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Histórias de Tabax - "Vencendo a Pobreza"
#1
Vencendo a pobreza
 
Peha Padu, pequena cidade do Noroeste de Araitsi. Araitsi é a nação onde fica a maioria dos roedores, que faz fronteira com Zomaron. Ao contrário de Zomaron, contudo, Araitsi é um país pouco desenvolvido, com altas taxas de natalidade e mortalidade, e densidade demográfica alta em suas cidades. Uma piada recorrente é de que um terço de toda a população de Tabax é Araitsiki, um exagero, apesar de ser o país mais populoso do Continente Ocidental, com seus 356 milhões de habitantes.

Voltemos a Peha Padu. Esta pequena cidade de vocação naturalmente agrícola é a terra natal de uma heroína do povo. De alguém que, contrariando os interesses dos oligarcas, resolveu disseminar o que havia aprendido para quem quisesse aprender, e isso acabou mudando a história não só de Peha Padu, mas também de Araitsi e de todo o Continente Ocidental, pode-se dizer.


Seu nome: Sineya Nezmi.


Camundonga pequena, miúda, devido à subnutrição, a décima-quarta de 15 crianças, em uma família onde os mais velhos se alimentam primeiro, logo depois dos pais. Sua irmã caçula, Zanuya, não resistiu às condições severas desse ambiente hostil e foi descansar nos braços d’O Grande.


Nunca teve muita força, e sempre era abusada pelas valentonas (E até pelos valentões) da escola que frequentava, a contragosto dos pais. Seu sonho era ser médica, para evitar que outros filhotes tivessem o mesmo destino de Zanuya. “Sonho besta!”, dizia seu pai. “Os Nezmi sempre trabalharam na roça, por que você quer se rebelar contra teu destino?”, perguntava sua mãe. Seus irmãos e irmãs mais velhos, vez por outra, rasgavam seus cadernos e destruíam seu material escolar, pois ela era a única que sabia ler e escrever.


Sua fraqueza e os abusos que sofria não eram obstáculo, tampouco a distância que sua casa ficava da escola. “Sou fraca demais para trabalhar na roça, preciso estudar e me formar em um trabalho que eu não precise fazer força”, argumentava.


Todavia, isso não seria possível se não fosse a ajuda de um estrangeiro. Dobon Kariun era um comerciante de Zomaron que tinha um pequeno comércio nas cidades da região. Entre outras coisas, vendia material escolar para as escolas. Toda vez que Sineya aparecia com seus cadernos rasgados e material destruído, o velho Dobon se apiedava e doava material novinho para Sineya continuar estudando.


Um dia, Dobon recebeu como pagamento uma thankittao, algo parecido com uma bicicleta. Como já era ciente da enorme distância que Sineya percorria, resolveu doá-la para a pequena camundonga, que voltou feliz, pedalando o aparato até em casa.


No dia seguinte, voltava a pé, novamente. Seu pai havia desconfiado que ela teria roubado a thankittao, confiscado, e junto com a mãe e os irmãos que estavam em casa, enchido-a de surras. A pequena camundonga não conseguia conter as lágrimas. Dobon foi pessoalmente até a casa dela e explicou que havia doado o aparato para que ela pudesse ir mais rapidamente à escola, e pediu para que devolvesse a thankittao para Sineya.


“Já vendi”, foi a resposta de Rooin, pai de Sineya. A indignação foi demais para ele. Resolveu fazer o impensável.


“A thankittao era minha, eu dei de presente para Sineya. Por vender algo que não era teu, vou levar Sineya comigo.”, disse.


“Pois leve! Ela é uma inútil, poderia ter morrido como a mais nova”, respondeu Rooin.


Dobon voltou para sua casa, com a pequena Sineya abraçada a ele, que chorou até secarem suas lágrimas. O dia seguinte seria totalmente diferente.


Sineya passou a morar na casa de Dobon, fazendo serviços domésticos em seu tempo livre e aprendendo o ofício de vendedora. Era uma realidade totalmente nova, parecia que o Grande estava compensando-a pelo sofrimento de tantos anos seguidos. Conforme foi se alimentando melhor, tornou-se mais bem-nutrida, e sua beleza ooza começou a despertar olhares com os quais ela não estava acostumada. Dobon ria das coisas que Sineya lhe contava com toda a inocência de Tabax.


Mas, nem tudo o que é bom dura muito tempo. Foi quando Dobon foi ao banco depositar dinheiro, deixando Sineya sozinha em uma loja, já que os dois funcionários tinham ido almoçar, dois meliantes assaltaram a loja, saqueando-a por completo e espancando a pequena camundonga.


Sineya acordou no Centro de Manutenção da Vida, sob o olhar vigilante de Dobon. Irritado, pois odeia ficar no prejuízo, não disse nada. Não poderia descontar na coitada, que estava sozinha contra dois assaltantes. Mas não poderia deixa-la mais tomando conta da loja, e mantê-la como empregada doméstica despertaria muitas suspeitas em sua esposa, Nejitta.


Foi quando alguém falou de um curso de defesa pessoal. Um tal de Jujits Greis,super-eficiente em defesa pessoal, trazido por uma nova raça, vinda de um mundo conectado a esse: Os suywan.


Como seria a primeira ooza a aprender esse estilo de combate, o mestre Radamés Gracie concordou em ensiná-la de graça, para poder detectar diferenças vitais entre o corpo dos ooza e o corpo dos suywan.


Comendo e dormindo na academia, Sineya, com o treinamento rigoroso, aprendeu um novo significado da palavra “Dor”. Não foram poucas vezes os membros deslocados, torções e luxações, e as orelhas frágeis ficaram com um aspecto horrível. Mas, a raiva, dedicação e determinação que cresciam dentro de Sineya fizeram-na persistir. Treinando de dia, estudando de noite, em menos de cinco anos ela havia alcançado a faixa preta, ou seja, a graduação no Jiu-Jitsu Gracie, como se escrevia corretamente.


Sua confiança era tamanha que ela derrotava agressores maiores e visivelmente mais fortes que ela. Resolveu continuar a graduação, e testar suas habilidades em torneios de combate. Mas ela queria mais. Queria mostrar que finalmente era digna de orgulho não só para a família, mas também, para a comunidade de Peha Padu. E nada melhor pra mostrar isso do que o XXV Torneio de lutas de Ahan-Kahabo.


Seu próprio mestre foi contra, baseado no que ele havia visto em torneios anteriores, em especial, a máquina de moer carne chamada Hisarto Nabre. O próprio Radamés tinha sido praticamente triturado na semifinal na 19ª edição do Torneio, por Hisarto Nabre em pessoa. Naquele tempo, ainda não sabiam que ele era um suywan, pois o conhecimento sobre a raça da Terra ainda não era difundido. Mas nada abalava a confiança de Sineya. Ela entrou nas pré-seletivas de Araitsi, e conquistou o primeiro lugar na categoria Absoluto, superando adversários maiores e mais fortes.


Um cinturão de campeã, segundo ela, faria com que ela fosse respeitada por aqueles que há tempos atrás abusavam dela, e também seria uma forma de gratidão aos poucos que a ajudaram. Assim, ela foi, com ajuda de Dobon, para a cidade de Ahan-Kahabo, em Gnuratsaronshikushadhiey.


O torneio provou mostrar a realidade da forma menos gentil possível. Sua primeira luta foi contra a salamandra Balaï Slamno, de Guwi, o país pantanoso.


Esta primeira luta foi até fácil:
Balaï usava de toxinas naturais da pele e golpes de cauda para tentar subjugar a rata, mas ciente do perigo, Sineya desequilibrou a salamandra durante um ataque, e venceu-a no quarto round, com uma chave específica de Jiu-Jitsu Gracie.

A luta seguinte seria cômica, pra não dizer vergonhosa. Contra o carcajú Sharah Mannu, nascido em Gnurat, mas residente na ilha de Itiarasa, também adepto do Jiu-Jitsu, mas usando uma variedade particular.


A jovem camundonga fitou os olhos no velho carcajú, pesquisando um ponto fraco.Seu kimono, meio folgado, fazia o velho Sharah fitar seus olhos em Sineya, mas não com as mesmas intenções. Levantando uma sobrancelha, armou sua pôse de luta.

A camundonga tentou levar a luta para o chão, derrubando Sharah. E tome chave de braço, chave de perna, triângulo, triângulo invertido, montada... Até que Sineya notou algo diferente no carcajú: Seu nariz estava sangrando. E o velho estava sorrindo. Olhou para si mesma, e notou que seu kimono estava folgado DEMAIS, permitindo ver tudo por baixo dele! E Sineya não usava nada por baixo do kimono...

(Sineya)—TARADO!!!

E sob os gritos de "Tarado", "Pervertido" e outras coisas impublicáveis, Sineya encheu a cara do velho de sopapos.

(Sharah)—Não pára! Ai! Não Pára! Ui! Mais forte! Ai! Vem com o vovô! Ai!

O carcajú foi jogado pra fora da arena, na cena mais engraçada do Torneio de Artes de Combate de todos os tempos. Sineya foi para a próxima fase, e Sharah foi curtir uma noite na jaula do 2º Departamento Corretivo de Ahan-Kahabo, por atentado ao pudor.


Uma dos discípulos de Mannu recomendou a Sineya comprar roupas de ginástica para a próxima luta, uma vez que quase nenhum lutador usava roupas que permitiam luta como em competições oficiais. Aproveitou para xingar um pouco o mestre tarado e parabeniza-la pela luta. Sineya comprou um conjunto azul, simples, com o pouco de dinheiro que Dobon tinha lhe dado, restando pouco para comer. Mas, pelo menos, ninguém veria os “detalhes” de seu corpo.


A realidade se mostrou na Terceira Fase, contra Maranno Selkor, nascido em Rippata e residente em Gnurat. A jovem camundonga se sentia perdida frente à massa de músculos condicionados do garanhão que estava à sua frente. Mas, tinha que fazer seu serviço. Com a roupagem nova, que não ficava tão folgada, ela encarou seu adversário ao cumprimentá-lo. Soa o gongo, e Sineya já começa usando um dos golpes de Maranno contra ele próprio, para derrubá-lo e tentar um arm-lock logo de cara. Maranno levanta, com Sineya e tudo, seu braço forte sustentando a camundonga que ainda tentava fazer seu arm-lock, sem se dar conta de que era uma luta perdida.

(Maranno)—Daqui, tenho uma bela visão...

(Sineya)—AAAH, MAS SÓ LUTO COM TARADOS?!?

Um, dois, três chutes na cara do garanhão, e ele perde a concentração, caindo de joelhos. Sineya tenta um triângulo, e Maranno começa a se sentir incomodado com o jiu-jitsu da roedora.

(Maranno)—Mil perdões.

Contraindo o braço com força, seu punho atinge Sineya que, atordoada, solta o braço. Maranno pega a roedora e a joga pra fora da arena. Vitória de Maranno.


Fim do torneio para Sineya. Mas, como rege o protocolo, teve que ficar para assistir a Final, em uma tribuna de honra que reúne os outros 30 lutadores vencidos. De lá, ela viu a selvageria de Hisarto Nabre contra Kramsun Madyor e, assim como os outros, notou que algo estava errado naquela luta. Kramsun queria pedir ajuda, mas Hisarto parecia não permitir que Kramsun fizesse isso.


Valliani Hajanra, uma leoa, que venceu Kramsun, mas foi desclassificada por ter se valido de um golpe ilegal, comenta.


(Valliani)—Agora eu sei por que o lobo tinha tanto medo dele... Mas o engraçado era que, contra o outro cavalo, ele lutou tão bravamente!...


O outro cavalo em questão, foi quem venceu Sineya na Terceira Fase do torneio, Maranno Selkor.


(Maranno)—Ele transformou o medo em fúria... Agora, que a fúria acabou, só sobrou o medo...


Subitamente, Sineya ouve o bater do gongo. Após o lobo finalmente ter conseguido clamar ajuda, alguém iria ajuda-lo. Se surpreende ao ver uma égua em um vestido azul passando pela Tribuna de Honra. Resolveu ajuda-la com uma dica.


(Sineya)—A fúria dele não tem freios. Pode ser direcionada para onde você quiser.


A luta teve um desfecho inesperado, com a vitória da égua que, Maranno diria na Tribuna, era irmã do Hisarto Nabre e namorada do lobo que estava sendo massacrado.


(Sineya)—Se eu quiser vencer um tipo daqueles, terei que usar mais do que apenas o Jiu-Jitsu pode me oferecer.


E ela foi até a Terra, origem do Jiu-Jitsu. E descobriu uma variante de Jiu-Jitsu usada em competições, chamada Judo, mas que tinha umas técnicas proibidas, ensinadas apenas aos mestres mais graduados.


O japonês não foi um idioma fácil de aprender, mesmo com os discos de aprendizado subconsciente, pois ainda havia a barreira da escrita. Dois silabários, um sistema de ideogramas e o alfabeto suywan tradicional se misturavam em uma espécie de caos harmônico.


Não foi nada fácil chegar ao Kodokan, Sineya teve que lutar contra outras pessoas por dinheiro, tirar fotos (O Japão é um dos poucos países que não tinham conexão com Tabax, então um ooza por lá era atração turística!), se esquivar de assédio de pessoas que prometiam mundos e fundos. Camelou de Hokkaido a Okinawa, até achar uma antiga escola que herdou as técnicas antigas secretas do Tenjin Shin'yō-ryū, Yōshin-ryū jūjutsu, Yagyu Shingan-ryū Taijutsu e Kitō-ryū Jūdō, com a promessa de não ensinar tais técnicas a mais ninguém.


Mais cinco anos de penúria, sem contato com Tabax, apenas lições duras, dor extrema e a volta da magreza. Apesar de camundongos serem onívoros, a dieta japonesa não caiu bem em Sineya. Seu retorno a Tabax aconteceu dois dias antes do Dia da Paz, e logo depois de se restabelecer, Sineya Nezmi se inscreveu para o XXXI Torneio de Artes-de-Combate de Ahan-Kahabo. Seu corpo estava mais rígido, ela chegava a sentir suas fibras musculares trabalhando. Cinco anos mais velha, e muitos calos mais experiente, ela derrotou facilmente seus oponentes na pré-seletiva.


Mas, na hora das chaves, decepção: Hisarto Nabre não estava lá. Tinha abandonado a carreira de lutador depois da derrota humilhante imposta por Menara Nabre, sua irmã, e se dedicado ao ofício de professor, e fazendo estágio de Agente da Força Corretiva.


Com Hisarto, ou sem Hisarto, seu destino estava em jogo.


A primeira luta foi contra uma velha conhecida: Balaï Slamno, a salamandra, ainda mais rápida e ainda mais venenosa. Balaì estava preparada para evitar os erros da luta de seis edições passadas, mas ela estava preparada contra aquela Sineya, não esta Sineya. Resultado, uma dolorida chave de ombro e Balaï pediu pinico.


A segunda luta fez Sineya se lembrar de usar as roupas de ginástica por baixo do kimono. Se ela vencesse a luta de agora, correria o risco de ver OUTRO velho conhecido...


Seu adversário agora era um guepardo, conhecido por seus golpes rápidos em áreas sensíveis do corpo. Hija Foyi é um quiropraxista, e queria mostrar que uma técnica usada pra curar também pode ser usada pra ferir. No soar do gongo, Sineya tentou, sem sucesso, se aproximar do guepardo, pois precisava evitar os golpes de quiropraxia. Então, fez um rolamento – Golpe comum no judô – que levou a camundonga a encontrar uma brecha. Antes que se pensasse, o guepardo estava inconsciente no chão.


Entre a segunda e a terceira luta, ela encontrou Dobon Kariun. A princípio, o coelho, já mostrando sinais da idade, se alegrou em ver Sineya mais forte e alegre, mas quando ela perguntou sobre sua família, adquiriu um tom soturno, e rapidamente mudou o assunto.

A terceira luta tem início, novamente um velho conhecido – Esse, BEM velho. E infelizmente, BEM conhecido. Sharah Mannu, o carcajú. Para provocar a ira do velho, Sineya abriu o kimono e mostrou a roupa de ginástica por baixo.

(Sharah)—Você é cruel, garotinha... O que acha de uma aposta? Se eu te vencer, teu corpo será meu!


(Sineya)—Ora, seu... Tarado! E se EU vencer?


(Sharah)—Meu corpo será teu!


(Sineya)—Eu não quero nada com você, muito menos com esse teu corpo decadente! Prepare-se para a dor!


(Sharah)—Vem com tudo, que o vovô aceita!


Ao ressoar do gongo, Sharah e Sineya se engalfinham na luta de solo. Sharah havia aprendido técnicas ocidentais de submissão, e poderia decidir a luta naquele instante. Mas o agarra-agarra com a roedora estava tão gostoso que ele tentou prolongar a luta de solo ao máximo, aproveitando-se para se esfregar o quanto podia nela.


Lógico que ela iria perceber.


(Sineya)—Seu... Seu... TARAAAADOOOO!!!


Uns três golpes proibidos (No Judô, não no torneio) fizeram a camundonga praticamente “dar um nó” no velho mulherengo. Incapacitado de lutar, teve que pedir pinico.


Ao fim da luta, Sineya Nezmi estava nas Semifinais e Sharah Mannu, algemado de novo, devido às câmeras flagrarem o carcajú se esfregando e bolinando a rata durante a luta (Tudo mostrado num telão em replays). Risadas e palmas encheram o ginásio. Mas, antes de ir pra cadeia, Sharah reconheceu a superioridade técnica de Sineya e lhe deu um pergaminho de seu estilo de luta, como reconhecimento. Os alunos que o acompanhavam fizeram reverência e saudaram a camundonga, reconhecendo-a como mestra.


A luta Semifinal era uma revelação, e praticamente o legado de uma lenda. Nada menos de Behkrum Sekh, filho do lendário Ahkrum Sekh, fundador do torneio e pentacampeão invicto. Behkrum havia entrado pela primeira vez, e suas vitórias até então tinham sido rápidas e fulminantes. Com certeza, muitos apostaram nele para ser o campeão.


Mas, pouco antes da luta, alguém chamou a camundonga para um canto. Um felino, de raça não definida, olhos heterocrômicos, vestes alinhadas e uma maleta na mão. Se apresentou como Molyah Maun, e foi direto.


(Molyah)—Você é Sineya Nezmi, certo?


(Sineya)—Certo.


(Molyah)—Você sabe quem é seu adversário agora, não sabe?


(Sineya)—Behkrum Sekh, filho do lendário Ahkrum.


(Molyah)—Exato. Sabe, meu cliente tem um interesse especial nesse cara, e em seus resultados como lutador. Ele vai te vencer rapidamente, mas por que arriscar, não? O que acha de evitar maiores feridas e entregar o jogo?


(Sineya)—HÃ?!?


Molyah abre a maleta.
Centenas de milhares de Rayts. Dinheiro que Sineya nunca tinha visto na vida.

(Molyah)—Serão teus, se você perder a luta pra ele. De preferência, rapidamente. Basta deixá-lo te atingir, e ficar no chão até o anúncio do vencedor.


(Sineya)—PERAÍ... Os outros que perderam pra ele... Também?


(Molyah)—Ah, sim! Meu cliente é muito generoso. Você pode mudar tua vida com isto aqui, garota. É bem melhor que a mirrada premiação dada ao campeão. Ouvi dizer que você mora em uma cidade pobre de Araitsi, né? Imagine o que você poderia fazer por eles... Então, o que acha?


(Sineya)—Eu acho... Que Behkrum não é tão durão assim. Pra precisar que você suborne lutadores para perderem pra ele... Se ele pode me vencer, vamos ver isso lá na arena. Guarde esses Rayts, você vai precisar deles mais do que eu... Se eu vencê-lo.


(Molyah)—Ora, sua... Guinchadora! Você está jogando fora uma oportunidade de ouro!


Sineya voltou para seu caminho, ignorando as pragas rogadas por Molyah. Aprontou-se e subiu à arena. Behkrum, uma montanha de músculos e ferocidade que deixaria ressabiado até mesmo Hisarto Nabre, fitava os olhos na camundonga. Olhos de predador.


Os anos de treinamento na Terra dos suywan fizeram com que ela fosse capaz de perceber até mesmo como os músculos se moviam, não só os dela, mas também os dos adversários. Behkrum é rápido, costuma atacar antes de o gongo terminar de ser tocado. A vantagem da surpresa. Ela sentiu, na hora dos cumprimentos, os músculos das pernas de Behkrum já se contraindo para um salto. Tão logo bateu o gongo, nos primeiros décimos de segundo, Sineya se jogou para o chão, evitando um golpe certeiro de Behkrum. O leão se apoiou nas mãos e rolou rapidamente, enquanto que Sineya fazia o mesmo. Behkrum começou sua sessão de golpes que só atingiam o vento, à medida que Sineya se afastava.


O resultado foi mais que previsível: Behkrum se jogou por cima de Sineya que, por sua vez, apoiou um pé no abdome do leão, rolou pra trás e o jogou para fora da arena. Derrota humilhante para o orgulhoso filho de Ahkrum, que caiu de mau jeito e deslocou o ombro, precisando de assistência médica.


(Sineya)—Mil perdões...


As bancas de apostas entraram em polvorosa, ao saber que Behkrum foi derrotado. Muitos tinham apostado alto, e começaram a acusar a organização de que a luta havia sido comprada para as bancas ficarem com o dinheiro. Indiferente a isso, o braço de Sineya era erguido, dando a vitória oficial. Sineya Nezmi estava na Grande Final.


Apesar de os ratos serem onívoros, havia apoio em massa dos herbívoros torcendo para Sineya, principalmente depois de ela ter derrotado Behkrum, o filho de Ahkrum Sekh, tão facilmente.


No decorrer daquele dia, Sineya notou algumas atividades suspeitas em seu alojamento: Coisas que não estavam lá antes, cartas com envelopes polvilhados de um pó estranho, comidas e bebidas não solicitadas. A organização foi tornada ciente do fato e, após analisar os “regalos” ali deixados, descobriu-se que muitos tinham substâncias perigosas, incluindo drogas anestésicas e venenos. Sineya foi levada para outro alojamento, nas dependências da organização, enquanto uma investigação era feita por debaixo dos panos, com ajuda da Haijmazoo.


O dia seguinte estava carregado. Muitos ooza vestidos de preto, e muitos agentes da Força Corretiva de Ahan-Kahabo, se misturavam entre os espectadores. O adversário final de Sineya Nezmi não era outro senão o próprio Molyah Maun. Seu olhar continha desprezo e fúria. Não disse uma palavra, desde o anúncio até a hora de cumprimentar o juiz.


A arena estava diferente, como na outra final, que ela só assistiu da tribuna. Um cercado de alambrado impediria manobras de arremesso ou desequilíbrio, obrigando os lutadores a confiarem em suas técnicas de luta, somente.


Soou o gongo. Molyah não assume uma forma-base de luta, fica de pé, encarando a camundonga como se ela fizesse parte da paisagem. Subitamente, Sineya sente um golpe forte na altura do rim direito. Garras. Molyah está atrás dela como se sempre estivesse lá.


Sineya está confusa, não consegue ler as fibras do corpo de Molyah, como fazia com os outros adversários. Não consegue ler seus movimentos, e começa a ser duramente punida por isso, levando mais dois golpes.


(Molyah)—Você teve sua chance, roedora... Ou você não sabia que é sempre o gato que pega o rato?


Sineya não consegue vê-lo, nem ouvir seus movimentos. Quando pensa que não, levou mais golpes de garra e chutes. Seu kimono está arruinado, a vestimenta por baixo dele começa a apresentar rasgos. É como se Molyah Maun estivesse em todos os lugares ao mesmo tempo! Não tendo muito tempo para pensar, Sineya se encosta em um dos cantos do octógono, ciente de que não seria mais atacada pelas costas com essa manobra de segurança. Filetes de sangue descem pelo seu corpo.


Ela não estava enfrentando um adversário normal. Seus olhos se fecham parcialmente, quando ela vê um vulto. Usa de toda sua rapidez restante para agarrá-lo e vê que o olho esquerdo dele, que era azul, brilhava com uma cor avermelhada. Não hesitou, e meteu-lhe um soco bem no meio desse olho.


Agora, ela podia ver e ouvir seus movimentos! Usando todas as suas técnicas de judô aprendidas com os suywan, ela finalizou com uma torção que precisou de intervenção do juiz, porque Molyah não queria pedir pinico, e se o movimento continuasse, o braço de Molyah seria quebrado em três partes.


Subitamente, a Haijmazoo interveio, seguida de uma confusão nas arquibancadas. Molyah Maun foi preso, acusado de usar recurso ilegal na luta. Vários ooza foram presos nas arquibancadas, todos segurando uma espécie de cristal, que brilhava conforme o olho de Molyah brilhava também, e isso entorpecia a percepção sensorial de Sineya, por isso ela não percebia ele se movimentando.


Molyah Maun é um ser conhecido na terra dos suywan como Bakeneko, ou gato-fantasma. Um felino que possui poderes misteriosos, por exemplo, o de provocar ilusões ou ocultar sua presença. Vindo provavelmente de um dos Territórios Desconhecidos de Tabax, onde habitam civilizações compostas por espécies ainda não-catalogadas. Molyah não tinha se inscrito como Bakeneko, mas como um Möw comum, e isso constitui falsidade ideológica.


Não demorou muito para ligarem Molyah às tentativas de envenenamento contra Sineya e aos subornos dados aos outros lutadores. Não se sabia os reais planos de Molyah, o porquê de querer que Behkrum fosse para a Grande Final, nem se ele tinha mesmo um cliente ou se era uma fachada.


No final das contas, Sineya Nezmi ficou com o título de Grande Campeã do XXXI Torneio de Artes-de-Combate de Ahan-Kahabo! O cinturão cingiu seu corpo e o troféu fez um peso considerável nas mãos da rata que, apesar de ter sofrido tanto, ainda agüentava o peso.


Uma semana depois, estava de volta a Peha Padu, depois de ter desfilado praticamente por todas as grandes cidades de Araitsi, como a campeã orgulho de uma nação humilde. Seu primeiro ato, correr à sua velha casa, onde moram seus pais e irmãos, para mostrar sua conquista.


Encontrou a casa vazia, e uma notícia terrível: Havia dois anos atrás, Rooin Nezmi havia surtado e, de posse de uma faca, matado sua mulher e todos seus filhos. Rooin já não estava bem da cabeça, e de vez em quando tinha uns surtos noturnos, mas sempre era contido por um dos irmãos de Sineya, que tinham sono leve. Mas, naquele dia, o trabalho tinha sido puxado, e todos estavam muito cansados. Curiosamente, Rooin tinha passado o dia inteiro fora, pra resolver “assuntos dele”.


Por uma semana, Sineya chorou, abraçada à cama de sua mãe, cinturão de campeã e troféu jogados num canto daquela choupana abandonada. Só resolveu sair de lá quando as lágrimas estavam já ressecadas. Resolveu trancar a casa, deixando lá seus ganhos. Um kimono preto e uma mochila, foi tudo que Sineya Nezmi levou.


Por onde passava, perguntava de um rato chamado Rooin Nezmi. Pouco a pouco, sua investigação rendia frutos, até porque ela era famosa, e a informação corria de boca a boca, mais rápido que fogo na mata seca.


Foi na cidade portuária de Ijagar que ela descobriu onde estava seu pai. Ele estava em um cortiço velho, vivendo de restos, seu quarto fedendo a urina e fezes, que estavam espalhadas pelo chão. Sentado numa cadeira, olhando para o mar, em noite de lua cheia, lá estava Rooin, suspirando e chorando.


(Rooin)—Abaya... (Chuif) Abaya... Me perdoa…


Era tocante, e ao mesmo tempo repulsivo, o modo como Rooin pronunciava o nome de sua esposa e mãe de Sineya.


(Sineya)—Pai.


Rooin, que não tinha prestado atenção até então, olha vagarosamente para o lado da porta. Sineya Nezmi, trajando seu kimono negro, calçando uma espécie de jika-tabi da mesma cor, e usando luvas igualmente negras, aproximava-se calmamente dele.


(Rooin)—Filha?... S-Sineya?...


O corpo de Rooin começa a tremer. Imediatamente, ele ataca, sendo facilmente imobilizado por Sineya.


(Sineya)—Só vim te agradecer por você ter me ajudado a me tornar o que sou hoje... Uma pena que a mãe e os irmãos não estão mais aqui, né?...


(Rooin)—Filha... Me perdoa... Eu não sei o que estou fazendo... Pelo Grande, me perdoa!!! Eu não devia... (Chuif) Não devia ter feito nada daquilo!... PELO AMOR DO GRANDE, ME PERDOAAAA !!!


(Sineya)—Não se preocupe, pai, eu já te perdoei...


(Rooin)—O... O-obrigado, filha... Ouvi falar por aí, que você é o orgulho de Araitsi... Podemos começar uma vida nova... Eu... Eu juro que largo da bebida...


(Sineya)—Tudo o que você quiser, meu pai... Mas alguém quer conversar com você primeiro...


(Rooin)—Alguém?... Quem seria?...


(Sineya)—Uma tal de Abaya, conhece?


(Rooin)—Abaya?... T-tua mãe?... Mas... Mas ela está morta!...


(Sineya)—Eu sei...


--SNAP-CROK!


(Sineya)—(Chuif) E agora... Você, também...


O corpo morto de Rooin é colocado no chão frio de contrapiso, enquanto Sineya afasta quaisquer objetos inflamáveis de perto. Da mochila, tira uma garrafa de ahangs’a – Uma bebida destilada forte, típica de Araitsi – e espalha metade do conteúdo sobre o corpo. Logo depois, tira seu kimono negro, luvas e jika-tabi­ e os coloca por cima do ser que um dia foi seu pai, agora um saco de ossos com o pescoço quebrado. Depois de ter se vestido com uma roupa mais discreta, joga o resto da bebida por cima de tudo, jogando a garrafa por último. Acende um fósforo,joga sobre tudo, transformando Rooin em uma pira ardente. Joga também a caixa de fósforos, e vai embora, ciente de que ninguém vai notar nada nos próximos dias.


No dia seguinte, estava de volta a Peha Padu. Os filhotes gastando tempo à toa na rua, segundo Sineya, acabariam se tornando o que o pai dela se tornou. Resolveu, em colaboração com a prefeitura, dar aulas de judô gratuitas para os filhotes carentes de Peha Padu.


Dez anos se passam. Sineya Nezmi, casada e com dois filhotes, gerencia um torneio de lutas que está fazendo frente ao conhecido Torneio de Ahan-Kahabo, que por sua vez, começa a entrar em decadência devido a denúncias de “lutas casadas”. O Torneio de Combate Suave de Peha Padu é referência mundial, atraindo lutadores de solo de toda Tabax e também da Terra.


Os filhotes pobres que aprenderam judô com a campeã do XXXI Torneio de Ahan-Kahabo agora eram os lutadores a serem vencidos no Torneio de Peha Padu, que acabou crescendo e prosperando por se tornar referência em lutas no Continente Ocidental. E não era nada fácil vencê-los, ainda que eles não tenham aprendido nenhuma das Técnicas Antigas Secretas que Sineya aprendeu na Terra.


Araitsi, outrora país pobre e essencialmente agrícola, agora era a “Nação do Combate Suave”, atraindo investimentos de países vizinhos, principalmente Zomaron e Rippata. Tudo graças à perseverança e força de vontade de uma jovem que precisava se defender.


E que, agora, passaria seus conhecimentos a outra camundonga, que Sineya notou ser vítima de agressões constantes. Fazhiya Tempow, a menor de 12 irmãos, cuja família vive da lavoura e é iletrada de quase tudo.


Sineya dará a Fazhiya a mesma oportunidade que recebeu do agora falecido Dobon Kariun. E torce para que, um dia, Fazhiya faça mais por Peha Padu e por Araitsi do que ela mesma havia feito.


FIM.

 
 


Não corte uma árvore no Inverno; pois sentirá falta dela no Verão.
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