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Cabrália - Um Brasil no Mundo Paralelo
#1
“Universos Paralelos. Como eles são? Será que existem mesmo? Como seriam suas leis da Física, Química e as moralidades? Quem já foi pra lá? Se foi, voltou? Como? Hoje, no Repórter Tupi.”
 
Túlio levava uma vida humilde. Fazendo serviços informais, tinha uma Kombi com a qual fazia seus fretes. Ora o dia rendia, ora não, mas ele sempre estava de olho em alguma oportunidade nova para ganhar dinheiro. Sempre lutando.

Todavia, isso não o impediu de ter seu passatempo. E seu passatempo é andar de moto. Demorou, mas conseguiu uma velha RD 350 em um leilão do Detran, e sempre reservava um dinheirinho para comprar peças novas – Ou, pelo menos, usadas de qualidade – e fazer a velha motoca dois-tempos da década de 80 voltar às estradas.

Seu sonho, pegar um fim de semana e ir à praia, até porque não era muito longe. Já tinha se filiado ao Dois Temperos Moto Clube, com seu estranho lema “Sal e Pimenta, só enfrenta quem aguenta”. Um passeio para Mongaguá estava planejado, seria o primeiro passeio dele como membro do motoclube. Hora de mostrar o resultado de anos de dedicação, vida espartana e estudos autônomos de mecânica para seus amigos, portadores de Vespas, Lambrettas, RDs e RXs, Agrales, e até mesmo uma ousada DKW Vemaguete, que serve de carro de apoio do clube (E leva vasto sortimento de peças).

Na estrada, Túlio tem problemas nas velas  da “Viúva Negra”, e fica para trás,  seus amigos sumindo na fumaça azul. Túlio segue a fumaça. A rota estava certa, Túlio não podia ter se perdido. Parou a moto e descobriu-se em um velho posto de gasolina. Que estava fechado havia mais de cinco anos atrás

Foi quando ele foi abordado por um casal em um veículo realmente velho, ao menos em aparência, e se admirando com a moto de Túlio. E mais surpresas viriam para ele: Uma curta conversa e uma olhada ao redor mostram que Túlio pode ter acabado indo longe demais...

Diferenças de Cabrália em relação ao Brasil

--Brasília nunca foi inaugurada, sendo um amontoado de ruínas. JK foi deposto antes da conclusão da cidade. A capital fica em uma cidade chamada “Cidade Cabral”, mas não apresenta nenhum traço da ousadia de Niemeyer, que ficou desacreditado e entrou em falência, suicidando-se dois anos depois do cancelamento de Brasília.

--O Brasil se chama “República Federada Unida da Cabrália”. O Uruguai não existe, em seu lugar fica o Estado da Cisplatina. O Acre também não existe, sendo parte da Bolívia. João Goulart impôs o Parlamentarismo para sufocar o golpe militar, elegendo um marechal como Primeiro-Ministro. Goulart governou até 1976, depois de três reeleições seguidas.

--Os EUA estão numa guerra fria contra Cabrália, pelo domínio das Américas. A Presidente Motores comprou a participação da General Motors e exporta carros para o mundo todo. A Ford foi nacionalizada e tornou-se a estatal CCA – Companhia Cabralina de Automóveis, braço automobilístico da CCT – Companhia Cabralina de Tratores.

--Honda e Yamaha adotaram políticas invertidas na montagem e fabricação de motos em Manaus. A Yamaha se dedicou aos motores de quatro-tempos, enquanto que a Honda, aos de dois-tempos. Por isso, o casal estranha a moto de Túlio que, apesar de conservar o modelo fiel aos anos 80, é tido pelo casal como “futurista”. E uma Yamaha dois-tempos, coisa nunca vista em Cabrália!

--Os computadores cabralinos não usam Windows, mas um sistema próprio nativo, que tem como base o SISNE. Nem os processadores usados em Cabrália são americanos, mas soviéticos – Sim, a URSS ainda existe. Para quem não pode bancar o sistema nacional, há duas alternativas: O Linux ou a pirataria.

--Cabrália está muito avançada, e possui 20 satélites geoestacionários, cinco deles para uso exclusivamente militar. A Rede Globo teve sua concessão cancelada no último ano do governo Goulart (1976), após descobrir-se que Roberto Marinho tinha conspirado com os americanos e militares insurgentes para implementar os golpes fracassados de 1964 e 1974. Com isso, quem domina as TVs cabralinas é um triunvirato formado por Rede Tupi, Rede Record e Rede Bandeirantes.  Outros canais de TV se destacam em âmbitos regionais.

--O primeiro Primeiro-Ministro civil desde Jango foi escolhido pelo presidente Leonel Brizola em 1989. Luiz Inácio da Silva foi Primeiro-Ministro de Brizola por dois mandatos seguidos, lançando sua própria candidatura a presidente e sendo eleito em 1996. Para acalmar setores da Direita que tumultuaram a campanha política e quase colocam o neoliberal Fernando Henrique Cardoso no Palácio do Ipiranga, Lula nomeia o bolivo-brasileiro Eneas Carnero, candidato derrotado pela terceira vez, mas de popularidade crescente, como Primeiro-Ministro. No ano 2000, um atentado orquestrado pela CIA contra Lula matou o empresário Sílvio Santos e mais 19 pessoas em um workshop sobre o futuro da política de Esquerda. Sílvio Santos tinha ideais trabalhistas similares aos de Lula e Brizola, e era pré-candidato à Presidência.  Atualmente, a Presidente é Dilma Rousseff, e o primeiro-ministro é Fernando Haddad.

--Em 2001, dois mísseis de cruzeiro soviéticos atingiram as Torres Gêmeas, mas o sistema de implosão colocado nelas falhou, e apenas 29 pessoas morreram. As torres continuam lá. O “Novo Avião”, projeto iugoslavo cancelado, começa a ser fabricado no Brasil com o nome de SA-1 “Fênix”, pela Encaer (Empresa Nacional Cabralina de Aeronáutica).

--Cabo Verde ainda faz parte de Portugal. As Malvinas foram tomadas pela Argentina, em parte, graças à ajuda cabralina, que colaborou com caças SA-3 “Miragem” e AT-26 “Xavante”, além de mísseis soviéticos, que substituíram os Exocet sabotados e deram ao Reino Unido perdas maiores que o tolerável para continuar com a guerra. Há bases militares cabralinas em Trindade e Martim Vaz (ES) e Penedos de São Pedro e São Paulo (FN), além de bases em quase todos os países da América do Sul (Exceto Chile), Cuba, Angola, Namíbia, Guiné-Bissau, São Tomé & Príncipe, Gabão, Portugal (Açores, Cabo Verde e Madeira) e duas em estudo, uma em Trinidad & Tobago e outra no Haiti.

--Países que existem no mundo de Cabrália: URSS, Iugoslávia, Reinados Unidos do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo), Principado de Taurede (Andorra), Repúblicas Árabes Unidas (Síria, Líbano e Iraque), Lizbia (País Basco), Tibete, Laxaria (Alemanha e Áustria), Palestina (De acordo com as fronteiras de 1967), Ryukyu (Okinawa), Quebec, Estado Sagrado de Meca.

--Países que não existem no mundo de Cabrália: Uruguai (Pertence a Cabrália), Peru, Equador, Venezuela (Pertencem à Colômbia), Porto Rico (É um estado dos EUA), Taiwan, Mongólia (Pertencem à China), Costa Rica, Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua (Formam os EUCA – Estados Unidos da Centro-América), Panamá (Território dos EUA lutando por independência), Chipre (Território da Grécia), Irlanda do Norte (Unificada com o Eire), Coreia do Sul (Unificada com a Coreia do Norte), Sudão do Sul (Unificado com o Sudão), Liechtenstein (Parte da Laxaria), Mônaco (Parte da França), Arábia Saudita (Parte das R.A.U: Os Sa’ud perderam a coroa – E a cabeça – em 1989), Bangladesh, Paquistão (Fazem parte da Índia), Faixa de Gaza (Faz parte do Egito).

--Países com nomes diferentes em Cabrália: Zaire (Rep. Democrática do Congo), Transilvânia (Romênia), República do Eire (República da Irlanda), República Otomana (Turquia), Sião (Tailândia), Timor (Timor Leste), Transilvânia Oriental (Moldova).

--Os Beatles ainda existem e ainda fazem sucesso. “Everyday Chemstry” ainda é o disco mais vendido na história da banda. Os Mamonas Assassinas gravaram cinco discos e se aposentaram do showbiz depois que começaram a surgir outras bandas de “besteirol” imitando-os. Michael Jackson ainda é negro, mas usa cabelos compridos, embora ondulados. Ayrton Senna criou a segunda equipe cabralina de Fórmula 1, a ASGP, que está tendo um desempenho um pouco melhor do que a Fittipaldi em seu tempo. Ele se aposentou depois da corrida de 1º de maio de 1994, quando uma bala resvalou em seu capacete, em um claro atentado. O franco-atirador, de origem inglesa, foi preso, e Senna, que escapou da morte por pouco, decidiu abandonar as pistas como piloto. No futebol, Cabrália ainda está em busca do Tetra, enquanto que a Holanda e a Hungria garantiram seus primeiros títulos (Holanda em 1994, Hungria em 2002), e a França foi bi em 2006, e – Para desespero de Cabrália – A Argentina foi tri em 2014. Em 2016, Cabrália ficou em 4º lugar no quadro de medalhas, melhor resultado da sua história, atrás apenas de URSS, China e EUA, respectivamente.

--Os Trapalhões, sucesso da TV Tupi depois do cancelamento da concessão da Globo, foram dissolvidos depois da morte de Renato Aragão, ao cair do braço do Cristo Redentor depois de a corda ter se partido após um escorregão. Ele estava cumprindo uma promessa religiosa. Mussum e Zacarias fizeram parte do Comando Maluco, ao lado de Dedé Santana, Jorge Lafond, Tião Macalé e Roberto Guilherme como o eterno Sargento Pincel.

--A Teia Mundial conecta computadores de todo o mundo. Nascida nos EUA, replicada na URSS e depois, na China e em Cabrália. Protocolos HTTP e HTTPS são os mais comuns, mas existem outros protocolos usados para conectar-se a “redes não-indexadas” (Leia-se: Teia Oculta, a Deep Web do mundo de Cabrália). Um desses protocolos é o Falcighol (f://...), criado por agentes da AINI a pedido do então Primeiro-ministro Eneas, e hoje usado para os mais diversos fins.

--Cabrália está dividida por seis regiões (Norte, Nordeste, Noroeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul).

Estados que compõem a Região Norte: Amapá (AP, capital Macapá), Marajó (MJ, capital Soure), Maranhão (MA, capital São Luís), Pará (PA, capital Belém), Tapajós (TA, capital Carajás), Tocantins (TO, capital Palmas). 

Estados que compõem a Região Nordeste: Piauí (PI, capital Teresina), Grugueia (GR, capital Alvorada do Grugueia), Ceará (CE, capital Fortaleza), Rio Grande do Norte (RN, capital Natal), Paraíba (PB, capital João Pessoa), Pernambuco (PE, capital Recife), Alagoas (AL, capital Aracaju), Bahia (BA, capital Salvador), Fernando de Noronha (FN, capital Vila dos Remédios). 

Estados que compõem a Região Noroeste: Amazonas (AM, capital Manaus), Roraima (RO, capital Boa Vista), Guaporé (GP, capital Porto Velho), Xingu (XI, capital Parintins).

Estados que compõem a Região Centro-Oeste: Xingu do Sul (XS, capital Rondonópolis) (Norte de Mato Grosso), Mato Grosso (MT, capital Cuiabá), Mato Grosso do Sul (MS, capital Campo Grande), Goiás (GO, capital Goiânia).

Estados que compõem a Região Sudeste: Minas Gerais (MG, capital Belo Horizonte), Espírito Santo (ES, capital Vitória), Triângulo (TR, capital Uberlândia), Rio de Janeiro (RJ, capital Niterói), Guanabara (GB, capital Rio de Janeiro), Distrito Federal (DF, capital Cidade Cabral), São Paulo (SP, capital São Paulo). 

Estados que compõem a Região Sul: Paraná (PR, capital Curitiba), Iguaçu (IG, capital Foz do Iguaçu), Santa Catarina (SC, capital Florianóplis), Missões (MI, capital Pousadas), Rio Grande do Sul (RS, capital Porto Alegre), Cisplatina (CI, capital Montevidéu).
[Imagem: Cabr%25C3%25A1lia.png]
Seriam, então, 34 estados mais o Distrito Federal.
 
Em breve, o primeiro capítulo de Cabrália!


Não corte uma árvore no Inverno; pois sentirá falta dela no Verão.
[Imagem: writer__s_stamp_by_themasterneko-d3d718g.gif][Imagem: brony__stamp_by_blizzykai-d3kvtne.png][Imagem: monster_musume_cerea_stamp_by_venasari-d97gxns.png][Imagem: Gurren_Lagann_Stamp_by_BLUE_F0X.gif][Imagem: my_rosario_vampire_inner_moka_stamp_by_a...6ki62a.png]
[Imagem: CAP.jpg]
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#2
Formidável, um tema que adoro, "Universos Paralelos"!
Snow, gostei muito do tema, da distribuição dos estados e as informações de Cabrália!
Mal posso esperar pra ler o primeiro capítulo!


JrFur    JrFoxFurry     Orlando Maned Wolf 
[Imagem: furrypoll13-badge1.png]
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#3
A Curva Errada

“Hum... Eu acho que peguei a curva errada em Albuquerque.” – Pernalonga

Túlio leva uma vida humilde. Vive de serviços informais, uma vez que possui um amparo social que será cortado caso ele tenha um emprego formal, e empregos formais não andam dando muita garantia. Faz de tudo: manutenção de computadores, vende sorvetes, vende salgados, coleta alumínio e tem uma pequena oficina onde ele retira prata de chapas de radiografia. Como mora sozinho, ninguém o incomoda.


Também faz alguns fretes pequenos, com sua Kombi 1988. É obrigado a cobrar barato para poder ter uma chance frente aos donos de camionetes, caminhões e vans que compõem a concorrência, com veículos mais preparados.

Mas, apesar de fazer tantas coisas, Túlio possui seu hobby. Seu passatempo é andar de moto. Fã de motos dois tempos, já teve uma mobilete e uma RD 135 com motor de DT 200, mas resolveu ir ainda mais longe. Inscreveu-se em um motoclube especializado em motos dois tempos, o Dois Temperos Moto Clube, que possui como lema “Sal e Pimenta, só enfrenta quem aguenta!”. Mas sua RD 135 com motor de DT 200 tinha alguns problemas, portanto ele andou reservando uma grana, vendendo uma parte da prata para comprar uma moto dois tempos de respeito em um leilão do DETRAN.

Achou uma RD 350 prata e vermelha, com os documentos OK. Como poucos se interessavam pela moto, já que haviam motos mais novas e mais impressionantes no leilão, ele conseguiu levar por R$ 1500,00. Moto na Kombi, zarpou pra casa, onde tem uma oficina improvisada. O conhecimento de Túlio sobre mecânica é autodidático, ele aprendeu “mexendo”, tanto na mobilete quanto na RDzinha e numa MZ do tio dele.

Desmontou a moto, e aí viu por que a moto saiu tão barata. O motor precisava ser refeito, o chicote elétrico estava um caco, os freios fariam mais jus ao seu apelido “Viúva Negra”, e o banco estava rasgado. Foi em todas as concessionárias Yamaha em busca de partes seminovas, só achando os discos de freio (Da R6, ainda por cima) e o revestimento do banco. As demais partes, Túlio precisou camelar por lojas independentes e até mesmo desmanches. Mais cinco meses depois, finalmente, estava pronta.

Já iria estrear sua “nova” moto em um passeio de estrada de São Paulo para Mongaguá. Só motos dois tempos, como manda o clube. Como carro de apoio, uma DKW Vemaguete – Que também é dois tempos. O ponto de encontro seria onde era antigamente a “Esquina do Veneno”, ponto de encontro de motociclistas no tempo da Jovem Guarda. Túlio foi um dos últimos a chegar, o ponto de encontro já estava fumegado de fumaça azul. Seus amigos, portadores de Vespas, Lambrettas, RDs e RXs, Agrales, e até mesmo uma MZ igual a do seu tio, já estavam à espera. Logo depois de Túlio, outra RD 350, mas muito modificada, chega fazendo muito barulho. Juba (O presidente do motoclube, por se parecer com um personagem de um seriado dos anos 80 e, assim como ele, só andar de Agrale) começou a desdenhar.

(Juba)—Lá vem o Darci Maluco e sua RD “Frankenstein”.

A RD 350 do Darci, além de um kit norte-americano de 421cc, tinha garfo e balança (Com suas respectivas rodas e pneus) da Fazer 250, que são mais largos que os da RD 350 original. Outra diferença era a carenagem de R3, que sabe-se-lá como, Darci conseguiu encaixar no quadro de sua RD. Darci notou a moto de Túlio e disparou:

(Darci)—Quero ver se consegue ir mais forte que eu!

(Túlio)—Nem pretendo! Minha moto é pra curtir, não pra bagaçar o pouco que consegui consertar!

Galera assovia em aprovação, zombando de Darci.

(Juba)—Tá todo mundo aqui? Podemos ir?

Um integrante montado em uma Vespa Elestart, Luis, avisa:

(Luís)—A Nica ainda não veio!

(Juba)—A Nica foi visitar a prima doente dela, ela não vai participar hoje.

(Luís)—Então, vam’bora!

Sob gritos e assovios, misturados ao som estridente dos motores dois-tempos, o grupo parte, rumo a Mongaguá. Por onde passam, povo xingando. Além de as motos dois tempos fazerem bem mais barulho que suas contrapartes quatro tempos, ainda há a questão da fumaça azul que, vamos e venhamos, não é o que um médico recomendaria para um tuberculoso.

A RD Frankenstein do Darci, além de todas as modificações supracitadas, ainda estava adaptada para etanol. O lubrificante era o já conhecido óleo de rícino – Receita muito usada no kartismo amador de interior: Apesar do consumo elevado, a potência aumenta consideravelmente. Podia fazer frente a uma Honda CBR 600 sem medo.

A Vemaguete ia na frente. Modificada, também, usava um motor de popa V4 Mercury de 120 cv e 1600cc, tinha freios a disco nas quatro rodas e umas modificações na carroceria que fariam um baiano rir. Um verdadeiro Xuning, com partes de fibra de vidro, faróis e lanternas de outros carros, e rodas e pneus de alta performance, mesmo que o carro não passe dos 130 Km/h. Orgulho do Cidão, que conseguiu comprá-la do cara que tinha comprado ela do seu pai. Não sei se o pai do Cidão teria orgulho do que o filho fez na pobre Vemaguete...

Logo atrás da Vemaguete, Juba e sua Agrale amarela com detalhes em vermelho berrante. Paramentado de piloto de motocross (Largou da “carreira” quando as motos de dois tempos foram proibidas), tem orgulho da originalidade de sua Agrale. Ele tem oito, sendo uma para passeio, outra para trilhas e “motocross amador”, e as outras seis para tirar peças.

Atrás de Juba, ia a turba. E, atrás da turba, Túlio e Darci, com suas RDs, quase afogados na fumaça azul da turba que seguia à frente. Darci não é muito afeito da fumaça azul, então acelerou até onde estava Juba, enquanto que a moto de Túlio começou a engasgar, fazendo-o ficar pra trás, a meio caminho de Mongaguá.

Para sorte de Túlio, era apenas um problema nas velas. E Túlio tinha velas sobrando, trocou-as rapidamente e seguiu a fumaça azul. Mas, a certa altura, a fumaça mudou de curso. “Ué, será que eles vão parar em algum posto pra encher o bucho?”, pensou Túlio. Fez a curva, seguindo a fumaça. Um leve degrau passou despercebido e, quando a fumaça se dissipou, Túlio estranhou a pista de concreto. Geralmente esse tipo de pista é usado em pedágios, e ele estava longe de qualquer pedágio.

A paisagem também era estranha. Prédios que Túlio nunca tinha visto antes. E, subitamente, carros que Túlio nunca tinha visto antes. Estranhado, parou em um posto, o primeiro que encontrou pela frente: “Posto Carequinha”. Engraçado, porque até onde ele sabia, o Posto Carequinha tinha sido fechado havia cinco anos atrás dada a morte do Carequinha, um ex-palhaço conhecido regionalmente. “Seja quem for que pôs esse nome, vai arranjar encrenca com os filhos dele, que estão disputando a herança dele até agora!”, pensou Túlio.

O pequeno posto estava quase vazio, com exceção de um caminhão leve, que parecia um filhote do Fenemê, e um carro de linhas bem quadradas, parecido com um Santana. Um detalhe que Túlio viu na traseira, era o nome: Era um Passat. Ou, um Santana com plaqueta de Passat. A placa também era estranha, pois, apesar de ter as mesmas três letras e quatro números, era amarela.

“—UAAAU! Que moto futurista!”, foi uma voz que Túlio ouviu. Olhou para os lados, não havia ninguém. Mas era pra moto dele que um casal estava olhando e admirando o design.

(Túlio)—Er... Tá certo que a minha moto é velha, mas

(Homem)—VELHA?!? Eu nunca vi um design tão arrojado!

O casal se aproxima de Túlio, ainda montado em sua moto.

(Homem)—Esse ronco dois-tempos... Deve ser a nova Hon... YAMAHA?!?

(Túlio)—Sim, Yamaha. RD 350. Uma das motos esportivas mais vendidas deste país.

(Homem)—Rapaz, eu NUNCA VI uma Yamaha dois-tempos! Fala a verdade, é a nova NSR 250, não é?

Confuso e meio irritado, Túlio desce da moto.

(Túlio)—Primeiro o Posto do Carequinha, depois esse Santana com plaqueta de Passat, agora você fazendo troça dizendo que minha Yamaha é uma Honda! Melhor eu comer algo e falar pra quem reabriu o posto que os herdeiros do Carequinha vão meter ele no pau...

(Homem)—“Reabriu”? Moço... O Posto Carequinha nunca fechou!

Mais irritado ainda, Túlio entra na loja de conveniência, onde um senhor bonachão, com certa idade, o recepciona entusiástico. Túlio não podia acreditar no que via.

Era o Carequinha, em pessoa.

(Túlio)—C... C-Carequinha?!?

(Carequinha)—Eu mesmo, jovem! Ainda quase tão disposto quando no circo!

(Túlio)—Mas... Mas... Você não tinha morrido de câncer cinco anos atrás? Teus filhos estão se matando por causa da herança que você tinha deixado pra eles!

(Carequinha)—Herança? Câncer? Filhos?!?... O jovem bateu com a cabeça por aí ou está muito mal informado! Como pode ver por si próprio, estou mais do que vivo! E nunca tive filhos, só uma filha, a Manuela!

A confusão aumenta, porque Manuela seria o nome da primeira filha do Carequinha, que nasceu morta! Foi quando Carequinha deixou o circo, em depressão profunda. Um cesto de revistas estava perto de um banco. Túlio resolve se sentar e ler algo. E eis que a primeira revista que ele pega é uma Motor 3... De 2015.

Folheia as páginas. Na seção de carros, mais confusão. Presidente Motores. Companhia Cabralina de Automóveis. FNM. O novo Gurgel Elétrico. Na seção de motos, NSR 250, a nova esportiva da Honda. Yamaha só fabrica modelos de quatro-tempos. A Agrale é a terceira maior montadora de...

(Túlio)—CABRÁLIA?!?

Correu até o mapa do Brasil. No lugar, estava  escrito “República Federada Unida de Cabrália”. Sem o Acre, com o Uruguai e a província argentina de Misiones como parte do país, e com divisões um tanto estranhas. Olhou para as paredes da loja. Produtos que haviam sido extintos estavam sendo vendidos. Olhou outras revistas. Havia uma velha revista Veja, de 1988. Era o número de despedida, com a falência da Editora Abril. A revista semanal mais lida era a Manchete, do grupo Bloch, que também publicava a Playboy e a Quatro Rodas.

(Túlio)—A TV... RÁPIDO, LIGUE A TV!!!

Assustado, Carequinha ligou a TV e, tremendo, passou o controle remoto para Túlio. No lugar da Rede Globo estava a Rede Tupi, a Cultura ainda se chamava RTC, a Rede Manchete estava com um logotipo diferente, assim como o da Rede Bandeirantes e o da Rede Record.

No jornal do meio-dia, notícias da URSS e da guerra fria dos EUA contra Cabrália, que tem forte influência soviética (Inclusive, Túlio viu um comercial da Lada). 18 anos da morte de Sílvio Santos. Terminadas as reformas das Torres Gêmeas. O Novo Avião iugoslavo sendo fabricado em Cabrália com o nome de SA-1 “Fênix”. O show dos Beatles no Maracanã, com os sucessos do disco “Everyday Chemistry”. Mussum e Zacarias falando da morte de Renato Aragão.

Tudo parecia invertido onde ele estava! Em choque, Túlio convulsiona, estrebuchando no chão. Carequinha, que já estava pensando em chamar a Polícia, muda de ideia e resolve chamar uma ambulância.

Desacordado, Túlio é levado até a ambulância amarrado em uma maca. Seus pertences em uma mochila, seu capacete e sua moto ficam.

(Carequinha)—Não se preocupe, vou tomar conta dos pertences dele até ele voltar.

Com a moto guardada, e o posto fechado, carequinha decide investigar. Abre a mochila de Túlio, encontrando um notebook, várias revistas e mapas. Depois de ver os itens, resolve levar a mão ao telefone. Disca um número familiar.

“—Pedroso, AINI.”

(Carequinha)—Pedroso? É o Carequinha. Do posto. Preciso que venha à minha casa. Não sei se ficou sabendo de um rapaz que teve um piripaque na minha loja...

(Pedroso)—Fiquei sabendo, dizem que ele não fala coisa com coisa.

(Carequinha)—Andei dando uma olhada na mochila que ele deixou aqui e, bem... Você precisa ver isto.

O ex-palhaço estava com o notebook com um sistema operacional que ele nunca tinha visto antes – O Windows 7 –  e segurando uma revista que nunca tinha sido lançada – A Duas Rodas.

Não demorou muito, um carro negro de linhas sóbrias estava em frente à casa do Carequinha. Era o agente Pedroso, e sua colega de trabalho, a agente Hernendez. Carequinha os recebe, assustado, pedindo para que entrem em um quarto onde ele havia deixado os pertences de Túlio, inclusive a moto.

(Pedroso)—Estranho... Olhe essa revista, Dolores. Olhe as linhas futurísticas dessas motos.

(Hernandez)—Olhe ESTA MOTO! Nunca havia visto uma Yamaha dois-tempos, pelo menos não aqui em Cabrália! Geralmente, a Yamaha não importa motos dois-tempos... Pode ter sido uma importação independente...

(Pedroso)—O que é “Brasil”? (Olhando o notebook de Túlio)

(Hernandez)—Sabe o que me lembra isso?

(Pedroso)—O quê, Dolores?

(Hernandez)—Lembra do tauredense que diz que foi parar em uma dimensão paralela? E que nessa dimensão, no lugar de Taurede, existia um tal de Principado de Andorra?

(Pedroso)—Lembro. As autoridades espanholas e tauredenses trancaram o cara e ele nunca mais foi visto.

(Hernandez)—Acho que nos temos no nosso “Homem de... (Olha o notebook) Brasil”. Veja este mapa. Que região é essa a sudoeste do Amazonas? “Acre”?

(Pedroso)—Isto não é nada... No lugar do estado da Cisplatina está um país independente chamado... “Uruguai”.

(Hernandez)—Então, lá eu seria uma uruguaia.

(Pedroso)—E não estaria na AINI. (Para Carequinha)—Certo, Carequinha, vamos empacotar tudo o que era desse cara e levar para análise. Nós também temos umas perguntas pra fazer pra ele.

(Carequinha)—Ele não é perigoso?

(Pedroso)—Até onde descobrimos, ele estava em um passeio... (Olha o “patch” do motoclube) E, pelo visto, não estava sozinho. Temos que contatar outros postos de gasolina pra ver se outros... “Brasilianos” não vieram parar em Cabrália por engano.

(Hernandez)—Precisamos interditar a vicinal por onde teu posto passa, então sugiro que tire umas férias. De preferência, no litoral. E, você sabe o procedimento padrão.

(Carequinha)—Listar quem estava no posto quando ele apareceu. Não comentar disso pra ninguém. Entendi.

(Pedroso)—Bom garoto.

Hospital São Padre Cícero, 22:43h.

(Túlio)—Me... Me tirem... Daqui...

(Enfermeira)—Coitado, está delirando... Diz a toda hora que veio de um lugar chamado Brasil, e que este não é o mundo dele...

(Outra enfermeira)—Deve ter batido muito forte com a cabeça...

Nisso, os agentes Pedroso e Hernandez aparecem.

(Pedroso)—Com licença, o paciente chamado Túlio, o que fala que veio de outro mundo, onde está?

(Enfermeira)—Quem é o senhor?

Agente Pedroso abre a carteira, com o distintivo da AINI.

(Pedroso)—Vocês já viram uma dessa antes, não?

(Enfermeira)—Então, ele é mesmo um... Daqueles?

(Pedroso)—Preparem uma ambulância, nós vamos levá-lo sob custódia. Coloque “Alta” na sua ficha médica.

Os procedimentos são feitos, e Túlio é levado de ambulância até uma das diversas instalações que a AINI diz não ter em Cabrália.

“Instalação-que-a-AINI-não-tem” Nº7, 01:33h.

Túlio acorda, ainda na maca da ambulância, mas em um ambiente bem menos asséptico que o hospital. De pé, ladeando-o, Agente Pedroso e Agente Hernandez.

(Pedroso)—Sabemos que tem muitas perguntas. Mas nós temos uma para você. O nome “Andorra” te lembra algo?

(Túlio)—Sim, um pequeno país encravado entre a Espanha e a França.

(Hernandez)—Com certeza, é um Daqueles.

(Túlio)—“Daqueles” o quê?

(Pedroso)—Levante-se. Nós vamos responder às tuas perguntas. Mas primeiro, explique, passo a passo, o que te trouxe ao Posto do Carequinha.

(Túlio)—Ai, caramba... Ele não tá encrencado, tá?

(Hernandez)—Não se preocupe com ele, não é a primeira vez que ele passa por uma situação dessas.

Túlio se levanta, suas roupas são devolvidas, e depois que ele está novamente vestido, Pedroso pede para que os acompanhe. Depois de certo tempo, estão em uma instalação bem maior.

(Pedroso)—Não sei se você vai reconhecer isto, mas... Quem estava dentro disto também tinha como destino esse tal de Brasil.

Uma chave é acionada, e as luzes se acendem, uma a uma. Túlio não acredita no que vê com seus próprios olhos.

Um Boeing 707-323C, com as cores da VARIG.

(Pedroso)—Coincidentemente, tinha saído do Japão, o mesmo lugar para onde foi um senhor deste mundo. Ele era de Taurede. Quando te perguntamos sobre “Andorra”, é porque aquele país encravado entre a Espanha e a França, neste mundo, se chama Taurede.

(Túlio)—Não me diga que... O “Homem de Taured” é DAQUI? Quando eu li aquilo, eu achei tão viajado!... Mas aí, eu li sobre um cara que também tinha ido para um “mundo paralelo”, e trazido uma fita com um sucesso dos Beatles da década de 70, quando eles já tinham se separado, e o Lennon tinha morrido!

(Pedroso)—“Everyday Chemistry”? Minha namorada adora aquele disco.

(Túlio)—Acho que eu tô REALMENTE encrencado. Então, este avião...

(Hernandez)—Apareceu misteriosamente por aqui. Os americanos só não apreenderam o avião, porque pensaram que “VARIG” era o nome de uma companhia japonesa. Nossos agentes da AINI tiveram um trabalhão para encaixar esses passageiros neste ambiente. Alguns se suicidaram, até. Nós os chamamos de “Aqueles”. A AINI os monitora, 24 horas por dia, 7 dias por semana. E, agora, você também será monitorado.

(Pedroso)—Teus bens ficarão aqui, mas você terá equivalentes daqui de Cabrália. Nós faremos contato com você regularmente, até que possamos encontrar uma forma de fazer você voltar para o lugar onde estava.

(Túlio)—Meus bens?... Quer dizer, até MINHA MOTO?

(Continua...)


Não corte uma árvore no Inverno; pois sentirá falta dela no Verão.
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#4
Incrível Snow, cheguei arrepiar com a inversão!


JrFur    JrFoxFurry     Orlando Maned Wolf 
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