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Kitty
#1
Kitty

O que eu vou contar a vocês aconteceu comigo, Jack McUmba, há dois anos atrás, e só tive coragem de voltar a falar nesse assunto hoje.

Era verão, eu me lembro. Os dias eram bem quentes, o clima no trabalho era abafado, eu sentia o peso do ar. E por Anubis, como era pesado!

Todos me cobravam, exigiam o máximo do meu empenho, e meu erro mais banal já era motivo para mais de meia hora de sermão. Outro dia, quase fui despedido pelo meu supervisor, porque eu lhe trouxe mocaccino em vez de capuccino.

Minha mulher, outra abelha a me ferroar. Confiscava todo o dinheiro que eu recebia, a ponto de eu ter que lhe mendigar uns trocados pra tomar a minha cerveja. E como ela tinha prazer nisso! Ela adorava me ver por baixo, como se eu merecesse aquilo tudo por ter dito "sim" a ela naquela porcaria de altar. O poder de uma palavra...!

E, com a minha pelagem me abafando - Afinal, era verão - por mais que eu tomasse banho, sempre diziam que eu fedia a suor. E falavam isso na minha cara, sem cerimônia, podia ser na frente de quem fosse, até mesmo na frente do Presidente-Geral da companhia.

Mas, fazer o quê? Eu amava meu trabalho, amava minha mulher, não conseguia me ver em outra situação, em outro trabalho, com outra mulher, ou mesmo solteiro!

Então, era um dia de verão, e eu falei pra minha mulher que faria hora extra. Afinal, eu também precisava de um tempo pra mim. Então, em vez de ir para o trabalho, fui por uma estradinha até fora do perímetro urbano. Já via as árvores dos primeiros sítios, quando uma coelhinha branca me parou. Ela usava um capote vermelho, com apêndices onde se encaixavam as orelhas. O mais estranho era que, além do fato de ela ter uma flor presa no capote, eu não me lembro de mais nada.

--Kitty pode te ajudar - Disse ela, subitamente.

--Quem é Kitty? - Perguntei, ao que não tive resposta. Ela vinha da zona rural, afinal ela vinha na direção contrária à minha. Achei estranho, mas segui em frente.

A estradinha me conduziu, quilômetros adiante, até um sitiozinho com uma figueira encostada na porteira, onde um cão de orelhas caídas e cauda "cotoco" e um gato preto e branco com uma bandagem vermelha na cara, proseavam sossegados.

De repente, o cão se calou e olhou para mim.

--Kitty pode dar um jeito em sua vida - Disse o cão, sem mudar o tom de sua voz.

--É, uma coelhinha com uma flor na cabeça já me disse isso - Respondi - Mas quem é "Kitty"?

O gato deu um longo suspiro.

--Se você não tá afim de mudar sua vida completamente - Disse o gato - Eu não recomendo a você ir vê-la.

--Por que não? - Perguntei.

--Você tem que largar tudo pra trás - Disse o cão - Mudar todos os teus conceitos.

--Ou você faz isso, ou você fica louco! - Completou o gato.

--Humpf... Loucos são vocês, que ficam me falando essas abobrinhas!... - Retruquei, irritado.

--Não diga que não avisamos - Continuou o cão, indiferente.

Larguei os dois proseando e segui o meu caminho estrada afora. O asfalto tinha dado lugar à terra batida e, depois que uma camionete passou e levantou aquela poeira, de trás dela surge um gorila.

--Cara, cê tá mal - Disse ele - Por que não fala com a Kitty?

Vou abreviar a passagem, mas depois do gorila, foram mais uma raposa, um urso, um alce, uma cadela poodle, um castor, outro gato (desta vez, cinzento) uma ovelha e uma porca-espinho me falando dessa tal "Kitty", mas não me dizendo quem era ela ou onde ela morava.

Finalmente, ante uma bifurcação, onde um dos caminhos estava obstruído, eu vejo um velho, de uma espécie que eu nunca tinha visto antes.

--Você tem perguntas a fazer - Disse o velho - E eu posso dar todas as respostas, menos uma.

--Tá - Respondi, meio ressabiado, mas já acostumado com os birutas encontrados pelo caminho - Você me disse que pode responder a todas as perguntas menos uma. Então, me responda: Quem é "Kitty"?

--O nome dela é Kitty White - Disse o velho - Conheci ela pequenininha. Adorável, ela. Muito faladeira quando pequena.

--Como ela pode me ajudar a "mudar minha vida"?

--Converse com ela. Ela te dirá coisas sem falar.

--Como assim?

--Você descobrirá quando conversar com ela.

--E onde ela mora?

--Vê aquela bifurcação? - Aponta o velho - Há aquele caminho que está bloqueado. Ninguém vai lá, ninguém entra lá. Pois entre lá, siga a estrada, e verá uma vila abandonada. Procure a casa mais escura, e entre no canto mais escuro da casa. Kitty estará lá. E ela te dará mais respostas.

--Por que ela moraria em um lugar tão escuro?

--Essa... É a pergunta que eu não posso te responder.

Já estava cansado de tanto mistério acerca dessa tal "Kitty", e resolvi conversar com ela, mesmo que fosse uma defunta, ou uma alma penada. Também estava cansado da minha vidinha chata e, embora começasse a entardecer, também estava curioso demais pra ver essa tal Kitty White. Mesmo se ela fosse um fantasma, nada deteria o meu passo.

Deixei o velho estranho e fui até o caminho bloqueado. O curioso é que muitas placas afixadas naquele bloqueio tinham avisos de "perigo" e "não entre". Ignorando aquilo tudo, passei por uma fresta aberta por uma tábua mal-pregada. Transposto o bloqueio, parecia que eu tinha entrado em outro mundo. Árvores enormes e frondosas me tapavam os últimos raios de sol., espalhadas por toda parte, inclusive no meio da estrada.

Tudo era escuro, úmido e frio. Parecia que eu tinha entrado no reino de Osíris, o deus dos mortos. Após meia hora de caminhada, lá estava a vila. Uma única rua, umas doze casas, uma mais puída que a outra, mas todas ainda de pé. Postes de madeira podre indicavam que ali já teve luz elétrica, com aquelas luminárias de Mil Novecentos e Guaraná-com-rolha, que tinham um "prato" em cima da lâmpida, como falava minha vó.

O mato tomava conta de tudo. E, lá no finzinho da vila, uma casa de frente pra todas as outras. A mais escura de todas, inclusive porque estava pintada de preto. Conforme eu me aproximava, notava que aquilo não era uma casinha, mas uma igreja, dado a cruz com um braço faltando ainda de pé sobre a fachada. "Por que alguém pintaria uma igreja de preto?", pensei.

Entrei.

Era uma igrejinha muito rústica e pequenina, bancos compridos de madeira, já podres e cheios de musgo. O cheiro de terra úmida invadia minhas narinas, me dando calafrios. Tudo lá era escuro, mas como eu estava acostumado a fazer expedições em cavernas antes de trabalhar onde eu estava, meus olhos foram se habituando ao breu.

O púlpito e o altar da igreja estavam destruídos. "Se Kitty White mora aqui", pensei, "ela precisa de uma faxineira."

Fui pra trás do púlpito, intuindo que ela estivesse nos aposentos do padre. "Se ela anda melhorando a vida dos outros," pensei, "ela deve pensar estar em uma missão divina, daí querer morar numa igreja."

O aposento do padre era pequeno, e ainda mais escuro. Mas lá estava ela. Uma gata branca, magra, com um laço na cabeça, abraçada a um bichinho de pelúcia, cabisbaixa, encolhida num canto. Vestia um macacão verde, com uma camiseta listrada por baixo.

--Kitty White, eu presumo - Me fiz anunciar.

Ela levantou vagarosamente sua cabeça, o que me fez ver outro detalhe estranho: Ela tinha uma mordaça amarrada na boca.

Seus olhos, cheios de vida, me fuzilaram, com certeza estranhando a minha presença. Parecia perguntar quem era eu, e o que eu estava fazendo aqui.

--Er, meu nome é Jack McUmba. Minha vida tem sido uma bosta, ultimamente. E, de repente, me aparecem um monte de peludos me falando que você podia mudar minha vida - Disse eu a ela.

Ela soltou um longo suspiro, como se pedindo atenção. Levou as mãos ao coração, meneando a cabeça para os lados, parecendo expressar a minha dor e a minha angústia. Depois, ergueu a cabeça pra cima, como se estivesse olhando para Hórus, deus do Céu. Apontou para mim com a mão direita, e segurou-a com a esquerda.

E, por incrível que pareça, eu parecia entender. Ela estava me dizendo coisas sem falar. "Vai ver", pensei, "ela é muda".

Ela, nesse momento, interrompeu sua mímica. Me olhou com um olhar de surpresa. Levantou-se, veio até a mim, e acariciou de leve a minha face, com aqueles olhos cujas pupilas estavam totalmente dilatadas devido à escuridão. Sua mão era quente, então ela não era um defunto, nem um fantasma. Ela era um ser vivo, como todos nós. Mas por que ela estava aqui?

Como se adivinhando meu pensamento, ela foi até uma velha escrivaninha e, de uma gaveta, tirou uma vela e um isqueiro. Acendeu a vela com o isqueiro e ficou ali, "namorando" o fogo da vela a milímetros de seu focinho. Vez por outra, esquentava as mãos, colocando-as em concha perto do fogo da vela e, depois, passava as mãos aquecidas em sua cara.

Era como se ela se banhasse com o calor da vela.

Daí, eu fiz o ato que mudou a minha vida: Umas perguntas.

--Kitty - Perguntei - Você vive aqui há quanto tempo?

Ela fez o número 10 com as duas mãos, e depois o número 4, e pegou um pequeno calendário, passando a mão por ele todo:

14 anos.

--Por que você vive aqui nessa escuridão? - Continuei.

Ela apontou a vela, ainda acesa, e fez sinal de comer com a mão esquerda e massageou seu ventre com a direita:

Ela se alimentava de luz.

--E por que você não tira essa mordaça da boca?

Ela se retraiu. Olhou com vergonha para os lados. Pegou um quadro-negro e um giz, curiosamente novos. Desenhou o sol, uma flecha, sua cabeça (com laço e tudo), outra flecha e um caixão.

--Você tá me dizendo que, se você pegar sol, você morre? Por quê?

Ela fez sinal de "engorda" com as mãos se afastando do corpo e, depois, um gesto de explosão:

Se ela pegar a luz do sol, como ela se alimenta de luz, ela acabaria engordando, e inchando, até explodir!

--Mas e a mordaça? - Insisti.

Ela soltou um longo suspiro, meneou a cabeça, virou de costas e começou a desatar a mordaça. Depois que ela desatou a mordaça, ela se virou pra mim. Senti o arrepio da morte percorrer a minha espinha. O terror se apoderou de assalto do meu coração:

Ela não tinha boca! Por todos os deuses, ELA NÃO TINHA BOCA!!!

Saí correndo de lá, como se as legiões infernais de Set estivessem no meu encalço. Deixei a igrejinha, a vila, a floresta, o bloqueio, e só parei de correr ao dar de cara com a zona urbana. Ainda olhei para trás, pra ver se aquele terror desbocado não estava atrás de mim. Por sorte, não estava.

Era como se a boca dela tivesse sido "cimentada" com osso e ganho carne, pele e pêlos. Não se via dentes, língua, lábios, nada! Era tudo liso! Não à toa, ela se alimentava de luz! Daí, eu vi como os meus problemas eram insignificantes frente à situação dela, ficar sem boca e viver de luz. Ao menos, os meus problemas podiam ser solucionados!

E, foi exatamente isso que eu fiz.

Pedi demissão do meu trabalho. Mandei meu supervisor ir pra casa do Sr. Cara de Alho, joguei na cara dele tudo o que estava preso na minha garganta, e saí, feliz e contente, direto pra casa.

Em casa, pedi o divórcio. O que eu sentia por ela não era amor, era só dependência afetiva. Soltei as cobras e os lagartos, peguei umas mudas de roupa e fui embora.

Logo depois, passei num esteticista e descolori todos os meus pêlos. Pêlos claros absorvem menos calor, com isso, suo menos.

E, pra completar, saquei todas as minhas economias sem minha (ex-) esposa saber e comprei um ranchinho. Ali, na beira da estrada que leva praquele caminho bloqueado.

Agora sim, vivo uma vida feliz e tranqüila. Uma parte do meu rancho eu alugo para um criador de cavalos, e o dinheiro que recebo por mês fica todo comigo. Pesco em um lago, planto umas verduras, crio umas galinhas, vou pra cidade e curto minha independência uma vez por semana. De fato, Kitty mudou a minha vida!

Aliás, semana passada, encontrei um tipo urbano, todo nervoso, estressado, querendo explodir o mundo. Exatamente como eu estava havia dois anos atrás. Baseado na experiência própria, fui cumprimentá-lo:

--Boa tarde!

--Bah, o que tem de boa? - Respondeu.

--Tua vida deve estar um inferno, né?

--Nem me fale! Meu chefe me atormenta, minha esposa é uma víbora, minha sogra é outra, e ninguém me deixa em paz!

Não se preocupe, amigo - Eu disse - Se seguir adiante nessa estradinha, você vai encontrar alguém que pode mudar sua vida.

--Quem?

--Kitty!

FIM.

 


Não corte uma árvore no Inverno; pois sentirá falta dela no Verão.
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