristeza. – Avise ao conselheiro Ron que os impostos dos habitantes vão aumentar. Mais uma vez.

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- Seu pai esta bem, jovem mestre. – Disse Jubileu com um sorriso, passando sua enorme língua entre seus dentes brancos e afiados. – Confie no que eu digo. Com respeito a vossa principesca figura, eu o conheço a mais tempo do que vós e afirmo-lhe que ele retornará.

- Eu sei disso, Jubileu.– Disse Shakk desgostoso, enquanto amarrava alguns sacos de couro feitos de estômago de cabra em sua montaria réptil. –Eu só não gostaria de partir antes de falar-lhe. Antes de ver que ele está bem.

- Bala’ak é testemunha que ele esta bem, jovem mestre. – Disse Jubileu com confiança. – Acredite-me.

- Eu acredito. – Disse Shakk, sorrindo enquanto montava seu enorme lagarto do deserto. – Aonde estão os outros?

- Nos aguardam na extremidade norte de Baragmir. – Disse Jubileu, montando o seu. – Vamos?

Shakk não respondeu. Apenas enfiou os calcanhares nas laterais de seu lagarto, que imediatamente começou a andar arrastadamente pelas ruas arenosas de Baragmir. Ele sentiria falta de Baragmir: Sentiria falta das enormes ruas arenosas, que não eram ruas mas sim caminhos de areia entre as diversas barracas montadas. Sentiria falta de sua casa, um palacete esculpido em uma enorme pedra de cor marrom que se encontrava perfeitamente no centro da cidade. Sentiria falta das cores, dos mágicos de rua, dos mercados amontoados de gente e produtos, das dançarinas que utilizavam panos de tantas texturas e cores que era impossível não se encantar com sua dança sensual e misteriosa. 

Foi exatamente em um desses momentos que uma veio em sua direção, chacoalhando misteriosamente um véu arroxeado, coberta por um vestido carmesim que ia variando em cores como um degrade até a ponta de seus pés. Ela se insinuou para Shakk, soltou uma risada, o fez exalar seu perfume e desapareceu no meio da multidão de um dos mercados locais.

Assim era sua terra natal. Uma terra cheia de mistérios, uma cidade viva e vibrante na qual comerciantes gritavam alto para conseguir bons preços, crianças corriam segurando grandes pipas feita de tecidos que vinham de fora vendidos pelos mascates e mendigos tentavam a vida agarrando-se aos roupões de qualquer um que passava, implorando por uma moeda enferrujada ou um punhado de tâmaras mergulhadas em farinha para se alimentar. E no fim do dia, o vento, a areia flutuando, dava um ar fantasmagórico ao local, como se a cada esquina houvesse uma maravilha de outro mundo a ser descoberta.

- Meu coração sente falta de Baragmir sempre que me afasto. – Disse Shakk melancolicamente, pegando um odre de couro e se servindo de um gole de água fresca. – Até quando vou para os vilarejos próximos.

Eles chegaram a onde estava o grupo. Estavam embaixo de uma enorme tenda que se erguia como um retângulo para cima, e delimitava Baragmir do enorme deserto sem fim que se encontrava na frente deles. Dez era o número de guerreiros prostrados ali, todos bem montados em grandes répteis, carregando grandes sacolas de couro e mochilas pesadas cheia de suprimentos. Todos carregavam alguma arma, nas costas ou na cintura, fosse um punhal ou um machado.

A marcha não demorou a começar. Shakk se vestiu com um capuz para esconder a face do sol do deserto e os outros fizeram a mesma coisa. Olhou mais uma vez para Baragmir atrás de si: A distância parecia um enorme amontoado de tendas e barracas até onde os olhos podiam ver, e pequenos palacetes esculpidos nas enormes pedras foscas que havia naquele deserto, com os topos em formatos de grandes abóbadas, pintados e adornado com pedras de diversas cores que faziam o topo das casa de Baragmir parecerem um enorme mosaico brilhante a luz ardente do sol. 

Suspirou mais uma vez e não voltou a olhar para trás.



- As histórias do General Cornwallis são verdadeiras?

- Eu não sei. – Disse Garret, dando uma risada enquanto cruzava os braços. – A mãe disse que ele já era velho, e já contava essas histórias, quando ela era jovem.

Lunara ficou alguns instantes olhando para Cornwallis. Ele estava em pé no meio de uma roda feita de crianças, que o circundavam enquanto gesticulava e dava gritos potentes, arrancando gemidos e gritos de susto e alegria dos menores.

Ele era um bode baixinho, com uma grande barba que lhe chegava ao meio do peito. Seu pelo era branco como o algodão e seus olhos velhos eram de um dourado apagado. Ele levantou a pequena espada que carregava e a girou: Era tão pequena e enferrujada que parecia de brinquedo. Garret riu. Lunara desistiu de adivinhar se eram de verdade ou não e seu uniu a seus amigos menores, rindo do General.
- Eu estava cercado por hordas e hordas de mercenários das Terras Selvagens! Eu e mais quatro dos meus! Sozinho e solitário. Nas encostas das Montanhas do Vento! E lá fui eu! – Ele girou a espada em cima da cabeça com as duas mãos. As crianças deram um grito assustado. – Usando da habilidade giratória de espada do General Cornwallis!

E girou a espada alucinada e de forma desajeitada em cima da cabeça. As crianças pularam e riram, imitando-o animadamente. Nesse momento Garret pegou uma maçã de uma banca qualquer localizada naquela ruela toda coberta por grama, jogando uma moeda de latão para a vendedora atrás do balcão, que ria do velho bode.
- Eles não resistiram! Não sobrou um de pé! Um de pé! – Gritou animadamente, enquanto parava com seu “golpe”. – Mas um deles resistiu! O Grande Rinoceronte Branco! O maior líder mercenário de todos! O Terror de Shár! O Saqueador da Areia! Mas eu não tive medo!

General Cornwallis continuou contando animadamente. Mas o sorriso no rosto de todos desapareceu, nem as animadas crianças nada falavam, mudas. Todos menos General Cornwallis, girando sem habilidade sua espada enferrujada enquanto continuava com uma animação intensa, contando sua história.
- Mas foi ai que eu cortei o chifre dele! Com essa mesma espada...

Atrás dele, tão grande que lhe fazia sombra, estava um enorme lobo negro. Ele ostentava um sorriso amarelado em suas grandes presas, e usava as cores vermelhas e negras em suas vestes, profundas e assustadoras, embora usasse pouco pano e um grande peitoral opaco de aço que lhe cobria o peito enorme. Sua mão foi até a gola de lã verde de Cornwallis, e suspendeu sem dificuldade o bode do chão, que se debateu. O capacete pontudo e velho, de ferro gasto e apagado, que Cornwallis utilizava caiu de sua cabeça.
- Até parece que um verme como você poderia fazer algo desse tipo.
O lobo sorriu cruelmente. As crianças se afastaram em poucas passadas para trás, algumas choravam silenciosamente só com a aura de terror que aquele ser as causava. Garret segurou o cabo frio de sua espada, ainda embainhada em sua cintura, enquanto se aproximava rapidamente, em largas passadas.
- Eu aposto que você não teria nenhuma história de sobre como matou lobos...
Cornwallis tremeu enquanto olhava de forma muda para ele. Mesmo assim, reagiu. Em um rápido movimento desferiu uma espadada daquela espada enferrujada e escura na direção da face do lobo.
O lobo negro foi mais rápido: Abriu a boca e cravou suas presas na espada, que se quebrou em diversos pedaços daquele metal fraco. Não sem fazer a gengiva do lobo sangrar com a pressão, e um filete de sangue escorrer pela mesma.

Cornwallis foi jogado ao chão, caindo em cima da grama macia com um gemido. O lobo retirou o gigantesco machado de metal escuro de suas costas, o levantando ameaçadoramente, e desferiu um golpe mortal sobre Cornwallis, que se limitou a fechar os olhos naquele momento e guinchar timidamente.
O barulho de metal se chocando foi o que sacramentou a salvação do bode: Garret sacara sua grande espada brilhante de duas mãos, uma belíssima espada bastarda de um ferro cinzento e brilhante , com um cabo talhado em ouro que se ramificava em duas cabeças de cavalo; e aparou o potente golpe. Os dois se encararam por um breve momento: O fogo da batalha brilhava intensamente nos olhos de ambos. Por uma fração de segundo não se jogaram um contra o outro.
- Já basta disso!

Um grito altivo cortou a pequena ruela. Garret olhou de relance por cima do ombro e pode ver uma versão furiosa de Illyara: Seus olhos verdes faiscavam em fúria enquanto ela se aproximava. Usava um longo vestido azul e branco, de confecção tão simples que poderia parecer uma plebeia, e tinha o cabelo loiro enrolado em uma trança.

- Garret... O que esta havendo...?

Ela perguntou furiosamente. Todos se voltaram para ela enquanto o enorme lobo soldado ria da situação: Passava sua língua em seus dentes ensanguentados, com prazer.

- Parece que o lixo do seu filho me deve um pedido de desculpas.

- Peça desculpas, Garret. – Disse Illyara, sua face amarronzada havia corado imediatamente. – Agora.

- Me desculpe.

Vociferou Garret. Vociferou com raiva, olhando diretamente nos olhos escuros daquele animal, tão profundamente irado e frustrado por ter que dizer aquelas palavras que por um momento todos acharam que a luta fosse reascender novamente. O cruel homem-lobo olhou-lhe nos olhos: Curtiu cruelmente por alguns segundos toda a frustração e humilhação que o outro estava sentido, e após se deliciar, virou as costas, desaparecendo rua acima sem não antes destruir uma barraca feita de madeira com suas próprias garras, levando um comerciante ao desespero.

Cornwallis se levantou tremulo. Lunara chorava silenciosamente, agarrada a barra da saia de uma cervídea que havia a abrigado em sua pequena barraquinha de madeira durante a confusão. Illyara se aproximou lentamente de Garret, e quando foi levar a mão a seu rosto, o jovem virou o rosto.

Virou-se e saiu andando, de cabeça baixa. Ninguém viu seu rosto, pois ele o cobria com a crina cor de palha.
- Eu lamento por isso, senhora Illyara.

- Tudo bem, General Cornwallis. – Disse ela suspirando, observando seu filho se afastar até desaparecer em uma ruela qualquer, enquanto ajeitava a barra de seu bonito vestido esverdeado. –  Os soldados das Terras do Fogo sempre causam problemas quando vêm para cá.

- Eu fiquei sabendo que queimaram a taverna Pé de Coelho. – Disse Cornwallis de forma soturna, se colocando ao lado dela. – Eles estão ficando piores.

- Quando o Dia do Tributo chegar, eles partirão. – respondeu. – Isso será apenas por alguns poucos dias mais.

- Os cidadãos andam comentando, minha senhora. Dizem que os tributos estão muito pesados. A maioria do povo passará fome, se dermos o que eles desejam; não haverá nada para nosso inverno.

- E eu serei a primeira a ter fome, se for necessário. – Disse ela enérgica. – Se negarmos o que eles desejam, não sobreviveremos nem para sentir nossas barrigas roncarem ou o frio espreitar.

Cornwallis balançou tristemente a cabeça. Illyara mantinha-se com uma firmeza incomum, alguns poderiam achar que era até frieza, mas Cornwallis sabia bem do que se tratava. Ninguém naquelas terras sofrera mais pela crueldade daqueles que vinham das Terras do Fogo do que ela, ninguém perdera tanto para suas mãos; e mesmo assim, ela se mantinha mais forte que todos. Ele levantou os olhos cansados para ela. A senhora de Gastamel tinha que se forte por seu povo, por seus filhos; e assim se mantinha, com a face erguida.

- Cornwallis, avise a Ron para esvaziar a dispensa da minha mansão e distribuir para quem estiver precisando para completar sua taxa de tributos.

Ela nem ao menos esperou que ele respondesse. Virou-se de costas e começou a andar pela grande rua coberta de grama. Ele deu dois passos mancos na direção dela.

- Senhora Illyara, e quanto a você?

- Agora, Cornwallis.
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- Me conte os contos das Terras Selvagens, Jubileu.

- Eu já lhe falei sobre isto, jovem príncipe. – Disse Jubileu saindo de uma das tendas que eles haviam armado para dormir. – Não trás bons auspícios falar sobre certas coisas durante a noite.

Os outros que estavam em volta da fogueira concordaram de forma pouco simpático. Shakk se agarrou mais a seu casacão de pele de camelo quando um vento frio soprou impiedosamente contra eles. Durante a noite, o deserto de Shár era incrivelmente frio, de modo que os dentes de Shakk batiam uns contra os outros enquanto ele se aproximava mais da fogueira.

- Eu quero ouvir novamente.
- Majestade. – Disse Jubileu calmamente, sentando-se ao lado dele e dando uma longa mordida no pé de um carneiro que tinha acabado de sair das brasas da fogueira. – Prometo que falaremos amanhã. Quando os espíritos estiverem repousando.

- Eu sou o filho de Sharjame. – Disse Shakk de forma arrogante. – Os senhores da areia não temem a espíritos ou auspícios! Comece a falar, Jubileu!
Todos olharam Shakk com reprovação. Entre eles havia um touro de certa idade, tinha pequenos chifres e seu pelo marrom já estava se prateando devido a idade. Tinha um focinho alongado e lábios grossos, e olhos bem vivos e astutos, com diversas cicatrizes no rosto, tantas e tão disformes que parecia um milagre não ter perdido algum dos olhos. Mesmo assim era enorme e parrudo, e devorada de forma animalesca a outra perna de cordeiro. Também havia um bode jovem e magricela, com olhos verdes vivos e um chifre que dava uma volta completa se projetando para trás de sua cabeça. Tinha uma barba rala e rosto fino, não alongado, braços longos e parecia quase sempre desanimado.

- Vai aprender a temer espíritos e auspícios para onde esta indo. – Disse o grande touro de forma pouco educada. – É um lugar terrível, isso eu posso lhe dizer. Pois eu já estive lá, e se não fosse por ser um dos poucos que esteve lá, eu não estaria aqui, como o azarado filho da puta que vai nos levar.

Jubileu riu limpidamente, se deliciando com o modo pouco educado com que o touro falava. Shakk quase chegou a rosnar e o pequeno bode tremeu.

- Então continue, azarado mestre touro. – Disse Jubileu prologando sua risada. – Compartilhe conosco sua sabedoria geográfica sobre a terra dos filhos da puta.

- Se fossem só filhos da puta que existem lá, não seria tão ruim. – Disse o touro, sem levantar os olhos do osso de carneiro que continuava a roer. – Mas lá é o inferno. Eu preferia morrer a ser banido para lá. A terra é ingrata e nada ela nos dá, se não árvores tão raquíticas que não daria para fazer um fardo de lenha cortando cem delas. Os espíritos são maliciosos e brincam com os vivos, os enlouquecendo, sussurrando absurdos em seus ouvidos, os puxando  para dentro dos profundos abismos cheio de gases fétidos. A noite as bestas saem, com muitos braços e muitos olhos, comem de tudo e não poupam ninguém. As madrugadas são inquietas e você mal consegue dormir ouvindo o mal espreitar, o dia é seco e quente e parece que é difícil respirar; o lugar fede a sangue, mijo e morte e se você não se acostumar com isso vai ser o próximo cadáver sendo canibalizado por um bastardo qualquer. É para lá que se banem os criminosos, quando os regentes os julgam hediondos demais. Quer se livrar de um ladrão habilidoso? Marque as costas dele a ferro quente com ”a marca” e o envie para as Terras Selvagens. Um pé-rapado qualquer comeu a filha de um príncipe? Terras Selvagens. Quer foder a esposa de um camponês até o cérebro dela sair pelo nariz? O envie para as Terras Selvagens. Sempre foi assim.

- Assim você faz nossos governantes parecerem vilões de histórias infantis. – Disse Jubileu, ainda mais deliciado com toda aquela conversa.

E tenho certeza que os banidos não são senhorinhas idosas praticando jardinagem, tapeçaria e ensinando bons modos as criancinhas, mestre touro. E nem todos em Shár são banidos, as vezes alguns tem a sorte de virarem escravos. Limpar os cascos de algum nobre convencido ainda é melhor do que lutar pela sobrevivência no meio do inferno.

- Isso é verdade. – Disse o touro jogando o osso fora por cima de sua cabeça enquanto lambia os dedos peludos e melados de gordura. – A maioria dos infelizes que estão lá merecem estar. Não sei de onde veio esse costume de banir os criminosos para estas terras amaldiçoadas.

- Eu ouvi falar que herdamos esse proceder dos humanos. – Disse finalmente o bode, em um tom tímido. – Eles faziam isso muito antes de chegarmos aqui, e continuamos fazendo quando eles foram embora.

- Eu não me surpreenderia, Murjar. – Disse o touro. – Apenas humanos para inventarem uma merda tão cruel como essa. Esta satisfeito com esses contos, Vossa Altezinha?

- É o suficiente.

Shakk disse isso com altivez. Mesmo assim, algo dentro de si havia se agitado e ele agora sentia medo. Havia aceitado essa missão com rapidez, de forma impensada, e não tinha recuado diante todas as súplicas para que ele repensasse. E como não o faria? Pela primeira vez, sentia que seu distante pai tinha algum orgulho dele; e mais do que isso, que seu progenitor realmente acreditava que Shakk era um adulto capaz. Ele já tinha treze anos, e para sua cultura e sua raça, isso já fora o suficiente para muitos príncipes antes de si estarem casados e regendo as imensidões arenosas do deserto. Pela primeira vez acreditava que seu pai havia lhe dado um voto de confiança, uma tarefa importante nos destinos de seu reino, de sua gente e de sua vida e ele não poderia dar um passo atrás; e seus olhos não poderiam demonstrar a mínima gota de hesitação.

Mas a cada passo que dava em direção ao desconhecido sua coragem parecia diminuir e seu coração parecia empurra-lo de volta para as ruas movimentadas de Baragmir e para sua cama afofada com almofadas de seda azul.

- Boa noite, jovem mestre. – Disse Jubileu se levantando com um sorriso. Shakk havia ficado tão preso em seus pensamentos que nem viu os outros se retirarem. – Durma, meu senhor.

- Eu ficarei mais um pouco aqui, Jubileu.

Jubileu fez uma reverência e entrou para a barraca. Shakk se deitou na gelada areia fina e olhou para cima enquanto os últimos momentos de vida daquela fogueira pareciam lutar para se prolongar. O céu do deserto sempre o acalmava. Era uma imensidão azul quase negra, que brilhava e cintilava com tantas estrelas que os olhos dele nunca conseguiam se prender a algo. Haviam rasgos luminosos no céu, inúmeros pontos brilhantes brancos e azuis, uma enorme lua azul-esverdeada cortada pela metade que insistia em iluminar o mundo com sua face exposta. Alguns pontos eram até verdes. Shakk havia aprendido que os grandes guerreiros de seu passado se tornavam belas estrelas, para guiarem os que vivem no futuro e para serem sempre uma garantia de que Bala’ak cuidava dos seus servos. Ele não se importava com isso: Elas eram belas, e sua beleza apagava a mente de Shakk; fossem elas seus antepassados ou simplesmente vagalumes zombeteiros, e ele sempre sorria quando repousava os olhos sobre elas. Fazia-o lembrar a mãe de alguma forma e por algum motivo que ele nunca se inclinou a pensar.

O menino-tigre acabou adormecendo ali, deitado na areia fina sobre as estrelas.
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#4
- Eles estão chegando. – Disse Ron, engolindo em seco enquanto seus dedos tamborilavam nervosamente na mesa. – Eles chegarão a qualquer momento!

- Eles vêm em toda colheita. – Perguntou Garret, olhando pela janela. - Por que esta tão nervoso dessa vez?

- A Capital aumentou, e muito, todos os tributos! – Disse Ron se levantando de sua poltrona em um sobressalto. Ele usava um grande casacão de lã marrom, por baixo, um gibão de couro. Suas calças eram longas e de um verde apagado, nos pés não havia calçado algum. O macaco se debruçou sobre a grande janela. – Não me importo de pagar o que for necessário para que eles deixem Gastamel e a Terra dos Bosques em paz. Embora minhas fazendas tenham perdido muito nessa colheita.

Garret suspirou profundamente. Ele estava tão nervoso quanto Ron. Olhava para o céu de forma pensativa, com os grandes cascos escuros apoiados no parapeito da janela. Para total ironia, o dia estava bonito: Naquele dia, o céu estava especialmente azul e as nuvens formavam belíssimas figuras disformes no céu, bonitas de se olhar.

- Cuide de Lunara. Eu vou dar uma volta na cidade.

Bateu a porta atrás de si, ignorando as chamadas que o velho Ron lhe dava. Saiu de sua grande mansão rapidamente, tomando as ruas de grama verde de Gastamel. As casas e construções eram feitas de modo que deixassem enormes caminhos de grama verde, como se a cidade fosse um grande labirinto de ruas e becos não pavimentados.

Mesmo assim, as ruas geralmente eram espaçosas, com diversos metros de largura o que permitia o tráfego de carroções com extrema facilidade. Hoje o dia estava especialmente agitado: Carroções passavam para lá e para cá, amarrotados de comida e todo tipo de objeto enquanto os cidadãos corriam tão apressados com os últimos preparativos para a entrega dos tributos que Garret nem ao menos era percebido.

As carroças passavam abarrotadas de alimentos. Eram maçãs, melões, ameixas, pequenas frutinhas verdes do tamanho de uma unha. Havia carne de javali e porco dependurada, salgada, bem seca e preparada enquanto todos faziam questão de afastar as moscas que insistiam em pousar em cima. Haviam objetos de metal, castiçais de ouro, colares de pérolas, pequenos baús cheios de moedas de latão, instrumentos musicais feitos dos mais diversas materiais, grandes espadas enferrujadas, livros antigos, berço de crianças talhadas em madeira, estatuetas de pequenos anões. Uma profusão tão enorme e aleatória de itens que Garret perdeu seu olhar.

“Pobre coitados. Estão juntando qualquer coisa que conseguem para ofertar. ” pensou, tristemente.

- Você não deveria estar com sua mãe?

Garret levantou os olhos para a frente. Um jovem chimpanzé, magro e esguio, de pelo de um negro tendencioso para o cinzento o olhava. Vinha com um grande sorriso jovial nos lábios escuros, seu longo rabo balançava para lá e para cá, como um ponto de exclamação que girava. Usava uma grande camiseta que fechava na parte de cima, toda avermelhada e calças folgadas e escuras, andava sem sapatos, pisando silenciosamente na grama.

- Minha mãe foi receber o Emissário. – Disse Garret, tomando lugar ao lado dele. – Eu não estou interessado em vê-lo. Eu nem ao menos quero estar aqui.

- Eu sei como é. – Disse Romil enquanto colocava a mão no ombro dele. Sabia o quanto aquilo tudo afetava seu amigo. – Meu pai também esta sem cabeça para nada. Você tinha que ver a confusão que estava na parte dos Pomares Altos. Ele disse que vai sobrar muita pouca comida para Gastamel.

- Vai.

Garret constatou o óbvio, tristemente. Romil deu-lhe um soco no braço forte e sorriu, balançando os braços magricelos para cima.

- Mas esqueça isso! Daqui a pouco esses soldados idiotas vão embora, e só vamos precisar nos preocupar com eles na próxima colheita.

Garret sorriu tentando se animar. Mas durou apenas um segundo. Um sino distante começou a badalar, parecendo vir do outro lado da cidade, em um badalar solitário. Uma profusão de sinos logo se uniu a sinfonia: Vinham de todos os lados, badalando fortemente, o mais que conseguiam e soando por toda a planície, até alcançar os bosques.

- Eles chegaram.

Eles se entreolharam por um instante. Um instante foi o suficiente para Garret tomar sua decisão e correr o mais rápido que conseguia para a entrada frontal da cidade. Romil foi correndo atrás dele, mas ficando para trás devido à energia singular do homem-equino. Ele nem olhou para os lados, passou tão alucinadamente que as pessoas que passavam por ele mais pareciam fantasmas que ele dava pouca atenção, tão apressados e conturbados quanto ele. A entrada frontal da cidade era uma grande parte aberta da planície, onde as construções a volta formavam um semi-círculo, em volta de um belíssimo jardim. 

O jardim era coberto com diversas flores, plantadas em canteiros que formavam grandes quadrados, diretamente na grama. As cores eram das mais diversas: Haviam orquídeas de tonalidades leves, rosas brancas e extremamente rosadas e girassóis tão protuberantes e numerosos que nasciam até mesmo além dos limites da cidade, formando uma faixa que parecia perdurar durante quilometros de extensão. Haviam pequenas construções de madeira, abertas dos quatro lados que protegiam quem visitasse os jardins do sol e da chuva e banquinhos de pedra espalhados por todo o jardim. No centro dele, havia uma enorme estátua: Um bloco de pedra quadrado, em cima dele, uma estátua de 3 metros de um soldado equino altivo e com o olhar levantado. Segurava embaixo de seu braço o seu capacete fechado e na outra mão uma enorme espada com a ponta apoiada na pedra. Usava uma armadura belamente adornada que lhe cobria o peito e se estendia por grandes joelheiras até seus cascos.

Mas não foi para nada disso que Garret olhou. Seu olhar atravessou os jardins. Lá estava sua mãe de pé, trajando um bonito vestido de linho azul, com os cabelos presos por uma bela prendedora de prata em formato de borboleta. Junto dela, haviam diversos fazendeiros curiosos (e corajosos) vestindo roupas simples e cinquenta guardas com lanças e espadas, usando armaduras rústicas de ferro e formando um grande corredor, metade de cada lado. Havia também dezenas de harpistas, tocadores de violão e flauta, todos posicionados altivamente atrás de Illyara. Garret se embrenhou em meio aos fazendeiros e levantou para ver o que vinha adiante.

Enormes carroções feitos de uma madeira escura e opaca, que formavam uma fileira tão grande que Garret desistiu de conta-los antes mesmo de começar. Eles eram puxados por javalis de pele escura, muito sujos que ostentavam enormes presas igualmente encardidas. Dentro deles e os guiando, vinham grandes híbridos, em sua maioria grandes lobos, hienas, rinocerontes e leopardos. A maioria vestidos pesadamente com armaduras feitas daquele metal escuro que lhe cobriam desde os ombros até os tornozelos, embora poucos usassem capacetes. Todos eles possuíam amarrados ao corpo (seja pelo pêlo, ou fixado por meio de cordas) restos mortais de seus inimigos como era seu costume. Isso incluía desde dedos que tremiam ao balanço das carroças até grandes olhos felinos presos como cordões em seus pescoços.

Também vinham híbridos magrelos e mal tratados, presos com gargantilhas de ferro que comumente ostentava uma corrente enferrujada, usando roupas de pano extremamente surradas e sem cor. Em sua maioria, eram todos herbívoros: Cervídeos, equinos, coelhos. Todos extremamente tristes e com cabeças baixas, tão sujos quanto possível. Criaturas tão tristonhas que Garret mordeu o lábio inferior evitando se comover.

- Os escravos. – Comentou baixinho um fazendeiro. -  Eles sempre trazem para ajudar a recolher os tributos.

Aquela cena parecia aterrar a todos, que se sentiam extremamente sortudos por ainda serem criaturas livres em Gastamel e não escravos infelizes na Capital. Eles se encolheram a medida que mais e mais carroções chegavam, fazendo uma grande fileira vertical em frente a entrada frontal da cidade. A arma daquelas criaturas era o medo, e Garret pode ver o quão bem ela operava no coração dos cidadãos. Garret sempre pensara consigo o quão covardes eram os habitantes de Gastamel por se curvarem aos caprichos da Capital, mas agora, tudo que ele conseguia fazer era engolir em seco. Nunca havia visto aquilo. Geralmente passava os dias preso em casa a mando de sua mãe no Dia do Tributo.

“Quem pode culpa-los de temerem e morrerem de fome para dar tributos a esses vermes? “ Pensou consigo. “Se fosse para manter Lunara salva, até eu o faria.”.

Até que um deles se destacou e avançou mais a frente, ficando a poucos metros da multidão amedrontada. Era uma carroça mais alta que as outras, tinha detalhes em dourado e em metal, tendo uma porta muito bem desenhada e uma pequena janelinha de um vidro límpido em seu centro, no qual pendia uma cortina vermelha.

Um coelho-híbrido surrado e raquítico se aproximou rapidamente, abrindo a grande porta de madeira e logo se prostrando no chão de quatro. De lá de dentro saiu uma figura pequena e magrela, pisando nas costas dele e o utilizando de degrau. Pousou seus pés nus na grama.

- O clima esta maravilhoso. – Disse com sua voz fina e debochada. – Posso esperar uma boa colheita esse ano?

Ela sorriu. Era uma híbrida-gata magricela, seu rosto tinha uma pelugem negra mas já na altura de suas orelhas ela ficava cinzenta e se prolongava por todo seu corpo. Seu rabo estava oculto embaixo das grandes vestes vermelhas, um grande vestido feito de um tecido opaco que lhe passava dos pés e que provavelmente dificultava a sua locomoção. Tinha um grande chapéu emplumado e um cordão dourado que se insinuava para dentro de seu vestido, uma pequena corrente. Tinha olhos azuis vívidos, em forma de grandes losangos que pareciam esticados verticalmente; e trazia em sua cintura um grande chicote de couro, pintado de um vermelho vivo que irritava os olhos.

Illyara fez uma longa reverência, e nesse momento todos os fazendeiros a fizeram junto. Os músicos começaram a tocar uma música leve e a híbrida sorriu para ela.

- Seja bem vinda a Gastamel e as Terras dos Bosques. – Disse ela com a voz límpida e simpática. – Nos enche de prazer a sua presença; esperando honrar mais uma vez os tratados feitos com a Capital.

- Certamente vocês honrarão. – Retrucou. – Alegra nosso coração que vocês sejam tão cooperativos quanto ao nosso acordo. Eu lamento que os tributos esse ano estejam maiores; porém aposto que vocês não tem problemas algum em paga-los pela proteção que nós provemos.

A híbrida-gata tinha uma fala mansa e carinhosa. Parecia realmente lamentar toda aquela situação; fora daquele contexto, pareceria uma conversa de amigas. Garret apostava que ela não se lamentava. Na realidade, Garret nunca tinha ficado tão acuado na vida: Era como olhar diretamente para uma cobra, sem saber o que fazer, confiando nos seus reflexos para evitar o bote.

- Por que não me permite mostrar o prazer de tê-la aqui? – Perguntou Illyara, com outra reverência polida, e vazia. – Por que não vamos a minha casa? O salão de Banquetes esta pronto para Vossa Graça.

A gata assentiu com a cabeça, com um leve sorriso acompanhou Illyara, passando no meio dos soldados. Um gato menor e muito parecido com ela veio as seguindo, juntamente a dois coelhos escravos, magros e maltrapilhos, carregando grandes sombrinhas, protegendo a astuta gata do sol.

- O Dia do Tributo chegou. – Disse a voz de Romil nas costas de Garret, sussurrando. – E nenhum de nós será feliz novamente até que ele acabe.

Garret não disse nada, mas sentiu vontade de chorar. Garret nunca chorava, diferente de Romil. Mas naquele momento, na frente daqueles carroções enormes que logo levariam o suado trabalho de seu povo para longe, daqueles soldados cruéis com risadas zombeteiras, na frente daqueles escravos maltrapilhos e enormemente infelizes, na frente de sua mãe que acompanhava gentilmente uma criatura desprezível, e na frente da estátua de seu antepassado que uma vez os livrara da escravidão dos humanos; ele sentiu vontade de chorar. E mesmo os dedos de Romil em seu ombro não retirou essa sensação; que não se esvaiu por um longo tempo.


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- Estamos nos aproximando.

As palavras do grande touro ilustraram o óbvio, mas o coração de toda a comitiva pesou com mais força naquele momento. Havia mais de quatro dias que viajavam com constância, parando apenas três vezes por dia, para comer e descansar. Shakk estava cansado: Seu pelo estava desgrenhado e completamente tomado por areia, seus lábios estavam secos e rachados; e por ordem de Jubileu ele bebia muito menos água por dia do que gostaria.

Mesmo assim estava mais longe do que jamais havia estado antes. Embaixo das grandes pernas de sua montaria réptil não havia mais areia, mas um solo de um marrom escuro, integro e duro como pedra, com diversas rachaduras devido a secura que fazia naquela terra. Eles agora ganhavam terreno dentro daquele enorme sertão que não apresentava mais do que alguns poucos animais para a caça, alguns córregos de água extremamente tímidos e pequenas árvores com pouquíssimas folhas. Mas havia abundância de cactos e uma seca erva rasteira de cor pálida amarela, que se estendia como vinhas para lá e para cá sem nada produzir.

- Não beba de seu cantil enquanto tem cactos por perto. – Disse Jubileu, cortando um grande pedaço de um cacto alto e florido e jogando dentro da boca, o triturando com seus dentes répteis que pareciam pequenas lanças. – Eles tem muita água.

Shakk fez o mesmo, embora os pequenos espinhos, aparentemente inofensivos para Jubileu, machucassem sua boca. Mesmo assim não era tão ruim, pois a cada mordida ele conseguia sentir muita água se desprendendo do pedaço e inundando sua boca seca. Jubileu era uma presença animadora, sempre gentil e bem humorado. O pequeno bode magrelo de nome Murjar, também era gentil e embora falasse pouco, era uma boa companhia. O enorme touro se chamava Sind’ur, embora Shakk tivesse descoberto isso por outros, falava pouco e resmungava muito; sem a mínima necessidade de prestar qualquer tipo de corte a Shakk. E isso o irritava profundamente.

- Pare, Sind’ur. – Disse Jubileu repentinamente, e o touro parou seu lagarto que estava na vanguarda, e toda a comitiva parou com ele. – Já me alonguei demais.

Disse poucas palavras, e nesse momento Shakk evitou olhar para Jubileu. Sabia que ele estava sorrindo, mas a mera menção de ter seu amigo e protetor longe de si o enchia de medo.

- Não pode ir mais a frente conosco, Jubileu? – Perguntou Shakk, sem ainda lhe prestar um olhar. – Não estamos tão perto.

- Você se engana. – Disse Sind’ur de forma pouco simpática. – Mais algumas horas e já estaremos dentro daquela terra maldita.

Shakk continuou olhando adiante, tentando decifrar com seus olhos aquela terra desolada e amarronzada que se estendia a sua frente. Como se a perguntasse se conseguiria vencê-la sem Jubileu. Ele sentiu algo lhe tocar a mão, e o amigo estava prostrado ao seu lado, de pé, com um sorriso simpático exibindo seus dentes pontudos.

- Não tema, jovem príncipe. – Disse de forma consoladora, sua voz quase lírica. – Não tema nada. Não tema a fome, nem a solidão, nem a dor. Em seu sangue corre mais do que o sangue dos Senhores da Areia. Em seu sangue corre o sangue de Sharjame, e você é filho dele! Legitimamente filho dele! Sua coragem até aqui mostrou isso. Embora eu consiga ver muito de sua mãe em você... Os olhos de sua mãe.

E os olhos répteis de Jubileu o penetraram fortemente naquele momento, e Shakk não conseguiu sustentar o olhar. Jubileu parecia emocionado, mas logo virou de costas, fazendo esvoaçar a borda de seu grande roupão azul, no qual ele usava por cima um casacão de couro que fechava em botões de latão durante a noite no deserto.

- Você realmente tem que partir? – Dessa vez perguntou Murjar, também amedrontado. Não se sabia se era por ter Sind’ur como guia ou por perder o que parecia ser o melhor guerreiro de seu grupo. – Tem certeza que deve partir, mestre Jubileu?

- Eu devo, mestre Murjar. – Disse ele polidamente, mas com certa tristeza. – Tempos difíceis se aproximam de Shár, e eu devo estar ao lado de Sharjame quando isso acontecer. Não sou apenas seu general, como seu conselheiro, e com sua permissão, seu amigo. E nem os sábios poderão prever o que poderá acontecer nesses tempos. Devo estar no lugar certo para tentar lutar contra a tempestade certa, do contrário, sou um inútil rodopiando em um furacão de areia.

- Eu ficarei bem. Obrigado, Jubileu. – Disse Shakk. – Adeus.

Jubileu subiu em um salto em cima de seu lagarto, fez um grande sinal e deu uma risada.

- Estaremos juntos antes que imagine, majestade! – Disse ele e com mais uma risada virou seu lagarto e começou a andar na direção oposta. – Adeus, jovem príncipe. Adeus, mestre touro. Adeus, pequeno mestre bode. Adeus, bravos guerreiros do fim do mundo!

Jubileu não olhou para trás, embora todos olhassem para ele. Menos Shakk, que estava a ponto de chorar e transformou isso em um pontapé rude em seu lagarto, que começou a andar, assumindo a vanguarda junto de Sind’ur.

- Vamos, Sind’ur. O que você esta esperando?

- Você se decidir se vai borrar as calças parado ou se vai voltar correndo para dar uma chupada no seu amado Jubileu.

E eles seguiram viagem. A menos de um dia de viagem Shakk pode constatar com horror que tudo que Sind’ur falara era a mais pura verdade. Agora a terra se tornava irregular, sendo cortada por diversas montanhas e vales pedregosos, por vezes eram obrigados a contornar algum enorme declive no meio do caminho, e por isso perdiam muito tempo na viagem.

Não bastava o terreno ser infinitamente irregular, a vegetação simplesmente havia desaparecido para dar lugar a árvores raquíticas que se projetavam para o alto sem nenhuma folha por mais seca que fosse, com troncos amarronzados e esbranquiçados o que lhes dava um teor fantasmagórico. Das crateras no chão e do solo rachado por vezes emergiam gases e vapores quentíssimos, fedorentos e nauseantes. No segundo dia de viagem um dos membros da comitiva foi surpreendido por um que subiu debaixo das rachaduras que estava, e não demorou a urrar de dor, assumindo queimaduras esverdeadas e nojentas. Não sobreviveu mais do que algumas horas.

- Lugar dos infernos! – Reclamava sempre Sind’ur. – Lugar desgraçado. Que Bala’ak nos mate logo se formos morrer no final, para não aguentarmos mais um segundo nessa porra!

Sind’ur sempre ordenava que se cortassem árvores para que se fossem feitas fogueiras que durassem durante toda a noite. A fumaça daquela madeira branca e doente subia como uma fumaça infernal, com cheiro horrendo e dificultando a respiração de quem quer que respirasse perto delas.

- Para que essa porra, Sind’ur? – Perguntou um dos membros da comitiva. – Já não é infernal o suficiente esse lugar?

- Então você que se foda com as bestas. – Disse ele apontando para algum lugar na escuridão. – Ali.

Quando todos olharam haviam diversos olhos se retorcendo entre algumas rochas não muito distantes. A coisa, ou as coisas que ali estavam, pareciam ter um enorme corpo, e braços mais numerosos ainda. Enormes cabeças se amontoando uma em cima da outra, fazendo barulhos como se algo rígido lascasse a pedra. Essas criaturas misteriosas chegavam a se aproximar muito do pequeno acampamento, mas nunca ao alcance da luz da chama; e não houveram mais reclamações sobre as fogueiras. Elas retornavam toda a noite.

A esta altura Shakk não desgrudava de sua bela e longa lança, adornada com gravuras em ouro escritas na língua antiga dos povos do deserto por toda sua extensão, talhada em excelente madeira forrada com linho vermelho que culminava em uma ponta curva de um ferro brilhante e bem polido. Ela havia se tornado sua fiel companheira, embora não desejasse se deparar com o momento de usa-la. Os outros fizeram a mesma coisa. Sind’ur guardava o seu enorme machado tosco como uma amante, e Murjar parecia namorar sua espada curta.

Todos falavam muito pouco. Muito cansados, muito amedrontados ou com muita fome; ou os três ao mesmo tempo. A água de Shakk estava começando a acabar, e ele acreditava que isso poderia se aplicar aos outros. Até seus lagartos pareciam exaustos e infelizes.

Os cinco dias que viajaram por aquelas terras áridas e hostis foram os piores de sua vida. Se sentia cansado, pois Sind’ur os fazia vencer muitas milhas e os permitia dormir e comer muito pouco. Tinha que estar sempre atento para desviar de rachaduras suspeitas, vapores que apareciam repentinamente, manter o fogo aceso contra as bestas da noite e tapar os ouvidos contra os sussurros de espíritos brincalhões que pareciam o vento quente soprando. O lugar era imensamente desolado, tirando algumas sombras curiosas que eles viam a extrema distância fosse dia ou noite, de grupos não maiores que dez híbridos como eles. Não viam mais nada nem ninguém, nem nada que se movesse.

- Existe algo além daqui?

- É impossível. – Indagou Murjar, completamente sujo de terra. Seu casaco de couro reforçado já havia se tornado um carpete empoeirado e sua túnica rasgada até a altura do joelho. – Depois daqui, é a morte. Que Bala’ak nos ajude.

- Dizem que tem uma floresta. – Disse Sind’ur pensativo. – Uma enorme floresta, que se estende até a borda do mundo.  Mas não pense que isso é algo bom. Se metade do que contam sobre lá for verdade, é melhor arranjar uma puta e construir uma choupana para viver aqui nas Terras Selvagens. Ao menos aqui você é comido por bestas e morto por criminosos, e não esta na mão de magos e espíritos suspeitos para que eles façam qualquer atrocidade que magos e espíritos façam com aqueles que capturam.

- Sind’ur... Já é o sexto dia... – Disse Shakk choramingando. Não gostava de perguntar muito pois isso irritava o touro. – Quanto tempo ainda falta?

- Pois chegamos, vossa majestade. – Disse ele, com deboche e receio. Fez uma reverência mais debochada ainda. – Bem vindos a Boca do Dragão.

Era quase noite e por isso não perceberam. Ou estavam cansados demais, e por isso não perceberam. Mas alguns passos a frente de onde Sind’ur estava, se estendia um enorme abismo. Era tão extremamente profundo que nada se podia ver dentro dele, e estava tão escuro, e a sua outra extremidade  era tão distante, que ela também não podia ser localizada pelos olhos cansados da comitiva. Shakk desceu de seu lagarto de montaria e se aproximou, olhando de forma amedrontada para dentro daquele enorme abismo, que de lá subia um ar quente que parecia a respiração de uma besta imensa adormecida no fundo daquele buraco, que fazia um barulho estranho que parecia a sinfonia de algo enorme e irritado. Concluiu que por isso chamavam Boca do Dragão.

- Boca do Dragão? – Disse Murjar, e sua boca se escancarou e ele empalideceu. – Um dragão?

- Não seja idiota, seu merdinha. – Disse Sind’ur irritado, cuspindo secamente no chão e quase acertando Shakk na escuridão. – Não existem coisas como dragões.

Mas por um momento pareceu que até Sind’ur não acreditou em suas próprias palavras enquanto todos encaravam aquele enorme abismo, como a bocarra aberta de uma besta negra que soltava aquele vento quente que eles sentiam nas faces e lhes parecia uma respiração mortal. Pareciam todos hipnotizados por aquele momento, pela simples perspectiva de que aquele barulho mitológico viesse de uma besta dessas proporções, em completa dúvida sobre se sentirem maravilhados ou completamente tomados de pânico. Shakk engoliu em seco, o nó em seu estômago estava mais forte do que nunca. Poderia fugir para qualquer lugar do mundo, e tinha certeza absoluta que caso propusesse a qualquer um da comitiva para esquecer aquela viagem e correrem para qualquer outro lugar, eles aceitariam e ainda o agradeceriam. Mas deu um passo a frente, um passo incerto, mas um passo de coragem.

- Amarrem os lagartos. Vocês dois, acendam duas tochas. – Disse altivamente, e até Sind’ur levantou as sobrancelhas céticas, surpreso. – Vamos descer. 
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#5
- Eles estão ficando mais ousados. – Disse ela enquanto levantava um braço, se espreguiçando. – O que será que deu neles neste ano? Será que se esqueceram de seu lugar?

Ela perguntou enquanto olhava para os dois soldados que estavam a seu lado. Bocejou despreocupada, virando as costas para o enorme celeiro que pegava fogo.

- Atirem fogo em todo esse pomar. – Disse, virando de costas enquanto ajeitava seu longo vestido vermelho. – E matem quem quer que esteja em suas dependências.

Foi com alguns grunhidos e palavras pouco simpáticas que as dezenas de enormes lobos escuros concordaram. Odiavam receber ordens daquela mulher-gata arrogante; mas adoravam cumprir suas ordens hediondas. Foi sem cerimônia alguma que eles logo se puseram a correr pelo enorme pomar de maçãs, colocando seus longos focinhos bem treinados para procurar qualquer criatura viva que lá estivesse enquanto roçavam seus dentes uns nos outros, excitados pela expectativa de achar uma presa.

Serim nem ao menos olhou por cima do ombro para aquelas bestas. Eles eram estúpidos e pouco úteis, mas eficazes quando a tarefa era matar. Ela continuou andando sendo acompanhada por um híbrido-gato menor muito parecido com ela, que parecia tão jovem quanto uma pequena criança.

- Madame Serim! Este já é o terceiro pomar que você manda destruir! – Protestou ele, mas com um tom risonho, quase se divertindo com aquilo. – Assim não vai sobrar comida para a Capital!

- Não seja tolo. Gastamel produz comida demais para um mísero pomar de maçãs-verdes ser um problema. – Disse ela,  estendendo o braço para pegar uma maçã-verde em cima de uma árvore, antes dela ser mandada abaixo a machadadas por um de seus soldados. – Infelizmente, aqui eles produzem as melhores.

- Por que esses idiotas continuam escondendo a comida dos tributos? Será que não tem medo de morrer? – Disse de forma risonha o pequeno híbrido-gato marrom, girando seus olhos. – Ou será que não respeitam mais a senhora?

Foi com frieza que Serim encarou o gato menor, que continuou com um sorrisinho tão ridiculamente debochado no rosto que ela quase teve o impulso de lhe arrancar o rosto com as próprias garras.

- Essa resistência é natural com o aumento dos tributos. – Disse ela dando a primeira mordida na maçã. – Vou ficar surpresa se eles conseguirem sobreviver até a próxima colheita com o tanto que estamos arrancando deles.

Foi com mais uma risadinha tola que o gatinho foi pulando atrás de Serim, as vezes saltando em cima do rabo de seu vestido vermelho apenas para provoca-la. Ela continuava calma e fria, pouco se importando. Foi então que ela olhou a frente, e seus olhos brilharam de excitação: A cidade de Gastamel parecia calma e fria naquela noite, banhada pela luz fraca e opaca da lua escondida pelas nuvens.

- Mas é necessário lembrar-lhes que eles têm um lugar no mundo. – Disse ela, enquanto seus olhos brilhavam tão intensamente que o menor a encarou, deixando de lado as risadinhas, para tentar decifra-la. – E eu sei exatamente como fazê-lo.

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Então eles desceram. Havia um pequeno caminho delineado no canto do abismo, junto as paredes do mesmo. Mesmo assim, era uma trilha pequena no qual poderiam passar apenas em fila indiana, e mesmo assim, com extrema cautela. Deixaram seus lagartos-montaria lá em cima, e após pegarem algumas provisões começaram a descida.

Sind’ur ia na frente, com uma tocha na mão e na outra seu pesado machado. Atrás dele vinha Shakk e no final da filazinha indiana havia Murjar como penúltimo. Alguns carregavam tochas iluminando o caminho. Mal estavam dez minutos na trilha e já parecia uma eternidade.
Não ficava de forma alguma mais claro. E parecia que eles conseguiam ver cada vez menos, descendo a bocarra negra de uma enorme besta das trevas. Se não fosse por Sind’ur, eles não conseguiriam dar um passo para dentro daquele abismo; pensava Shakk. No fim das contas gostava dele, embora ele não parecesse gostar de ninguém.

A caminhada se alongou por  poucas horas, e não foi dita nenhuma palavra mais do que o necessário quando se percebeu que qualquer coisa dita mais alto parecia reverberar em alguma parede distante. Se comunicavam aos sussurros, e suavam. Fosse pelo calor infernal, fosse por nervosismo total. O caminho era imensamente tortuoso e perigoso, e por vezes eles subiam ao invés de descer por aqueles caminhos de terra. Todos evitavam olhar para baixo.

- Esperem! – Disse Sind’ur de forma firme e a comitiva parou. – O que é aquilo...?

E de fato havia algo. Algo se movia na escuridão no pequeno caminho pelo qual eles iam. Algo se aproximava rapidamente, uma grande sombra larga que não emitia som. Sind’ur estreitou os olhos e aproximou alguns passos, com a tocha empunhada a sua frente. A grande sombra tomou forma, cor e dimensão. 

Era a enorme cabeça de um inseto, com uma couraça cartilaginosa escura levemente avermelhada. Tinha uma enorme cabeça e dois olhos pequenos e negros junto a duas pinças cerradas, um enorme corpo alongado, diversos braços que se estendiam do corpo, e no fim deles, o que pareciam ser três garras capazes de triturar pedra. Haviam grandes antenas na extremidade, duas que chacoalhavam ameaçadoramente enquanto suas pinças abriam e fechavam provocando um barulho ameaçador. Era tão grande que se equilibrava para não deslizar abismo abaixo naquele pequeno caminho de pedras.

- Fujam! – Bradou Sind’ur, com tanta força que ecoou fazendo os ouvidos doerem pela imensidão aberta do local. – Voltem!

Imediatamente todos correram. Giraram habilidosamente nos calcanhares e começaram a voltar em grande velocidade pelo caminho de volta. Atrás deles, a enorme besta, o enorme inseto raivoso corria em sua direção. Shakk olhou por cima do ombro e constatou que ele não estava sozinho: Atrás dele, como diversas sombras no escuro extremo haviam outros e ele não conseguia conta-los. Somente sabia que eles se amontoavam debilmente um por cima do outro, correndo tudo o que suas pernas longas os permitiam, tão ávidos por pegarem a comitiva que as vezes atropelavam um de seus semelhantes que saia rolando desfiladeiro abaixo, andando de seu modo desajeitado.

Em meio ao pânico, o que estava na frente de Murjar pisou em falso, se desequilibrou e rolou desfiladeiro abaixo, soltando um grito cortante que gelou o coração do pequeno homem-bode, que tentou segura-lo mas apenas conseguiu salvar a tocha que ele segurava.

- Parem! – Gritou imperiosamente Murjar, cheio de receio. – As bestas também vêm por esse lado!

E todos pararam para constatar que era verdade. Que estavam irremediavelmente encurralados. Que pelo caminho pelo qual vieram, aquelas bestas gigantes se amontoavam fartamente, se aproximando e chegando tão perto que suas pinças soltavam um barulho ensurdecedor.

- Em forma! De costas uns para os outros! – Gritou Sind’ur, despertando a todos do pânico. – Você comigo, tigrinho! Zeo, pegue o outro lado! Rurka, flechas!

Todos se formaram com impressionante velocidade. Em uma das extremidades estava o altivo Sind’ur, empunhando seu enorme machado e uma tocha, que usava para afastar as bestas que pareciam temer o fogo. Do outro lado, os guerreiros se enfileiraram meticulosamente em fila indiana, acendendo tochas e as lançando em direção as criaturas, que guinchavam de medo e dor quando viam as tochas acesas lhe cobrirem as cabeças ou flechas incendiadas as acertando.

Shakk estava tomado de pânico. Parecia não haver saída alguma para eles enquanto o aparentemente mar inexorável de insetos se abatia contra eles. Mas Sind’ur não parecia ter uma gota daquele pânico em seus músculos.

Insinuou a tocha acesa na direção da besta, fazendo-a abaixar a enorme cabeça e lhe golpeou certeiramente bem entre os olhos, abrindo seu crânio e fazendo um sangue verde nojento expurgar como um gêiser. Um chute no olho foi o suficiente para aquela enorme formiga rolar desfiladeiro abaixo, sendo logo reposta por mais duas, uma em cima da outra; embora Sind’ur em sua fúria rapidamente girasse seu machado, o segurando pela ponta do cabo, arrancando suas pinças e fazendo mais sangue verde jorrar.

Foi na outra ponta da fila, e na frente dos olhos de Murjar que se exprimia contra a parede, que uma das enormes formigas agarrou o braço de um de seus companheiros com a pinça e o arrancou fora como se fosse papel. O sangue vermelho correu fartamente do braço decepado, que caiu no chão enquanto ela avançava contra ele, até cobri-lo e lhe pinçar tantas vezes que só o que se sobrou foi uma enorme poça de tripas, sangue e carnes trituradas enquanto os gritos se extinguiram com velocidade. 

Murjar ficou em estado de choque, olhando aquilo de boca aberta, tomado de pânico demais para reagir enquanto os enormes olhos negros daquela besta lhe miravam, aproximando-se. Ele fechou os olhos, e sentiu lágrimas quentes escorrerem em seu rosto. E teria morrido, se Rurka habilidosamente não tivesse acertado em cima do olho esquerdo dela, fazendo-a se desesperar e desajeitadamente cair para a escuridão infinita que os contornava.

O barrigudo e baixote coelho Rurka arremessou lugar para trás, o puxando pela camiseta e o colocando a seu lado enquanto preparava outra flecha besuntada em óleo, para ser incendiada. 

Até Sind’ur foi golpeado por uma das pernas daquele inseto, que o jogou contra o chão e pressionou uma delas contra seu peito, o prendendo. Shakk apertou os dedos contra sua lança, girou-a com habilidade e decepou aquela perna, fazendo a criatura perder o equilíbrio e tomar para o lado, perdendo-se. Sind’ur sentia uma forte dor no peito, mas saltou ferozmente, e se atirou, enfiando a tocha em um dos olhos da próxima com tanta violência que o globo ocular dela estourou em um líquido fedorento e escuro e ela recuou.

Uma das enormes formigas se precipitou para frente como um boi estourado, e após se desequilibrar, caiu com mais dois dos companheiros desfiladeiro abaixo. Apenas Rurka, Murjar, Sind’ur, Shakk e mais um restaram. E as bestas prosseguiam, com números o suficiente para repor aquelas que eram derrotadas e para fazer grandes sombras amedrontadoras até onde a visão deles conseguia ver na escuridão.

- Não há o que possamos fazer... – Vociferou Murjar, e Rurak lhe pregou os olhos duros. – Estamos perdidos. Vamos morrer.

Shakk se moveu. Passou felinamente por baixo das pernas de Sind’ur fazendo com que ele quase desequilibrasse. Havia jogado a lança por cima da cabeça dele, e a pegou do outro lado. Saltou contra a cabeça da besta, dando-lhe um chute em cima do rosto e pegando impulso para monta-la. De cima para baixo, enfiou sua lança e a lâmina afiada entrou-lhe com dificuldade no crânio. Ela se debateu e caiu morta, sujando o garoto daquele sangue verde.

- Subam! – Gritou ele, montado  em cima daquela formiga. – Rápido!

Sind’ur olhou-o com algum fascínio. Percebeu o plano dele e o achou imediatamente idiota, mas sua face exibia sua disposição em tentar.

- SUBAM! – Disse apontando para Rurak e Murjar. – RÁPIDO!

Disse dando fortes passos para o outro lado e os atropelando, brandindo sua tocha para afastar as formigas. Shakk em cima da formiga morta, em pé, lutava. Ameaçava as que tentavam subir em cima dela, girando sua lança e provocando cortes, decepando pernas e arrancando pinças. Não demorou para que Rurak, Murjar e seu quarto companheiro, um homem-cachorro cinza coberto de manchas negras, subissem em cima da formiga morta, acompanhando Shakk.
- Venha Sind’ur! – Gritou Shakk a plenos pulmões, cruzando sua lança com a pinça de uma das formigas como se fosse uma espada. – Rápido! Vocês! Apoiem seus pés na parede e se agarrem a besta, assim que ele Sind’ur subir empurrem com toda a sua força! Vamos  usar ela para amortecer a queda!

- Você enlouqueceu? – Disse Murjar empalidecendo. – Nós vamos morrer! Seremos achatados no fundo desse abismo! Se é que existe um fundo!

Sind’ur finalizou a vida de mais uma das formigas, lhe aplicando tantas machadadas em cima do corpo que ele quase a partiu em dois, emergindo dali banhado em sangue verde e gosmento. Foi ai que se voltou para eles e começou a correr. Correu, mas não os alcançou. Não os alcançou pois algumas outras formigas começaram a dar potentes cabeçadas na formiga morta na qual a comitiva estava montada, e na segunda investida conseguiu empurrar o enorme corpo daquela besta morta para o abismo.

Shakk se jogou imediatamente contra o corpo dela, prendendo sua lança com uma mão e se segurando em uma das pernas com a outra. Murjar abraçou o corpo dela, se deitando contra a mesma. Rurak e o outro se agarraram nas antenas e evitando as pinças, enfiaram desesperadamente a mão na cavidade de um dos olhos estourados, se apoiando no crânio, por dentro.

O grupo levantou o olhar. O corpo dela rodopiou e eles rodopiaram juntos escuridão abaixo. Shakk olhou para cima, e em meio a aqueles rodopios, a última coisa que pode ver foi Sind’ur. O enorme homem-touro olhava atônito eles caírem, incrédulo e solitário. Solitário entre duas enormes torrentes de bestas que se aproximavam dele lentamente, pinçando e provocando um barulho infernal de morte. Tudo aconteceu rápido. Mas Shakk ainda pode ver a palidez daquele guerreiro sumir e ele girar o machado e a tocha acima da cabeça, pronto para se entregar para uma morte solitária enquanto seus companheiros se jogavam em uma esperança duvidosa que a escuridão do abismo seria mais acalentadora do que as pinças das bestas.

Shakk só conseguiu ouvir um brado de guerra, bradado na língua antiga dos povos do deserto, um grito imperioso, desesperado e que apenas alguém entregue a morte poderia dar. 

Shakk era muito pouco versado na língua antiga, mas acreditou que aquele brado poderia dizer: Por você até o fim. Depois disso, não viu nem ouviu mais nada.
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#6
Olá Sadlion, estou acompanhando a história com muito entusiasmo! Por favor, não pare! Continue por favor. Eu adoraria ler mais


Yako~
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OLHA O MONSTRO!!!
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