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Histórias de Tabax - "Lágrimas não são Argumentos"
#1
“Lágrimas não são argumentos” (Machado de Assis)
 
Por dias, ela tentou. E toda tentativa foi em vão. Todo argumento que ela tinha para justificar seu ponto de vista era duramente rebatida e contra-argumentada por eles.

Muritta Yumin não conseguia convencer os seus pais de desistir da ideia de arrumar um noivo da alta sociedade de Zomaron para se casar com ela.


Pretendentes não faltavam: Muritta era uma coelha muito atraente. Seus olhos negros contrastavam com sua pelagem branca, seu corpo era, mais do que resultado de exercícios e esportes, fruto de uma boa seleção genética ao longo das gerações. Os Yumin sempre selecionavam aqueles que eram considerados os melhores dentre os leporinos para seus consortes. E felizes eram os eleitos, pois os Yumin eram nada menos que os mandachuvas de Zomaron. Eram quem davam as cartas, decidiam as coisas por trás das cortinas, eram amigos próximos e conselheiros influentes da Família Real.


Mas Muritta tinha outro plano. Um plano chamado Sätar. Sätar Kourusyumman era diferente de todos os que ela havia conhecido desde então. Tinha modos diferentes, um jeito diferente de tratar as pessoas e, ao contrário dos pretendentes que seus pais queriam arrumar para ela, era humilde, bem educado e erudito. O único porém era que Sätar não tinha posses.


Híbrido de lebre e coelho, uma cruza não bem-vista entre os aristocráticos Zomaronos, Sätar foi abandonado às portas de um orfanato e criado por uma família de carnívoros – Raposas, pra ser mais exato. Sempre trabalhou nos serviços mais baixos e sujos, destinados aos imigrantes e os quais eram rejeitados pela quase totalidade dos nativos de Zomaron (Coelhos, lebres e ochonatas). Por isso, sempre foi maltratado, ora por seus clientes, ora por seus empregadores, até resolver estudar por conta própria e se formar autodidata.


Muritta conheceu Sätar na biblioteca do clube que frequenta. Seus modos eram autênticos, imprevisíveis e ele sempre contava piadas entre uma frase e outra, fazendo-a rir. Coisa rara, seus pais diziam que apenas os levianos riem.


Ela queria estar junto de Sätar, não importasse se morassem em uma caverna. Era uma sensação que ela não sentia com ninguém. Então, quando viu que seus pais não se dobravam aos argumentos dela, resolveu contar tudo a seus pais. Tudo, inclusive que não era mais “mocinha”.


Escândalo, gritaria, pratos quebrados, uma chibata e vários cortes no couro, foi o resultado da revelação. “Imagine, uma Yumin, deitar-se com um macho, sem passar pela aprovação de seus pais? Ultraje!” E seu destino estava selado: “Irá para o Convento, para se purificar, e depois ao médico de moças, para ter sua “mocidade” restaurada, e depois vai se casar com quem EU ordenar!”


Ao ver as lágrimas descendo do rosto de sua filha, ironizou:


“Lágrimas não são argumentos.”


Muritta saberia o que aconteceria: Uns telefonemas, e o mundo acabaria para Sätar, que seria desalojado de tudo: De seu emprego, de sua dignidade, de sua segurança, de sua liberdade, de sua integridade física, até da própria vida.


Sua mãe a olhava com pena, e antes de ter sua atenção chamada por seu marido, disse:


“Você não sabe o que é o amor”


Muritta não era idiota. Saberia que, se nada fizesse, tudo acabaria para ela. Ela nunca mais voltaria a rir. Eram duas horas da madrugada, quando ela conseguiu abrir a porta do quarto, trancada, usando um truque ensinado por Sätar para entrar na biblioteca à noite. Caminhou até a cozinha. Pegou uma faca. Voltou para seu quarto. Destruiu tudo o que tinha de supérfluo. Foi para o quarto dos pais.


A Força Corretiva esteve cedo à suntuosa mansão dos Yumin. Havia recebido uma denúncia de assassinato. Muritta havia usado os contatos de seu pai e, durante a madrugada inteira, arquitetado um plano digno de uma raposa. Na adega, foi encontrado um corpo de uma jovem lebre, sem o couro, prostrado sobre símbolos de magia negra e, nas camas dos pais dela, as facas sujas de sangue. Toda a mídia vista, lida, ouvida e numerada revelou detalhes da cena do crime, o que fez a Família Real repensar o papel dos Yumin e descarta-los de seus círculos de relação. Até que os legistas descobrissem que o corpo não era de Muritta, mas de uma jovem que tinha morrido uma semana atrás e devia estar no necrotério, o estrago já estava feito: Em meses, todo o clã Yumin estava na miséria.


Muritta, por sua vez, também contatou alguns “limpa-fichas”, que forneceram novas identidades para ela e para Sätar poderem viver em paz sem serem incomodados. Enquanto boa parte do clã Yumin estava mergulhando na falência profunda, dada a repercussão do caso, Muritta e Sätar atravessavam a fronteira de Rippata, rumo à cidade de Ushe, de maioria ovina.


Talvez, Muritta não soubesse mesmo o que era o amor. Mas, com certeza, Sätar a ajudaria a descobrir. Talvez o amor seja aquela sensação agradável que se tenha ao estar do lado de alguém, rindo como uma leviana, com a alma leve.


Talvez, seus pais é que não soubessem o que era o amor.


FIM.


Não corte uma árvore no Inverno; pois sentirá falta dela no Verão.
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