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Histórias de Tabax - "Não Estranhe"
#1
Citação:Este foi o primeiro conto que eu publiquei no FurryBrasil. Só os mais veteranos vão se lembrar dele.
Não Estranhe
(Conexão com Fur And Skin)
 
 
Quando ela veio trabalhar aqui, o conselho dado a todos os funcionários foi o mesmo: Não estranhe. Não estranhe seu nome, não estranhe sua aparência, não estranhe seu jeito de falar, não estranhe suas roupas. Quem se oferecer a escovar seu pêlo, aparar sua crina ou lustrar seus cascos vai levar advertência, e ai do engraçadinho que lhe oferecer capim!
 
Era uma das primeiras tabaxi a trabalhar num escritório de um jornal da Terra. Seu nome era Epona Kabro, e sua função, operadora de diagramação. Visualmente, seria uma égua, mas afirmar isso seria como dizer que, visualmente, nós somos algum tipo de macaco. Afinal, os Ooza, como se referem a si mesmos, não são simplesmente “meio-bicho, meio-gente”: São evoluções que ocorreram paralelamente à nossa própria, em um planeta que eles chamam de Tabax. São cerca de 4200 raças, em um planeta de dois bilhões de caras-de-bicho, que evoluíram ao longo dos milênios em conjunto. E aqui, tem gente se matando pra defender a tese de que a Humanidade veio (ou não) do macaco.
 
Mas, no começo, foi difícil não bajular a única true furry do jornal, que veio para Araçatuba, direto de São Paulo, oriunda de uma tal de Napigai (Seria um nome de cidade?), com os pais e o irmão mais novo. Epona sempre trazia consigo um embutido de carne de soja, “pra dar sustança”, mas de vez em quando alguém dava pra ela experimentar um salgadinho Elma Chips, um sanduíche (de alface, tomate e queijo), ou um pouco de arroz-feijão. Acabou dando trabalho dobrado pra faxineira, pois estava na fase de troca de pêlos. Falando em pêlos, ela tinha pêlos marrom-claros, cascos negros – Ela se dizia a única mairithan da família, embora eu não soubesse o que isso queria dizer – crina comprida, cauda fartamente peluda...
 
Aliás, nunca que eu fosse achar uma cauda atraente, não era muito fã de cavalos. Por mais que o chefe dissesse para eu não estranhar, era estranho eu ouvi-la bufando entre uma e outra frase. Ela só usava o telefone no viva-voz pois sua cabeça era deveras comprida demais para o fone. Roupas de trabalho ficavam estranhas nela. Sem falar que ela era a única que não bebia café. Quando ela experimentou uma xícara, uma vez, seu estado se alterou: Ela ficou impossível e, por causa disso, o Borges levou uma bela bronca do chefe.
 
Um dia, eu a acompanhei até sua casa. Ela sempre voltava de ônibus, mas resolveu querer conhecer a cidade andando a pé. Já eu queria saber mais a respeito dos Ooza, pra quem sabe fazer uma matéria pro jornal. No calçadão, ela virou atração: Tinha gente que achava que era fantasia, alguém usando “roupa de cavalo”, e tocavam nela, e mexiam nela. Todavia, apesar do assédio, Epona deixava que a tocassem, afinal, quem não gosta de se sentir uma celebridade? Depois de todo aquele assédio, resolvi dar-lhe umas dicas pelo caminho:
 
“—Epona, passar a mão na bunda não é cumprimento na Terra. Você não devia deixar que te bolinassem daquele jeito, aqui tem muito tarado!”
 
“—Pensei que eles tivessem medo de mim, devido à minha aparência...”
 
“—Esse povo é caipira, Epona. Pra eles, você é uma mulher-égua. E o que alguns fazem com as éguas daqui é impronunciável!”
 
Na casa de Epona, notei que os pés de seus pais e de seu irmão eram mais parecidos com pés, apesar da nesga de cascos que ainda ornavam as pontas. Tanto que Zauro, Inara e Resiarto usavam calçados pra sair de casa. Daí, aprendi que mairithan é um termo usado para quem tem os pés mais parecidos com os dos cavalos, caso de Epona. E, quem tem os pés como os dos pais e do irmão dela é chamado de karothan.
 
A alimentação dos Kabro é, lógico, quase puramente vegetal. Como feno, aveia e alfafa não são muito fáceis de se achar em Araçatuba, apelou-se para arroz, verduras e até mesmo o capim colonião. Zauro planta as verduras e o colonião nos fundos de casa, e Inara é quem prepara a comida.
 
Outro dia, Epona foi conhecer minha casa. Mas como eu só tinha embutidos de carne em casa, precisei ligar para uma pizzaria e pedir uma pizza vegan.
 
Duas semanas de acompanhar Epona até a casa dela já foram suficientes para especulação:
 
“—Tá catando a potranca, Teodoro?”
 
“—Hein?”
 
Ah... Teodoro é o meu nome. E sociedade Macho Idiota Rock é assim: Homens não são amigos de mulheres sem que role uma segunda intenção. Não importa a espécie. Ultimamente, relacionamentos de Humanos com Ooza estão na moda. Muitos roqueiros, artistas e outros pancadas da cabeça já andaram trocando carinhos com peludos de ambos os sexos. Pelo visto, já andaram pensando que eu estaria de casinho com Epona.
 
“—Não, eu e a Epona somos apenas amigos!”
 
“—Tu tá marcando, Téo! Ela tem mó pinta de fácil!
 
“Será?”, pensei. Não... Uma coisa é uma fêmea Ooza desconhecer a “etiqueta” da sociedade Humana. Confundir isso com promiscuidade é doentio. Se bem que, um dia, na casa de Epona, ela me veio com duas escovas e uma pergunta um tanto estranha:
 
“—Me coça?
 
“Não estranhe”, foi o pensamento que me veio à cabeça. Vai ver, é hábito dos Heïn – Como os Ooza equinos chamam sua própria raça. É normal você passar uma escova em um cavalo e ele te mordiscar em troca, mas pelo visto – E graças a Deus! – Ela também usa uma escova.
 
Fiquei meio sem jeito pra coçar Epona, pois ela estava apenas com um bustier e, por pouco, não estava com os seios nus. Epona arrancou minha camiseta e, esfregando sua escova, raspou a pele dos meus braços, peito e costas. A minha coçada nela tirou muitos pêlos soltos, já a dela em mim me deixou com a pele toda vermelha. Epona notou o engano:
 
“—Me lembre de usar uma coisa mais macia pra te coçar, na próxima vez.”
 
Expliquei a Epona que esse ato de se coçar mutuamente não é comum entre os Humanos – Que os Ooza chamam de Suywan – E que, por isso, eu não sabia como proceder.
 
“—Mas você gostou de coçar comigo?”
 
“Não estranhe a pergunta”, pensei.
 
“—Ah... Achei legal. Coisa nova, nunca tinha feito.”, respondi.
 
Epona passou a carregar as escovas na bolsa. Agora, a gente se coçava todos os dias, fosse na casa dela, fosse na minha. Numa breve conversa que eu tive com Resiarto, estudante da sétima série do primeiro grau, a respeito de futebol, ele me deixa escapar que tinha se habituado a coçar uma colega de classe, de longas madeixas lisas. Conheceu-a num jogo de futebol, antes de iniciarem o ano letivo.
 
Dias depois, Epona me dispara a novidade:
 
“—Resiarto está namorando a Shaila.”
 
“—Quem é Shaila?”
 
“—A coleguinha dele de coçada.
 
“Não estranhe: São jovens, e o amor interracial está na moda”, pensei.
 
Pra mim, o hábito de coçar Epona e de ser coçado por ela já era trivial. Não estranhei quando, entre uma passada de esponja e outra, levei uma leve mordiscada no pescoço. Afinal, tá no instinto dos cavalos fazer isso, e ela é descendente de cavalos. Não estranhei quando ela desabotoou seu bustier para eu lhe coçar as costas. Não estranhei seu abraço durante a minha coçada, não estranhei seus comentários sobre seu irmão tendo um romance com sua coleguinha de classe...
 
...Nem estranhei o beijo súbito com hálito de camomila e as escovas sendo jogadas no chão.
 
“—Suywannn... Me abrrraçe...”
 
Quando já era pra estranhar o nitrido carinhoso de Epona junto ao meu ouvido, estávamos abraçados, seminus, com suas mãos me apertando e beliscando. Sua temperatura estava alta.
 
“—Prrreciso... De você...”
 
Seus carinhos foram interrompidos pela abertura súbita da porta de seu quarto.
 
“—Ai, foi mal, mana!”
 
“—RESIARTO!!!”
 
Foi um balde de água fria: Resiarto entrou o quarto de Epona para pegar uma pomada para lesões (Calminex?), pois tinha se machucado no futebol, e não imaginaria que daria de cara com sua irmã dando uns amassos em um Humano.
 
“—Só vim pegar uma gauma, mana...”
 
“—Ai, que vergonha!!!”
 
Epona se enrolou no lençol e saiu correndo para o banheiro. Ciente de que o clima estava pesado, fui embora, enquanto Resiarto saía pra fora, levando sua gauma.
 
Ela passou a semana inteira sem ter coragem de olhar pra minha cara. Não queria mais que eu a acompanhasse, não queria mais coçar, nem me dirigia mais a palavra.  A princípio não estranhei, pois se fosse uma Humana, seria a mesma coisa.
 
Mas, quando isso começou a interferir no lado profissional, tive que tomar uma atitude. E, após o expediente, fui à casa de Epona, depois de sua terceira falta seguida ao trabalho.
 
Logo de cara, Resiarto sobre um skate, saindo de casa.
 
“—Resiarto, Epona tá em casa?”
 
“—Ah, tá sim!”
 
“—Vai visitar a namoradinha?”
 
“—Claro! A Shaila é incansável!”
 
Agora eu estranhei quando Resiarto disse “A Shaila é incansável”, uma vez que ambos têm só treze anos de idade. “O que aquele potro anda aprontando?”, pensei. Entrei em casa. Zauro assistia TV e Inara assava uns doces. Ela foi a primeira a me ver.
 
“—Querida, teu Suywan!
 
Por mais que eu tentasse não estranhar, a chamada de Inara me deixou de orelhas em pé. O pai dela me perguntou:
 
“—É algum problema com Epona?”
 
“—Bom, seo Zauro, ela faltou pela terceira vez seguida ao trabalho, e o pessoal tá preocupado. Eu tô preocupado.”
 
Bati à porta. A porta cedeu, sem esforço. Encolhida na cama, Epona Kabro me olhava de soslaio.
 
“—Por que veio aqui?”
 
“—Porque me preocupo com você.”
 
Cheguei perto de sua cama. Sentei em uma banqueta que estava lá ao acaso. Tentei fazer-lhe um afago, mas ela se esquivou da minha mão. Falei-lhe palavras doces, tentando animá-la, mas como nunca tinha dirigido esse tipo de papo afetivo para uma Ooza, temia que talvez eu estivesse a ofendendo sem querer. Subitamente, ela disparou:
 
“—Você deve estar pensando que eu sou uma oferecida...
 
“—Não é bem assim, Epona. Tá certo, eu nunca havia sido assediado daquele jeito antes, mas...”
 
“—Não falei? Nunca passei tanta vergonha na vida!”
 
Epona estava se sentindo uma vadia, ou até pior, só porque tinha me dado uns amassos no seu quarto. Gastei muita saliva pra tentar convencer Epona a voltar a trabalhar, prometi até não contar a ninguém sobre o ocorrido, mas nada tirava daquela cabecinha oca que eu a via como uma oferecida.
 
“—Eu não te vejo assim, Epona.”
 
“—Você fala que não, mas aposto que você pensa que eu sou!”
 
Foi preciso falar algo inesperado pra fazê-la mudar de idéia.
 
“—Preciso de você, Epona.”
 
Namorar a potranca não estava nos meus planos mais imediatos, confesso. Mas eu não seria o primeiro, e muito menos, o último.
 
“—Mesmo?”
 
Os olhos brilhantes de Epona cortaram fundo meu coração. Suas mãos foram de encontro às minhas, puxando-as para junto de seu rosto eqüino. Lágrimas desciam de seus olhos castanho-escuros, acompanhadas de um nitrido suave, entrecortado por soluços.
 
“—Suywan... É a mim que você quer? Não prefere uma fêmea da tua raça?”
 
“—Epona, eu não vejo raça. Vejo sentimento. Vejo a vida que eu quero entrelaçar à minha vida, não importa a espécie...”
 
Não estranhei quando Epona voltou a me abraçar. Nem quando ela pegou as escovas e pediu pra voltar a coçar com ela, pra tirar os pêlos soltos. Mas, quando ela me pressionou contra a porta de seu quarto, trancando-a com uma chave, parei de prestar atenção em estranhar ou não o que se passava ao meu redor e deixei o meu instinto me guiar.
 
Não estranhei quando acordei, altas horas da noite, nu, com uma potranca nua abraçada a mim. Todavia, nunca me senti tão leve. Os pêlos dela pinicavam meu corpo que, como o dela, estava salpicado de suor. Senti sua mão esquerda me fazendo um cafuné, enquanto eu ouvia um nitrido preguiçoso.
 
“—Acorrrdou... Suywan?
 
Perguntei as horas, no que fui ignorado. Lembrei que tinha um relógio no pulso. Eram 22h30, o que significava que a noite tinha sido longa. Epona me acarinhava como a um animal de estimação, enquanto sussurrava palavras em seu idioma local.
 
No dia seguinte, Epona voltou, animada, para o trabalho. Apesar de trabalharmos em seções diferentes, vez por outra ela vinha me falar alguma coisa, por mais sem importância que fosse. Na hora do almoço...
 
“—Aê, Teodoro! Demorou mas catou, né?”
 
“—Hein?”
 
“—Não disfarça não, porque a potranca já contou tudo pra minha prima!”
 
Deixei rolar. Não estranhei os comentários, porque eu estava, mesmo, passando a gostar de Epona. Me sentia bem ao lado dela, e não seria o primeiro nem o último a me envolver, de forma mais profunda, com um representante da Ilha do Dr. Moreau.
 
Três meses depois, recebo uma proposta de Zauro:
 
“—Suywan, vou abrir um negócio em Birigui. Quer trabalhar conosco?”
 
“—Mas... E quanto a Epona?”
 
“—Ela já começou a arrumar sua mudança.”
 
“—Hum... Por que não?”
 
Hoje, eu trabalho em uma lan-house no centro de Birigui, em sociedade com a família Kabro. Estou casado com Epona, e Resiarto está de noivado marcado com Shaila. Temos um filho, chamado Humarto, que é 80% Ooza e de mim só herdou os olhos e os pés, com os dedinhos separados, como os pés de um Humano. Pra mim, foi uma surpresa. Já Epona não estranhou.
 
O número de famílias Ooza na região saltou de uma pra 420. Há Ooza morando até em cidades pequenas, como Barbosa e Luiziânia, e nas comunidades rurais. Já os Humanos daqui descobriram Tabax, e muitos se mudaram pra lá. Vou pra Araçatuba todo fim-de-semana, com Epona e Humarto, passear pelo Calçadão, que ficou mais “diversificado”, com tantos canídeos, felídeos, equídeos, cervídeos, símios, roedores e até lagartos semi-humanos circulando pela cidade.
 
Portanto, quando você ver um Humano de mãos dadas com uma égua bípede, carregando um filhote da mesma espécie, circulando pelo Calçadão de Araçatuba, não estranhe:
 
Sou eu.
 
 
FIM.
 
 


Não corte uma árvore no Inverno; pois sentirá falta dela no Verão.
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